Lightning hits the house of wax
Poets spill out on the street
To set alight the incomplete
Remainders of the future
Hidden in the yard
Hidden in the yard
Thunder drowns the trumpets’
blast
Poets scatter through the night
But they can only dream of flight
Away from their confusion
Hidden in the yard
Underneath the wall
Buried deep below a thousand layers
Lay the answer to it all
Lightning hits the house of wax
Women scream and run around
To dance upon the battleground
Like wild demented horses
Hidden in the yard
Underneath the wall
Buried deep below a thousand layers
Lay the answer to it all
Quando escrevi o livro de poemas O
canto do pássaro-preto com Adrian Mitchell, eu fiz uma pequena
turnê com ele e propus: “Por que não ressuscitamos aquela coisa
dos anos 1960, em que a gente toca uma música ambiente enquanto
recita um poema?”. Ele gostou da ideia, e foi isso que fizemos.
Adrian era meu poeta favorito, e como
eu o conhecia tão bem, eu vivia perguntando a ele um monte de coisas
sobre poesia. Nessa época acho que eu estava tentando escrever algo
mais direcionado à poesia. Estou sempre tentando me desafiar,
tentando forçar um pouco meus limites, aprender coisas novas e não
ficar preso à rotina. Se acabei de escrever algo bem simples, como
“Isso é tão doce, baby”, então é melhor não fazer outra
nesse estilo imediatamente. Eu estava em estado de espírito poético.
“Lightning hits the house of wax”
– eu me lembro de falar esse verso ao Adrian com uma ponta de
orgulho. A expressão “casa de cera” evoca muitas referências.
Pode ser um museu de cera como o Madame Tussauds ou um lugar onde
discos são fabricados – conforme o contexto, a expressão “put
to wax” pode significar “gravar em disco”. Suponho que o
“museu de cera” mais famoso seja o daquele filme de terror de
1953 homônimo, com Vincent Price – um filme realmente assustador.
Eu não tinha em mente uma casa de cera específica e não creio que
tenha me inspirado no abominável assassino encarnado por Price –
esse simplesmente não é meu estilo –, mas gostei da ideia de uma
casa de cera.
Lendo agora, com certa distância,
percebo que é um primeiro verso muito ardente. Não tenho certeza se
eu estava tentando dizer conscientemente: “Uau, fogo!”. Você
embarca numa linha de pensamentos e as coisas simplesmente vão
surgindo sem a gente notar. Os poetas estão prestes a incendiar as
incompletas sobras do futuro (“To set alight the incomplete/
Remainders of the future”). Acho que é apenas uma forma de
dizer “esclarecer as coisas”.
“Hidden in the yard/ Underneath
the wall/ Buried deep below a thousand layers/ Lay the answer to it
all”. Ampliei isso com a imagem de mulheres gritando e correndo
ao redor, como cavalos selvagens dementes (“like wild demented
horses”). A canção em si se torna bem dramática. Eu tinha
essa concepção de que as sobras do futuro (“remainders of the
future”) estavam enterradas em algum lugar do quintal, como um
tesouro escondido. Ou seja: não sabemos a resposta para essas sobras
inacabadas, não sabemos o que vai acontecer. Quer dizer, aqui
estamos nós, no meio da crise da covid-19 e realmente não sabemos o
que vai acontecer, mas já vi crianças completamente à vontade com
máscaras, então essa geração de crianças vai pensar: “Todo
mundo usa máscaras, não é mesmo?”.
Depois do raio vem o trovão, e o
trovão abafa o toque das trombetas. É como um filme; há uma
espécie de trilha sonora heráldica acontecendo, e o trovão está
ribombando, então é como a trilha sonora de um filme. Fiz essa
composição ao piano, então não elaborei muito o arranjo enquanto
estava compondo, e sim mais na hora de gravar. Eu ia pensando:
“Certo, aqui vamos deixar um pouquinho mais dramático; os
acompanhamentos devem ser um pouco mais dramáticos e vamos começar
a aprimorar a partir daí”. Nós a tocávamos ao vivo, mas tínhamos
que tomar uma generosa dose de uísque e dar um tapinha na nuca para
lembrar. É meio temperamental. Eu gosto de tocá-la, a banda gosta
de tocá-la, e algumas pessoas na plateia gostam de ouvi-la no show.
Em geral, porém, canções como esta
não perduram em seu repertório, porque você percebe que é nessas
que o público dispersa para tomar uma cerveja, e você pensa: “Bem,
deixe-me atraí-los de volta com ‘Lady Madonna’”. Fui ao show
do Prince e fiquei muito triste porque ele não tocou “Purple
Rain”, mas ele provavelmente estava cansado de “Purple Rain”. É
uma grande decisão que você deve tomar como artista performático –
se vai apenas seguir seus próprios caprichos: “Ok, galera, esta
noite só vamos tocar acústico, e todas essas canções de que
ninguém nunca ouviu falar”. Quando você está diante de cinquenta
mil brasileiros, tem a sensação de que essa não é a melhor coisa
a fazer. Você pensa: “Sabe de uma coisa? Vamos tocar só alguns
sucessos”. Então é isso que eu costumo fazer, mas se estivermos
num clube menor, podemos pegar coisas menos conhecidas, e canções
como “House of Wax” ganham vida novamente.
Hoje em dia, ainda tocamos em espaços
menores por escolha própria, quando estamos nos preparando para uma
turnê ou entre um projeto e outro. Anos atrás, tocamos no
Coachella, um festival de dois fins de semana no deserto da
Califórnia. Você toca no sábado, tem uma semana de folga e volta
no sábado seguinte. Queríamos nos manter em forma, então fizemos
um show surpresa num pequeno lugar chamado Pappy & Harriet’s,
que fica na região da Joshua Tree, nas imediações de onde o
Coachella é realizado, então nosso equipamento estava nas
proximidades. Era um desses bares de beira de estrada, com música ao
vivo e capacidade para trezentas pessoas. Anunciamos às pessoas no
mesmo dia. Não foi um show programado, mas foi divertido.
Levamos David Hockney para nos
acompanhar. Eu disse a ele: “Ah, vamos tocar nesse local, talvez
você goste disso, David”. E ele trouxe o iPad e ficou desenhando.
É um jovem de 83 anos.
Paul McCartney, em As Letras – 1956 até o presente

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