130.
Penso, muitas vezes, em como eu seria
se, resguardado do vento da sorte pelo biombo da riqueza, nunca
houvesse sido trazido, pela mão moral do meu tio, para um escritório
de Lisboa, nem houvesse ascendido dele para outros, até este píncaro
barato de bom ajudante de guarda-livros, com um trabalho como uma
certa sesta e um ordenado que dá para estar a viver.
Sei bem que, se esse passado que não
foi tivesse sido, eu não seria hoje capaz de escrever estas páginas,
em todo o caso melhores, por algumas, do que as nenhumas que em
melhores circunstâncias não teria feito mais que sonhar. É que a
banalidade é uma inteligência e a realidade, sobretudo se é
estúpida ou áspera, um complemento natural da alma.
Devo ao ser guarda-livros grande parte
do que posso sentir e pensar como a negação e a fuga do cargo.
Se houvesse de inscrever, no lugar sem
letras de resposta a um questionário, aque influências literárias
estava grata a formação do meu espírito, abriria o espaço
ponteado com o nome de Cesário Verde, mas não o fecharia sem nele
inscrever os nomes do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, do
Vieira caixeiro de praça e do António moço do escritório. E a
todos poria, em letras magnas, o endereço chave LISBOA.
Vendo bem, tanto o Cesário Verde como
estes foram para a minha visão do mundo coeficientes de correção.
Creio que é esta a frase, cujo sentido exato evidentemente ignoro,
com que os engenheiros designam o tratamento que se faz à matemática
para ela poder andar até à vida. Se é, foi isso mesmo. Se não é,
passe por o que poderia ser, e a intenção valha pela metáfora que
falhou.
Considerando, aliás, e com a clareza
que posso, o que tem sido aparentemente a minha vida, vejo-a como uma
coisa colorida — capa de chocolate ou anilha de charuto —
varrida, pela escova leve da criada que escuta de cima, da toalha a
levantar para a pá de lixo das migalhas, entre as côdeas da
realidade propriamente dita. Destaca-se das coisas cujo destino é
igual por um privilégio que vai ter à pá também. E a conversa dos
deuses continua por cima do escovar, indiferente a esses incidentes
do serviço do mundo.
Sim, se eu tivesse sido rico,
resguardado, escovado, ornamental, não teria sido nem esse breve
episódio de papel bonito entre migalhas; teria ficado num prato da
sorte — “não, muito obrigado” — e recolheria ao aparador
para envelhecer. Assim, rejeitado depois de me comerem o miolo
prático, vou com o pó do que resta do corpo de Cristo para o
caixote do lixo, e nem imagino o que se segue, e entre que astros;
mas sempre é seguir.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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