quarta-feira, 3 de junho de 2026

1624 – Sevilha

O último capítulo de “A vida do buscão”

O rio reflete o homem que o interroga.
Aonde mando o malandro? Hei de mandá-lo à morte?
Dançam sobre o Guadalquivir, lá no cais de pedra, as botas tortas. Este homem tem o costume de agitar os pés enquanto pensa.
Eu decido. Fui eu quem o fez nascer filho de barbeiro e bruxa e sobrinho de verdugo. Eu o coroei príncipe da vida buscona no reino dos piolhos, mendigos e enforcados.
Brilham os óculos nas águas esverdeadas, cravados nas profundidades, perguntando, perguntadores:
Que faço? Eu o ensinei a roubar frangos e implorar esmola pelas chagas de Cristo. De mim aprendeu maestrias em dados, baralhos e espadas. Com minhas artes foi gala de monjas e ator.
Francisco de Quevedo franze o nariz para acomodar os óculos.
Eu decido. Que mais remédio tenho? Jamais se viu novela, na história das letras, que não tenha capítulo final.
Estica o pescoço entre os galeões que vêm, arriando as velas rumo ao cais.
Ninguém sofreu como eu. Não fiz minhas as suas fomes, quando rangiam suas tripas e nem os exploradores encontravam seus olhos? Se dom Pablos deve morrer, devo matá-lo. Ele é cinza, como eu, que sobrou da chama.
De longe, um menino esfarrapado olha o cavaleiro que coça a cabeça, inclinado sobre o rio. “Uma coruja”, pensa o menino. E pensa: “A coruja está louca. Quer pescar sem anzol”.
E Quevedo pensa.
Matá-lo? Não é fama, então, que traz má sorte quebrar espelhos? Matá-lo. E se tomassem o crime por justo castigo ao seu mau viver? Tremenda alegria para inquisidores e censores! Só de imaginar sua felicidade, me dá voltas na tripa.
Explode, então, uma gritaria de gaivotas. Um navio da América está ancorando. De um pulo, Quevedo se põe a caminhar. O menino o persegue, imitando o andar bambo.
Resplandece a cara do escritor. No cais encontrou o destino que seu personagem merece. Enviará dom Pablos, o buscão, às Índias. Onde, a não ser na América, poderia terminar seus dias? Já tem desembocadura a sua novela e Quevedo se afunda alucinado, nesta cidade de Sevilha, onde sonham os homens com navegações, e as mulheres, com regressos.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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