10/07/2026

O Homem que Calculava — Capítulo 26



26. No qual vamos encontrar um teólogo famoso. O problema da vida futura. O muçulmano deve conhecer o Livro Sagrado. Quantas palavras há no Alcorão? Quantas letras? O nome de Jesus é citado dezenove vezes. Um engano de Beremiz.

O sábio indicado para iniciar a arguição ergueu-se com austera solenidade. Era uma figura respeitável de octogenário, que me inspirava um respeito medroso. As longas barbas brancas, proféticas, caíam-lhe, fartas, sobre o peito largo.
Quem é esse pobre ancião? — perguntei, em surdina, a um haquim oio-ien(1) de rosto magro e bronzeado, que se achava ao meu lado.
É o célebre ulemá Mohadebe-Abner-Rama — respondeu-me. — Dizem que conhece mais de quinze mil sentenças sobre o Alcorão. Ensina Teologia e Retórica.
As palavras do sábio Mohadebe, o teólogo, eram pronunciadas em tom estranho e surpreendente, sílaba por sílaba, como se o orador pusesse empenho em medir o som de sua própria voz:
Vou interrogar-vos, ó Calculista, sobre assunto de indiscutível importância para a cultura de um muçulmano. Antes de estudar a ciência de um Euclides ou de um Pitágoras, deve o bom islamita conhecer profundamente o problema religioso, pois a vida não é concebível quando se projeta divorciada da Verdade e da Fé. Aquele que não se preocupa com o problema de sua existência futura, com a salvação de sua alma e desconhece os preceitos de Deus, os mandamentos, não merece o qualificativo de sábio. Quero, portanto, que nos apresenteis, neste momento, sem a menor hesitação, quinze indicações numéricas certas e notáveis sobre o Alcorão, o livro de Alá!
Entre essas quinze indicações deverão figurar:

1º) O número de suratas do Alcorão;
2º) O número exato de versículos;
3º) O número de palavras;
4º) O número de letras do Livro Incriado;
5º) O número exato dos profetas citados nas páginas do Livro Eterno.

E o sábio teólogo insistiu, fazendo ecoar bem forte a sua voz:
Quero ouvir, enfim, neste momento, além das cinco indicações, por mim apontadas, mais outras dez relações numéricas certas e notáveis sobre o Livro Incriado! Uassalã!
Seguiu-se profundo silêncio. Aguardava-se, com ansiedade, a palavra de Beremiz. Com uma tranquilidade que causava assombro, o jovem calculista respondeu:
O Alcorão, ó sábio e venerável Mufti(2), compõe-se de 114 suratas, das quais 70 foram ditadas em Meca e 44 em Medina. Divide-se em 611 ashrs e contém 6.236 versículos, dos quais 7 do primeiro capítulo Fatihat(3) e 8 do último, Os homens. A surata maior é a segunda, que encerra 280 versículos. O Alcorão contém 46.439 palavras e 323.670 letras, cada uma das quais encerra dez virtudes especiais. O nosso Livro Sagrado cita o nome de 25 profetas. Issa, filho de Maria(4), é citado 19 vezes. Há cinco animais, cujos nomes foram tomados para epígrafes de cinco capítulos: a vaca, a abelha, a formiga, a aranha e o elefante. A surata 102 tem por título: “A contestação dos números.” É notável esse capítulo do Livro Incriado pela advertência que dirige, em seus cinco versículos, àqueles que se preocupam com disputas estéreis sobre números que não têm importância alguma para o progresso espiritual dos homens.
Neste ponto fez Beremiz ligeira pausa e logo acrescentou:
Eis aí, para atender ao vosso pedido, as indicações numéricas tiradas do Livro de Alá! Houve, apenas, na resposta que acabo de formular, um engano que me apresso a confessar. Em vez de quinze relações, citei dezesseis!
Por Alá! — murmurou, atrás de mim, o velhote da túnica azul. — Como pode um homem saber, de memória, tantos números e tantas contas! É fantástico! Sabe até quantas letras tem o Alcorão!
Estuda muito — replicou, quase em segredo, o vizinho, que era gordo e tinha uma cicatriz no queixo. — Estuda muito e decora tudo. Já ouvi uns zunzuns a tal respeito.
Decorar não adianta — cochichou, ainda, o velhinho da cara chupada. — Não adianta. Eu, por exemplo, não consigo decorar nem a idade da filha de meu tio!
Irritavam-me aquelas falinhas segredadas.
Mas o fato é que Mohadebe confirmou todas as indicações dadas pelo calculista; até o número de letras do Livro de Alá fora enunciado sem erro de uma unidade.
Disseram-me que esse douto teólogo Mohadebe era um homem pobre. E devia ser mesmo verdade. A muitos sábios priva Alá das riquezas, pois a sabedoria e a riqueza raramente aparecem juntas.
Beremiz havia vencido brilhantemente a primeira prova do terrível debate. Faltavam seis.
Queira Alá! — pensei. — Queira Alá que tudo possa correr bem!

Notas:
(1) Médico oculista.
(2) Jurisconsulto muçulmano.
(3) Primeiro capítulo do Alcorão.
(4) Jesus — Das cinco preces que os árabes proferem, todos os dias, uma delas é dedicada a Jesus.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

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