Não acabaria se houvesse de contar
pelo miúdo o que padeci nas primeiras horas. Vacilava entre um
querer e um não querer, entre a piedade que me empuxava à casa de
Virgília e outro sentimento, – egoísmo, suponhamos, – que me
dizia: – Fica; deixa-a a sós com o problema, deixa-a que ela o
resolverá no sentido do amor. Creio que essas duas forças tinham
igual intensidade, investiam e resistiam ao mesmo tempo, com ardor,
com tenacidade, e nenhuma cedia definitivamente. As vezes sentia um
dentezinho de remorso; parecia-me que abusava da fraqueza de uma
mulher amante e culpa-da, sem nada sacrificar nem arriscar de mim
próprio; e, quando ia capitular, vinha outra vez o amor, e me
repetia o conselho egoísta, e eu ficava irresoluto e inquieto,
desejoso de a ver, e receoso de que a vista me levasse a compartir a
responsabilidade da solução.
Por fim interveio um compromisso entre
o egoísmo e a piedade; eu iria vê-la em casa, e só em casa, em
presença do marido, para lhe não dizer nada, à espera do efeito da
minha intimação. Deste modo poderia conciliar as duas forças.
Agora, que isto escrevo, quer-me parecer que o compromisso era uma
burla, que essa piedade era ainda uma forma de egoísmo, e que a
resolução de ir consolar Virgília não passava de uma sugestão de
meu próprio padecimento. Ocorre-me a este propósito um naturalista,
– não me lembra qual, – mas era um naturalista, – em que li
esta observação curiosa: “O gato não nos afaga, afaga-se em
nós.” Vejo que eu fazia um compromisso de gato.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

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