Nossas Duas Mentes
Uma amiga me falava de seu divórcio,
uma dolorosa separação. O marido apaixonara-se por uma mulher mais
jovem com quem trabalhava e, de repente, anunciara que ia deixá-la
para viver com a outra. Seguiram-se meses de brigas amargas sobre a
casa, dinheiro e custódia dos filhos. Agora, passados alguns meses,
ela dizia que sua independência lhe agradava, que se sentia feliz
contando apenas consigo mesma.
— Simplesmente não penso mais nele;
na verdade, nem quero saber dele.
Só que, ao dizer isso, de repente
seus olhos ficaram cheios de lágrimas.
Aquele lacrimejar de olhos poderia
passar facilmente despercebido. Mas, por um tipo de compreensão que
acontece através da empatia, os olhos marejados em uma pessoa
indicam que ela está triste, não importa o que tenha expressado em
palavras. A empatia é um ato de compreensão tão seguro quanto a
apreensão do sentido das palavras contidas numa página impressa. O
primeiro tipo de compreensão é fruto da mente emocional, o outro,
da mente racional. Na verdade, temos duas mentes — a que raciocina
e a que sente.
Esses dois modos fundamentalmente
diferentes de conhecimento interagem na construção de nossa vida
mental. Um, a mente racional, é o modo de compreensão de que, em
geral, temos consciência: é mais destacado na consciência, mais
atento e capaz de ponderar e refletir. Mas, além desse, há um outro
sistema de conhecimento que é impulsivo e poderoso, embora às vezes
ilógico — a mente emocional. (Para uma descrição mais detalhada
das características da mente emocional, ver o Apêndice B.)
A dicotomia emocional/racional
aproxima-se da distinção que popularmente é feita entre “coração”
e “cabeça”; saber que alguma coisa é certa “aqui dentro no
coração” é um grau diferente de convicção — tem um sentido
mais profundo —, ainda que idêntica àquela adquirida através da
mente racional. Há uma acentuada gradação na proporção entre
controle racional e emocional da mente; quanto mais intenso o
sentimento, mais dominante é a mente emocional — e mais inoperante
a racional. É uma disposição que parece ter tido origem há
bilhões de anos, quando se iniciou nossa evolução biológica: era
mais vantajoso que emoção e intuições guiassem nossa reação
imediata frente a situações de perigo de vida — parar para pensar
o que fazer poderia nos custar a vida.
Essas duas mentes, a emocional e a
racional, na maior parte do tempo operam em estreita
harmonia,entrelaçando seus modos de conhecimento para que nos
orientemos no mundo. Em geral, há um equilíbrio entre as mentes
emocional e racional, com a emoção alimentando e informando as
operações da mente racional, e a mente racional refinando e, às
vezes, vetando a entrada das emoções. Mas são faculdades
semi-independentes, cada uma, como veremos, refletindo o
funcionamento de circuitos distintos, embora interligados, do
cérebro.
Em muitos ou na maioria dos momentos,
essas mentes se coordenam de forma bela e delicada; os sentimentos
são essenciais para o pensamento e vice-versa. Mas, quando surgem as
paixões, esse equilíbrio se desfaz: é a mente emocional que assume
o comando, inundando a mente racional. Erasmo de Rotterdam, humanista
do século XVI, escreveu, sob a forma de sátira, acerca dessa perene
tensão entre razão e emoção:
Júpiter legou muito mais paixão
que razão — pode-se calcular a proporção em 24 por um. Pôs duas
tiranas furiosas em oposição ao solitário poder da Razão: a ira e
a luxúria. Até onde a Razão prevalece contra as forças combinadas
das duas, a vida do homem comum deixa bastante claro. A Razão faz a
única coisa que pode e berra até ficar rouca, repetindo fórmulas
de virtude, enquanto as outras duas a mandam para o diabo que a
carregue, e tornam-se cada vez mais ruidosas e insultantes, até que
por fim sua Governante se exaure, desiste e rende-se.
Daniel Goleman, em Inteligência emocional: A teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente

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