quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

House of Wax | Paul McCartney




Lightning hits the house of wax
Poets spill out on the street
To set alight the incomplete
Remainders of the future

Hidden in the yard
Hidden in the yard

Thunder drowns the trumpets’ blast
Poets scatter through the night
But they can only dream of flight
Away from their confusion

Hidden in the yard
Underneath the wall
Buried deep below a thousand layers
Lay the answer to it all

Lightning hits the house of wax
Women scream and run around
To dance upon the battleground
Like wild demented horses

Hidden in the yard
Underneath the wall
Buried deep below a thousand layers
Lay the answer to it all

Quando escrevi o livro de poemas O canto do pássaro-preto com Adrian Mitchell, eu fiz uma pequena turnê com ele e propus: “Por que não ressuscitamos aquela coisa dos anos 1960, em que a gente toca uma música ambiente enquanto recita um poema?”. Ele gostou da ideia, e foi isso que fizemos.
Adrian era meu poeta favorito, e como eu o conhecia tão bem, eu vivia perguntando a ele um monte de coisas sobre poesia. Nessa época acho que eu estava tentando escrever algo mais direcionado à poesia. Estou sempre tentando me desafiar, tentando forçar um pouco meus limites, aprender coisas novas e não ficar preso à rotina. Se acabei de escrever algo bem simples, como “Isso é tão doce, baby”, então é melhor não fazer outra nesse estilo imediatamente. Eu estava em estado de espírito poético.
Lightning hits the house of wax” – eu me lembro de falar esse verso ao Adrian com uma ponta de orgulho. A expressão “casa de cera” evoca muitas referências. Pode ser um museu de cera como o Madame Tussauds ou um lugar onde discos são fabricados – conforme o contexto, a expressão “put to wax” pode significar “gravar em disco”. Suponho que o “museu de cera” mais famoso seja o daquele filme de terror de 1953 homônimo, com Vincent Price – um filme realmente assustador. Eu não tinha em mente uma casa de cera específica e não creio que tenha me inspirado no abominável assassino encarnado por Price – esse simplesmente não é meu estilo –, mas gostei da ideia de uma casa de cera.
Lendo agora, com certa distância, percebo que é um primeiro verso muito ardente. Não tenho certeza se eu estava tentando dizer conscientemente: “Uau, fogo!”. Você embarca numa linha de pensamentos e as coisas simplesmente vão surgindo sem a gente notar. Os poetas estão prestes a incendiar as incompletas sobras do futuro (“To set alight the incomplete/ Remainders of the future”). Acho que é apenas uma forma de dizer “esclarecer as coisas”.
Hidden in the yard/ Underneath the wall/ Buried deep below a thousand layers/ Lay the answer to it all”. Ampliei isso com a imagem de mulheres gritando e correndo ao redor, como cavalos selvagens dementes (“like wild demented horses”). A canção em si se torna bem dramática. Eu tinha essa concepção de que as sobras do futuro (“remainders of the future”) estavam enterradas em algum lugar do quintal, como um tesouro escondido. Ou seja: não sabemos a resposta para essas sobras inacabadas, não sabemos o que vai acontecer. Quer dizer, aqui estamos nós, no meio da crise da covid-19 e realmente não sabemos o que vai acontecer, mas já vi crianças completamente à vontade com máscaras, então essa geração de crianças vai pensar: “Todo mundo usa máscaras, não é mesmo?”.
Depois do raio vem o trovão, e o trovão abafa o toque das trombetas. É como um filme; há uma espécie de trilha sonora heráldica acontecendo, e o trovão está ribombando, então é como a trilha sonora de um filme. Fiz essa composição ao piano, então não elaborei muito o arranjo enquanto estava compondo, e sim mais na hora de gravar. Eu ia pensando: “Certo, aqui vamos deixar um pouquinho mais dramático; os acompanhamentos devem ser um pouco mais dramáticos e vamos começar a aprimorar a partir daí”. Nós a tocávamos ao vivo, mas tínhamos que tomar uma generosa dose de uísque e dar um tapinha na nuca para lembrar. É meio temperamental. Eu gosto de tocá-la, a banda gosta de tocá-la, e algumas pessoas na plateia gostam de ouvi-la no show.
Em geral, porém, canções como esta não perduram em seu repertório, porque você percebe que é nessas que o público dispersa para tomar uma cerveja, e você pensa: “Bem, deixe-me atraí-los de volta com ‘Lady Madonna’”. Fui ao show do Prince e fiquei muito triste porque ele não tocou “Purple Rain”, mas ele provavelmente estava cansado de “Purple Rain”. É uma grande decisão que você deve tomar como artista performático – se vai apenas seguir seus próprios caprichos: “Ok, galera, esta noite só vamos tocar acústico, e todas essas canções de que ninguém nunca ouviu falar”. Quando você está diante de cinquenta mil brasileiros, tem a sensação de que essa não é a melhor coisa a fazer. Você pensa: “Sabe de uma coisa? Vamos tocar só alguns sucessos”. Então é isso que eu costumo fazer, mas se estivermos num clube menor, podemos pegar coisas menos conhecidas, e canções como “House of Wax” ganham vida novamente.
Hoje em dia, ainda tocamos em espaços menores por escolha própria, quando estamos nos preparando para uma turnê ou entre um projeto e outro. Anos atrás, tocamos no Coachella, um festival de dois fins de semana no deserto da Califórnia. Você toca no sábado, tem uma semana de folga e volta no sábado seguinte. Queríamos nos manter em forma, então fizemos um show surpresa num pequeno lugar chamado Pappy & Harriet’s, que fica na região da Joshua Tree, nas imediações de onde o Coachella é realizado, então nosso equipamento estava nas proximidades. Era um desses bares de beira de estrada, com música ao vivo e capacidade para trezentas pessoas. Anunciamos às pessoas no mesmo dia. Não foi um show programado, mas foi divertido.
Levamos David Hockney para nos acompanhar. Eu disse a ele: “Ah, vamos tocar nesse local, talvez você goste disso, David”. E ele trouxe o iPad e ficou desenhando. É um jovem de 83 anos.

Paul McCartney, em As Letras – 1956 até o presente

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