Oc.
Mas o significado real da iniciação
é que este mundo visível em que vivemos é um símbolo e uma
sombra, que esta vida que conhecemos através dos sentidos é uma
morte e um sono, ou, por outras palavras, que o que vemos é uma
ilusão. A iniciação é o dissipar — um dissipar gradual, parcial
— dessa ilusão. A razão do seu segredo é que a maior parte dos
homens não está adaptada a compreendê-lo e, portanto,
compreendê-lo-á mal e confundi-lo-á, se for tornado público. A
razão de ele ser simbólico é que a iniciação não é um
conhecimento, mas uma vida, e o homem deve, portanto, descobrir por
si o que mostram os símbolos, porque, assim, viverá a vida deles,
não se limitando a aprender as palavras em que são mostrados.
Dizer que Cristo é um símbolo do Sol
é pôr o processo iniciatório ao invés. É o Sol que é o símbolo
de Cristo. Por outras palavras, Cristo é a realidade e o Sol a
ilusão, Cristo é a luz, e o Sol a sombra. (O Inefável é a luz; o
GA, corpo; o mundo, sombra — a sombra projectada pelo denso quando
iluminado pelo subtil. A luz está na circunferência e a sombra
lançada para o centro. Isto tem alguma coisa a ver com o pt. dentro
do c.?) (Cf. a ideia cabalística do En Soph retirando-se para
dentro, manifestando-se dentro e não fora).
Iniciar um homem por um ritual
complicado e mais ou menos impressivo e depois confiar-lhe, sob
promessas de segredo e juras mais ou menos terríveis, que a
Primavera vem depois do Inverno — isto nunca podia ter sido o plano
de qualquer corpo ou sistema iniciático. Mas tê-lo-ia sido ensinar
o contrário — que a Primavera, seguindo-se ao Inverno, é um
símbolo de coisas maiores, que o natural é uma figuração do
sobrenatural.
Isto, feito com mais ou menos
pormenor, em símbolo, depois em doutrina, depois em revelação, é
a essência de todas as verdadeiras iniciações, de Eleusis a
Kilwinning.
Ordens de inic.: (I) através de
símbolos e (mais tarde) explicações em si próprias simbólicas—cf.
Pike; (2) através de doutrina simbólica, verdadeira ao seu nível,
e explicações, já não simbólicas; (3) através de comunicação
directa, embora não necessariamente falada ou expressa.
Não digo que estas coisas representem
uma verdade e não digo que o não façam. Digo que este é o
significado da iniciação, que é assim que a iniciação existe e
que é para estes fins que ela existe.
Fernando Pessoa, em Escritos Ocultistas – O Caminho da Serpente e outros textos esotéricos

Nenhum comentário:
Postar um comentário