238.
Nenhum prémio certo tem a virtude,
nenhum castigo certo o pecado. Nem seria justo que houvesse tal
prémio ou tal castigo. Virtude ou pecado são manifestações
inevitáveis de organismos condenados a um ou a outro, servindo a
pena de serem bons ou a pena de serem maus. Por isso todas as
religiões colocam as recompensas e os castigos, merecidos por quem,
nada sendo nem podendo, nada pôde merecer, em outros mundos, de que
nenhuma ciência pode dar notícia, de que nenhuma fé pode
transmitir a visão.
Abdiquemos, pois, de toda a crença
sincera, como de toda a preocupação de influir em outrem.
A vida, disse Tarde, é a busca do
impossível através do inútil.
Busquemos sempre o impossível, porque
tal é o nosso fado; busquemo-lo através do inútil, porque não
passa caminho por outro ponto; ascendamos, porém, à consciência de
que nada buscamos que possa obter-se, de que por nada passamos que
mereça um carinho ou uma saudade.
Cansamo-nos de tudo, exceto de
compreender, disse o escoliasta.
Compreendamos, compreendamos sempre, e
façamos por tecer astuciosamente capelas ou grinaldas que hão de
murchar também, as flores espectrais dessa compreensão.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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