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Era lindo, depois de ver o filme,
encontrar meu pai e meus irmãos me esperando ansiosos em casa,
sentados enfileirados que nem no cinema, penteadinhos e de roupa
limpa, recém-mudada.
Meu pai, com uma manta boliviana
cobrindo as pernas, ocupava a única poltrona que a gente tinha, e
assim era a plateia lá de casa. No chão, do lado da poltrona,
brilhava sua garrafa de vinho tinto e o único copo que havia sobrado
em casa. A galeria era aquela bancada comprida, de madeira bruta,
onde meus irmãos se acomodavam em ordem, do menor ao maior. Depois,
quando alguns de seus amigos começaram a aparecer na janela, a
janela virou o balcão.
Eu chegava do cinema, tomava rapidinho
uma xícara de chá (que deixavam pronto me esperando) e começava a
minha função. De pé na frente deles, de costas para a parede
pintada a cal, branca feito a tela do cinema, começava a contar o
filme “de a a z”, como dizia meu pai, tratando de não esquecer
nenhum detalhe, nem da história, nem dos diálogos, nem dos
personagens.
Aliás, devo esclarecer aqui que não
me mandavam para o cinema só por ser a única mulher da família e
eles – meu pai e meus irmãos – serem cavalheiros com as damas.
Não senhor. Eles me mandavam porque eu era a melhor contando filmes.
Assim mesmo, como se ouve: a melhor contadora de filmes da família.
Depois, passei a ser a melhor da viela e em pouco tempo a melhor do
povoado. Que eu saiba, não havia ninguém no povoado da Mina que
ganhasse de mim na hora de contar filmes. Do tipo que fosse: de
caubóis, de terror, de guerra, de marcianos, de amor. E, claro, os
filmes mexicanos, que eram os que papai, como todo mundo que tinha
vindo do sul, mais gostava.
E foi justamente com um filme
mexicano, desses cheios de cantorias e muito choro, que ganhei meu
título. Não foi nada fácil ganhar esse título.
Ou vocês acham que fui eleita só por
causa da minha fina estampa?
Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

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