Eu fiz um livro, mas oh, meu Deus,
não perdi a poesia.
Hoje depois da festa,
quando me levantei para fazer café,
uma densa neblina acinzentava os
pastos,
as casas, as pessoas com embrulho de
pão.
O fio indesmanchável da vida tecia
seu curso.
Persistindo, a necessidade dos
relógios,
dos descongestionantes nasais.
Meu livro sobre a mesa contraponteava
exato
com os pardais, os urinóis pela
metade,
o antigo e intenso desejar de um
verso.
O relógio bateu sem assustar os
farelos sobre a mesa.
Como antes, graças a Deus.
Adélia Prado, em O Coração Disparado
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