O doutor ganhou uma galinha viva e
chegou em casa com ela, para alegria de toda a família. O filho mais
moço, inclusive, nunca tinha visto uma galinha viva de perto. Já
tinha até um nome para ela — Margarete — e planos para adotá-la,
quando ouviu do pai que a galinha seria, obviamente, comida.
— Comida?!
— Sim, senhor.
— Mas se come ela?
— Ué. Você está cansado de comer
galinha.
— Mas a galinha que a gente come é
igual a esta aqui?
— Claro.
Na verdade o guri gostava muito de
peito, de coxa e de asa, mas nunca tinha ligado as partes ao animal.
Ainda mais aquele animal vivo ali no meio do apartamento.
O doutor disse que queria a galinha ao
molho pardo. Há anos que não comia uma galinha ao molho pardo. A
empregada sabia como se preparava galinha ao molho pardo? A mulher
foi consultar a empregada. Dali a pouco o doutor ouviu um grito de
horror vindo da cozinha. Depois veio a mulher dizer que ele
esquecesse a galinha ao molho pardo.
— A empregada não sabe fazer?
— Não só não sabe fazer, como
quase desmaiou quando eu disse que precisava cortar o pescoço da
galinha. Nunca cortou um pescoço de galinha.
Era o cúmulo. Então a mulher que
cortasse o pescoço da galinha.
— Eu?! Não mesmo!
O doutor lembrou-se de uma velha
empregada da sua mãe.
A Dona Noca. Não só cortava pescoços
de galinha, como fazia isto com uma certa alegria assassina. A
solução era a Dona Noca.
— A Dona Noca já morreu — disse a
mulher.
— O quê?!
— Há dez anos.
— Não é possível! A última
galinha ao molho pardo que eu comi foi feita por ela.
— Então faz mais de dez anos que
você não come galinha ao molho pardo.
Alguém no edifício se disporia a
degolar a galinha. Fizeram uma rápida enquete entre os vizinhos.
Ninguém se animava a cortar o pescoço da galinha. Nem o Rogerinho
do 701, que fazia coisas inomináveis com gatos.
— Somos uma civilização de
frouxos! — sentenciou o doutor.
Foi para o poço do edifício e
repetiu:
— Frouxos! Perdemos o contato com o
barro da vida!
E a Margarete só olhando.
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
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