03/08/2026

Minha história


1

Passei boa parte da infância escutando o som do esforço. Chegava a mim sob a forma de música ruim, ou pelo menos amadora, atravessando as tábuas do assoalho do meu quarto — o plim-plim-plim dos alunos sentados no andar de baixo, diante do piano da minha tia-avó Robbie, aprendendo as escalas devagar e com muitos erros no caminho. Minha família vivia no bairro South Shore, em Chicago, em uma construção de tijolos que era de Robbie e de seu marido, Terry. Meus pais alugavam o apartamento do segundo andar e Robbie e Terry moravam no primeiro. Robbie era tia da minha mãe e foi muito generosa com ela ao longo dos anos, mas comigo era um terror. Empertigada e séria, ela dirigia o coro da igreja local e também era a professora de piano oficial da nossa comunidade. Usava saltos confortáveis e mantinha o par de óculos de leitura em uma correntinha em volta do pescoço. Tinha um sorriso maroto mas, ao contrário da minha mãe, não gostava de sarcasmo. Às vezes, eu a ouvia dando bronca nos alunos por não terem praticado o suficiente ou até nos pais, por chegarem atrasados com os filhos para as aulas.
Boa noite!”, exclamava ela no meio da tarde, no mesmo tom exasperado que outra pessoa diria “Ah, pelo amor de Deus!”. Parecia que poucos conseguiam corresponder às expectativas de Robbie.
Mas o som das pessoas tentando tocar piano virou a trilha sonora da nossa vida. Havia plim-plim à tarde, plim-plim à noite. As senhoras da igreja às vezes iam ensaiar os hinos, entoando a devoção através das paredes. Segundo as normas de Robbie, crianças que faziam aulas de piano só podiam trabalhar uma música por vez. Do meu quarto, eu as ouvia tentando, notas e mais notas incertas, conquistar a aprovação dela, passar da canção de ninar folclórica “Hot Cross Buns” para a de Brahms, mas só depois de inúmeras tentativas. A música nunca era irritante, apenas persistente. Galgava a escada que separava nosso espaço do de Robbie. Entrava pelas janelas abertas no verão, acompanhando meus pensamentos quando eu brincava com as minhas Barbies ou construía pequenos reinos com bloquinhos de montar. A única trégua era quando meu pai chegava do turno matinal na estação de tratamento de água da cidade e sintonizava na TV um jogo de beisebol dos Cubs, aumentando o volume o suficiente para não ouvir o piano.
Era o finzinho da década de 1960 no South Side de Chicago. Os Cubs não eram ruins, mas também não eram bons. Eu me sentava no colo do meu pai, na cadeira reclinável dele, e o ouvia contar que os Cubs estavam sofrendo uma crise de fim de temporada ou dizer que Billy Williams — que morava na Constance Avenue, esquina com a nossa rua — dava ótimas tacadas no lado esquerdo da base. Fora dos estádios de beisebol, os Estados Unidos estavam no meio de uma mudança gigantesca e duvidosa. Os Kennedy tinham morrido. Martin Luther King Jr. fora assassinado em uma sacada em Memphis, desencadeando motins país afora, inclusive em Chicago. A Convenção Nacional Democrata de 1968 se transformou em um banho de sangue quando a polícia atacou os manifestantes contrários à Guerra do Vietnã com bastões e gás lacrimogêneo em Grant Park, a uns quinze quilômetros da nossa casa. Nesse ínterim, famílias brancas deixavam a cidade aos bandos, seduzidas pelos subúrbios — a promessa de escolas melhores, mais espaço e provavelmente mais brancura também.
Na verdade, não absorvi nada disso. Eu era apenas uma criança, uma menina que brincava com Barbies e bloquinhos de montar, com os pais e com um irmão mais velho que dormia sempre com a cabeça a um metro da minha. Minha família era o meu mundo, o centro de tudo. Minha mãe me ensinou a ler cedo — me levava à biblioteca pública e se sentava a meu lado enquanto eu pronunciava as palavras em cada página. Todo dia meu pai ia trabalhar com o uniforme azul de funcionário municipal, mas à noite nos mostrava o que era amar o jazz e a arte. Quando menino, ele teve aulas no Instituto de Arte de ­Chicago, e no ensino médio pintava e esculpia. Nessa época também foi nadador e boxeador, competindo pela escola. Quando adulto, tornou-se fã de todos os esportes televisionados, de golfe profissional à Liga Nacional de Hóquei. Gostava de ver pessoas fortes se sobressaírem. Quando meu irmão, Craig, se interessou por basquete, meu pai passou a colocar moedas na moldura da porta da cozinha, incentivando-o a saltar para pegá-las.
