90.
Reconhecer a realidade como uma forma
da ilusão, e a ilusão como uma forma da realidade, é igualmente
necessário e igualmente inútil. A vida contemplativa, para sequer
existir, tem que considerar os acidentes objetivos como premissas
dispersas de uma conclusão inatingível; mas tem ao mesmo tempo que
considerar as contingências do sonho como em certo modo dignas
daquela atenção a elas, pela qual nos tornamos contemplativos.
Qualquer coisa, conforme se considera,
é um assombro ou um estorvo, um tudo ou um nada, um caminho ou uma
preocupação. Considerá-la cada vez de um modo diferente é
renová-la, multiplicá-la por si mesma. É por isso que o espírito
contemplativo que nunca saiu da sua aldeia tem contudo à sua ordem o
universo inteiro. Numa cela ou num deserto está o infinito. Numa
pedra dorme-se cosmicamente.
Há, porém, ocasiões da meditação
— e a todos quantos meditam elas chegam — em que tudo está
gasto, tudo velho, tudo visto, ainda que esteja por ver. Porque, por
mais que meditemos qualquer coisa, e, meditando-a, a transformemos,
nunca a transformamos em qualquer coisa que não seja substância de
meditação. Chega-nos então a ânsia da vida, de conhecer sem ser
com o conhecimento, de meditar só com os sentidos ou pensar de um
modo táctil ou sensível, de dentro do objeto pensado, como se
fôssemos água e ele esponja. Então também temos a nossa noite, e
o cansaço de todas as emoções aprofunda-se com serem emoções do
pensamento, já de si profundas. Mas é uma noite sem repouso, sem
Luar, sem estrelas, uma noite como se tudo houvesse sido virado do
avesso — o infinito tornado interior e apertado, o dia feito forro
negro de um trajo desconhecido.
Mais vale, sim, mais vale sempre ser a
lesma humana que ama e desconhece, a sanguessuga que é repugnante
sem o saber. Ignorar como vida! Sentir como esquecimento! Que
episódios perdidos na esteira verde branca das naus idas, como um
cuspo frio do leme alto a servir de nariz sob os olhos das câmaras
velhas!
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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