[8]
As casas do povoado, como em todos os
salitrais do deserto, definiam perfeitamente as três classes sociais
que imperavam: as casas de chapas de zinco dos peões, as casas de
adobe dos empregados, e os luxuosos chalés dos gringos.
A nossa casa era um barracão de zinco
carcomido dividido em três partes. A primeira era a “sala de
visitas”, como todo mundo dizia (embora em nossa casa nunca tenha
havido visitas). A segunda servia de dormitório, e a terceira parte,
a lá do fundo, de cozinha e sala de jantar. No dormitório cabiam
exatamente as três camas de ferro forjado que a gente tinha. Numa,
dormia meu pai; na outra, meus três irmãos maiores; e na terceira,
meu irmão Marcelino e eu.
Eu, virada para a cabeceira; ele, para
o pé da cama.
Do maior para o menor, os nomes de
meus irmãos eram Mariano, Mirto, Manuel e Marcelino. O meu é Maria
Margarita. Como já devem ter percebido, meu pai tinha uma fixação
por nomes que começavam com eme. Isso, desde que, segundo ouvi ele
mesmo contar certa vez, percebeu que, além dele se chamar Medardo,
sua mãe se chamava Martina e seu pai, Magno.
Hoje, acho que a única razão que fez
meu pai se casar com minha mãe foi ela se chamar Maria Magnólia. É
que eles não tinham afinidade alguma, não se pareciam em nada. Eram
feito água e óleo. Além do mais, meu pai tinha uma diferença de
vinte e cinco anos a mais do que ela.
“Era assim que se usava antigamente
no campo”, ouvi minha mãe dizer, num suspiro de desencanto, quando
uma vizinha achou estranho aquele contraste de idades.
Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

Nenhum comentário:
Postar um comentário