01/09/2026

11 — A duplicação de Ivan



O bosque na margem oposta do rio, ainda há uma hora iluminado pelo sol de maio, turvou-se, borrado, e se dissipou.
A água caía como uma cortina contínua do outro lado da janela. No alto, a todo instante, linhas irradiavam, o céu arrebentava, e uma luz vacilante e assustadora era derramada no quarto do doente.
Sentado na cama, Ivan chorava baixinho, olhando para o rio turvo em ebulição. A cada trovoada, ele soltava um grito penoso e cobria o rosto com as mãos. As folhas escritas por Ivan estavam largadas no chão. Tinham sido carregadas pelo vento que soprou no quarto antes de a tempestade começar.
As tentativas do poeta de escrever uma denúncia sobre o terrível consultor não deram em nada. Assim que ele recebeu um toco de lápis e papel das mãos da gorda assistente, que se chamava Praskóvia Fiódorovna, Ivan esfregou as mãos com um ar prático e depressa instalou-se à mesa. O início lhe veio com bastante facilidade:
“À polícia. Do membro da Massolit, Ivan Nikoláievitch Bezdômny. Denúncia. Ontem à noite, eu fui com o falecido M.A. Berlioz a Patriarchi Prudý...”
Mas imediatamente o poeta ficou confuso, principalmente por causa da palavra “falecido”. Logo de saída veio à tona um ponto absurdo: como assim... “fui com o falecido”? Os mortos não vão a lugar algum! Realmente, são capazes de me tomar por louco!
Pensando assim, Ivan Nikoláievitch começou a corrigir o que havia escrito. Saiu o seguinte: “... com M.A. Berlioz, posteriormente falecido...” Mas isso também não o satisfez. Ele teve de recorrer a uma terceira versão, que resultou pior do que as duas primeiras: “... Berlioz, que foi parar debaixo do bonde...” — e aqui não saía de sua cabeça aquele compositor homônimo que ninguém conhecia, e então teve que incluir: “... não o compositor...”
Depois de padecer muito com esses dois Berlioz, Ivan riscou tudo e resolveu começar de uma vez com algo bem forte para atrair a atenção do leitor imediatamente. Então escreveu que um gato pegou o bonde, e depois voltou ao episódio da cabeça decepada. A cabeça e a previsão do consultor o remeteram ao pensamento sobre Pôncio Pilatos e, para ser ainda mais convincente, Ivan resolveu expor na íntegra toda a história do procurador, desde aquele exato momento em que, de manto branco, com a barra cor de sangue, ele saiu para a colunata do palácio de Herodes.
Ivan trabalhava com afinco, riscava o que havia escrito, inseria palavras novas, e até tentou desenhar Pôncio Pilatos, e a seguir um gato nas patas traseiras. Mas os desenhos também não ajudavam e, quanto mais avançava, mais confusa e incompreensível se tornava sua denúncia.
Naquele momento em que uma nuvem assustadora com as bordas fumegantes apareceu ao longe e cobriu o bosque, e o vento soprou, Ivan sentiu que já não tinha forças, que não daria conta da denúncia, desistiu de recolher as folhas que tinham voado e pôs-se a chorar baixinho, amargurado.
Praskóvia Fiódorovna, a assistente de bom coração, que fora dar uma olhada no poeta na hora da tempestade, ficou aflita quando viu que ele chorava. Fechou a cortina para que os raios não assustassem o doente, recolheu as folhas do chão e foi correndo com elas procurar o médico.
O médico apareceu, aplicou uma injeção no braço de Ivan e garantiu que ele não iria mais chorar, que agora tudo iria passar, tudo iria mudar e tudo seria esquecido.
O médico tinha razão. Logo o bosque da outra margem do rio ficou como antes. Ele se delineava até a última árvore sob o céu, que voltara a ficar limpo e completamente azul, como antes, e o rio se acalmou. A desolação começou a deixar Ivan logo após a injeção, e agora o poeta estava deitado, calmo, olhando para o arco-íris que se estendera no céu.
Assim continuou até a noite e ele nem percebeu quando o arco-íris se dissolveu, como o céu ficou triste e desbotado e o bosque enegrecido.