Tudo o que tinha importância ficava a no máximo cinco quarteirões dali — meus avós e primos, a igreja na esquina onde não frequentávamos regularmente a escola dominical, o posto de gasolina onde minha mãe me mandava comprar um maço de Newports, e a loja de bebidas, que também vendia pão Wonder, bala barata e galões de leite. Nas noites quentes de verão, Craig e eu cochilávamos ao som dos jogos de softball da liga adulta que aconteciam no parque público próximo dali, o qual visitávamos de dia para subir no trepa-trepa do parquinho e brincar de pega-pega com as outras crianças.
Craig é menos de dois anos mais velho que eu. Ele tem o olhar afável e o jeito otimista do meu pai, mas a inflexibilidade da minha mãe. Sempre fomos próximos, em parte graças à dedicação inabalável e um tanto inexplicável que ele pareceu sentir pela irmã caçula desde o início. Existe uma foto antiga da família, em preto e branco, de nós quatro sentados no sofá, minha mãe sorridente ao me segurar em seu colo, meu pai sério e orgulhoso com Craig no seu. Estávamos vestidos para ir à igreja ou talvez a um casamento. Eu tinha uns oito meses, uma menina de cara fechada e rosto gorducho, de fralda e vestido branco passado, pronta para escapar das garras da minha mãe, o olhar fixo na câmera como se fosse comê-la. A meu lado está Craig, todo arrumado, de gravatinha-borboleta e paletó, a expressão séria. Ele tinha dois anos e já era o retrato da vigilância e da responsabilidade fraternal — o braço esticado até o meu, os dedos fechados em torno do meu punho gordinho em um gesto protetor.
Na época em que a foto foi tirada, morávamos no mesmo andar dos meus avós paternos em Parkway Gardens, um conjunto habitacional de prédios modernistas a preço acessível no South Side de Chicago. Construído na década de 1950 e planejado para ser um edifício em cooperativa, em que não se tem de fato a escritura da casa, apenas ações da empresa que lhe permite morar nela, tinha o intuito de amenizar a escassez de moradia para famílias negras da classe trabalhadora depois da Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, ficaria deteriorado sob o jugo da pobreza e da violência das gangues, virando um dos lugares mais perigosos da cidade. Muito antes disso, porém, quando eu era pequena, meus pais — que se conheceram na adolescência e se casaram com vinte e poucos anos — aceitaram a oferta de se mudar alguns quilômetros mais ao sul, para a casa de Robbie e Terry, que ficava numa área mais bacana.
Na Euclid Avenue, éramos duas famílias vivendo sob um teto não muito grande. A julgar pela planta, o segundo andar provavelmente fora projetado como um anexo para uma ou duas pessoas, mas nós quatro achamos um jeito de caber ali dentro. Meus pais dormiam no único quarto, Craig e eu dividíamos uma área mais ampla que imagino ter sido concebida como sala de estar. Mais tarde, quando crescemos, meu avô — Purnell Shields, pai da minha mãe, um apaixonado por carpintaria, apesar de não muito habilidoso — levou uns painéis de madeira baratos e improvisou uma divisória que separava o ambiente em dois espaços semiprivados. Acrescentou uma porta sanfonada de plástico a cada ambiente e criou uma pequena área comum na frente, onde guardávamos brinquedos e livros.
Eu adorava meu quarto. Tinha espaço suficiente para minha cama de solteiro e uma escrivaninha estreita. Deixava meus bichinhos de pelúcia na cama, arrumando todos meticulosamente em volta da minha cabeça à noite como uma forma de ritual reconfortante. Do outro lado da parede, Craig vivia uma espécie de existência espelhada, sua cama junto ao painel, paralela à minha. A divisória era tão fina que conseguíamos conversar deitados na cama, muitas vezes jogando uma bola de meia de um lado para outro pelo vão de 25 centímetros entre a divisória e o teto.
