26/09/2026

Acerto de contas

Zé Lins me disse n’O Globo:
– O José quer te editar.
E foi com José Olympio
que a carreira começou.
Soprou um Vento geral.

No tempo de Ênio Silveira,
homem por demais. Com ele
combati o bom combate.
Cantei no escuro. Deu cárcere.

Abri a porta do exílio,
entrou um moço bonito,
me abraçou: – Vim do Brasil,
quero o seu poema, ele é meu.
Editou os Estatutos
com o galo do Aldemir
anunciando a esperança.
Era o Waldir Martins Fontes,
estrela que não se apaga.

Rosemary Alves me soube.
Seu cocar iluminado
quis meu Canto castelhano.
Não pôde fazer milagre.
De uma vez por todas digo:
fui longe pela mão dela.

Isaac Maciel e Tenório Telles
ressuscitaram o gosto
que Manaus tinha de ler.
Vestiram o Silêncio e palavra,
primogênito meu, de linho branco HJ.
Sérgio Bath mostrou bilíngue
como A Floresta vê o homem.

Não fora o José Reinaldo
com a sua editora Pontes
nenhum leitor ia ver
o Borges na luz de Borges.

Quem primeiro enxergou
e mostrou para a Lily Sverner
a luz da Pátria da Água
foi o André meu Boccato
Com o olho do Marigo
e a graça dos índios Ticunas.

Com Luiz Alves de irmão
(sonhei que ele me esperava),
sigo cantando. Os poetas
da nossa América guardam
seu nome. Quem afinou
os bemóis e sustenidos

dos fonemas castelhanos
foi o Quartim de Moraes.
Sobrou fôlego. A carreira
não se acaba. Fiel a meu rio,
guardo a fé. Como Sou.

Conversei com Paulo, o apóstolo, ele permitiu
que eu me valesse do que falou para Timóteo,
quando fez seu ajuste de contas com a Vida:

Combati o bom combate,
acabei a carreira, guardei a fé.
(Carta a 2 Timóteo 4:7)

Thiago de Mello, em Acerto de contas

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