Depois de beber leite morno, Ivan deitou de novo e se admirou com a mudança que se operou em seus pensamentos. O maldito gato diabólico suavizou-se em sua memória, a cabeça decepada não o assustava mais e, deixando de lado o pensamento sobre ela, Ivan começou a refletir que, no fundo, não era assim tão ruim estar na clínica, que Stravinski era muito inteligente, uma celebridade, e que era extremamente agradável lidar com ele. No fim das contas, o ar da noite ficou doce e fresco após a tempestade.
A casa da aflição estava adormecendo. Nos corredores silenciosos as lâmpadas brancas frias iam se apagando e no lugar delas foram acesas, de acordo com os regulamentos, lâmpadas de cabeceira, fracas, azuis, e cada vez mais raramente se ouviam atrás das portas os passos cuidadosos das assistentes nos tapetes de borracha do corredor.
Agora Ivan estava deitado em doce languidez, olhando ora para a pequena lâmpada sob a cúpula do lustre que derramava, do teto, uma luz atenuada, ora para a lua, que saía de trás do bosque negro, e conversava consigo mesmo.
— Realmente, por que fiquei tão alterado por Berlioz ter ido parar debaixo do bonde? — raciocinava o poeta. — No fim das contas, ele que vá para o inferno! Na verdade, o que eu sou dele, amigo do peito ou parente? Pensando melhor sobre essa questão, chegarei à conclusão de que eu, na realidade, nem sequer conhecia o falecido muito bem. Na verdade, o que eu sabia sobre ele? Nada, a não ser que era careca e extremamente eloquente. E tem mais, cidadãos — prosseguia seu discurso, dirigindo-se a uma pessoa qualquer —, vejamos qual é a questão: por que eu, expliquem, fiquei irritado com esse enigmático consultor, mago e professor com aquele olho vazio e negro? Para quê toda essa perseguição sem sentido, só de ceroulas e com uma vela nas mãos, e depois a confusão no restaurante?
— Ei, vá com calma — de repente disse, severo, o Ivan de antes, em algum lugar, de dentro ou ao pé do ouvido, ao novo Ivan. — Ele não sabia de antemão que a cabeça de Berlioz seria decepada? Como não ficar alterado?
— Que conversa é essa, camaradas! — exclamava o novo Ivan ao antigo Ivan. — Que aqui o negócio não cheira bem até uma criança pode entender. Trata-se de uma personalidade cem por cento fora do comum e misteriosa. Mas é exatamente isso o mais interessante! O homem conheceu Pôncio Pilatos pessoalmente, querem algo mais interessante do que isso? Em vez de armar o maior escândalo em Patriarchi, não teria sido mais inteligente perguntar com educação o que aconteceu depois com Pilatos e com aquele preso, Ha-Notzri? O diabo vai saber com o que fui me meter! Um acidente importante, na verdade; o editor de uma revista foi atropelado! E daí, será que a revista vai fechar por causa disso? O que é que se vai fazer? O homem é mortal e, como já foi dito com toda a propriedade, é inesperadamente mortal. Que descanse em paz! Haverá outro editor e até, quem sabe, ainda mais eloquente do que o antigo.
Depois de cochilar um pouco, o novo Ivan perguntou com escárnio ao velho Ivan:
— Então, quem sou eu nesse caso?
— Um idiota! — em algum lugar falou uma voz grave, nítida, que não pertencia a nenhum dos Ivans e que era extremamente parecida com a voz grave do consultor.
Sabe-se lá por que Ivan não se ofendeu com a palavra “idiota”, mas até ficou agradavelmente admirado, sorriu e se acalmou, semiacordado. O sono se apoderava de Ivan e ele já imaginava uma palmeira em sua perna de elefante, um gato passando em frente — não terrível, mas alegre. Resumindo, logo, logo, o sono surpreenderia Ivan, quando de repente, sem fazer barulho, a grade se moveu para o lado, e na varanda surgiu uma figura misteriosa, desviando da luz da lua e acenando com o dedo para Ivan.
Sem se assustar nem um pouco, Ivan se ergueu na cama e viu que na varanda havia um homem. E esse homem, encostando o dedo nos lábios, sussurrou:
— Shh!

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

Nenhum comentário:

Postar um comentário