Tia Robbie, por sua vez, fazia de sua parte da casa um mausoléu, a mobília coberta por plástico protetor, um material frio que grudava nas minhas pernas nuas quando eu tinha coragem de me sentar. As prateleiras eram cheias de bibelôs de porcelana que não podíamos tocar. Eu deixava minha mão pairar sobre um conjunto de poodles de vidro com expressões dóceis — uma mãe de aparência delicada e três filhotes minúsculos — e depois a retirava, com medo da ira de Robbie. Quando não havia aula de piano, o primeiro andar era tomado por um silêncio mortal. A TV e o rádio nunca eram ligados. Não sei nem se os dois conversavam muito ali embaixo. O nome completo do marido de Robbie era William Victor Terry, mas por alguma razão só o chamávamos pelo último sobrenome. Terry era como uma sombra, um homem de aparência distinta que usava terno completo todos os dias da semana e basicamente não falava nem uma palavra.
Passei a considerar o andar de cima e o de baixo dois universos diferentes, governados por sentimentos opostos. No andar de cima, fazíamos o maior barulho sem nos preocupar. Craig e eu jogávamos bola e corríamos pelo apartamento. Borrifávamos lustra-móveis no assoalho de madeira do corredor para deslizar com as meias, muitas vezes batendo nas paredes. Lutávamos boxe na cozinha, usando pares de luvas que meu pai nos dera de Natal junto com instruções personalizadas de como dar um jab certeiro. À noite, em família, jogávamos jogos de tabuleiro, contávamos histórias e piadas e escutávamos discos do Jackson 5. Quando ficava insuportável para Robbie, ela ia até o interruptor e ficava acendendo e apagando a luz da escada que compartilhávamos e que também controlava a lâmpada do corredor do segundo andar — era seu jeito educado de pedir que parássemos com o barulho.
Robbie e Terry eram mais velhos. Cresceram em outra época, com preocupações diferentes. Viram coisas que nossos pais não viram — coisas que Craig e eu, aquelas crianças barulhentas, nem imaginávamos. Essa é uma versão do que minha mãe dizia quando nos irritávamos com o mau humor do andar de baixo. Mesmo não conhecendo o contexto, éramos instruídos a lembrar que ele existia. Todos os habitantes da Terra, diziam-nos eles, carregavam uma história invisível, e só por isso já mereciam tolerância. Muitos anos mais tarde eu ficaria sabendo que Robbie havia processado a Universidade Northwestern por discriminação, pois se inscrevera para participar de uma oficina de coral na faculdade em 1943 e lhe negaram um quarto no dormitório feminino. Fora instruída a se hospedar em uma pensão na cidade — um lugar “para gente de cor”, lhe explicaram. Já Terry tinha sido assistente de vagões em uma das linhas férreas noturnas que chegavam e saíam de Chicago. Era uma profissão respeitável, mas não muito bem remunerada, composta totalmente de homens negros que mantinham o uniforme imaculado enquanto arrastavam malas, serviam refeições e atendiam às necessidades dos passageiros, inclusive engraxando seus sapatos.
Anos depois de se aposentar, Terry ainda vivia em um estado de formalismo entorpecido — impecavelmente vestido, levemente subserviente, nunca se afirmando de forma alguma, pelo menos até onde eu soubesse. Era como se tivesse renunciado a uma parte de si como forma de perseverar. Eu o observava aparar a grama no calor do verão calçando sapatos sociais, usando suspensório e um chapéu de feltro de aba curta, as mangas da camisa arregaçadas com zelo. Ele se permitia fumar exatamente um cigarro por dia e tomar exatamente um coquetel por mês, quando, mesmo assim, não se soltava como o meu pai e a minha mãe depois que tomavam um drinque ou uma cerveja, o que faziam algumas vezes por mês. Parte de mim queria que Terry falasse, que desabafasse os segredos que carregava. Eu imaginava que ele tinha várias histórias interessantes sobre as cidades que visitara e sobre o comportamento dos ricos nos trens, ou talvez não tivesse. Por algum motivo, ele nunca falava.
[…]

Michelle Obama, em Minha história

Nenhum comentário:

Postar um comentário