Tudo o que este mundo encerra é
propriedade do brâmane, porque ele, por seu nascimento eminente, tem
direito a tudo o que existe.
Código de Manu
Na minha peregrinação sentimental
por este mundo, fui ter, não sei como, à cidade de Batávia, na
ilha de Java.
É fama que os franceses ignoram
sobremodo a geografia; mas estou certo de que, entre nós, pouca
gente tem notícias seguras dessa ilha e da capital das Índias
Neerlandesas.
É pena, pois é da terra um dos
recantos mais originais e cheios de surpreendentes mistérios que se
vão aos poucos desvendando aos olhos atônitos da nossa pobre
humanidade.
Lá, Dubois achou partes do esqueleto
do Pithecanthropus erectus; e o doido do Nietzsche tinha
admiração por certas trepadeiras dessa curiosa ilha, porque, dizia
ele, amorosas do sol, se enrodilhavam pelos carvalhos e, apoiadas
neles, elevavam-se acima dos mais altos galhos dessas árvores
veneráveis, banhavam-se na luz e davam a sua glória em espetáculo.
Os restos do afastado ancestral do
homem que Dubois encontrou, não os vi quando lá estive.
Trepadeiras e cipós vi muitos, mas
carvalho não vi nenhum. Nietzsche, que lá não esteve, certamente
julgou que Java tinha alguma semelhança com Saxe ou com a Suíça.
Não eram precisos os carvalhos nem as
tais trepadeiras, muito vulgarmente, como todas as plantas, amorosas
da luz, para tornar Java interessante, porque só o aspecto mesclado
de sua população, a confusão do seu pensamento religioso, as suas
antiguidades búdicas e os seus vulcões descomunais seduzem e
prendem a atenção do peregrino desgostoso ou do sábio
esquadrinhador.
Por meses e meses, o tédio mais
principesco desfaz-se naquelas terras de sol candente e orgia vegetal
que, talvez, com a Índia e os grandes lagos da África, sejam os
únicos lugares da terra que não foram ainda banalizados
inteiramente.
Creio que não será assim por muito
tempo. Lá estão os holandeses; e edificaram até, na cidade de
Batávia, um bairro europeu chamado, na língua deles, Weltevreden
(paz do mundo), cujas damas se vestem e têm todos os tiques
periódicos das moças de Hong-Kong ou de Petrópolis.
Nos olhos das mulheres do bairro
europeu não há senão a mui terrena ânsia da fortuna; mas nos
olhares negros, luminosos, magnéticos das javanesas há coisas do
Além, o fundo do mar, o céu estrelado, o indecifrável mistério da
sempre misteriosa Ásia. Também há volúpia e há morte.
A massa de hindus, de chineses, de
anamitas, de malaios e javaneses, porém, esmaga a banalidade
pretensiosa daquelas holandesas rechonchudas que estão pedindo a sua
imediata volta às monótonas campinas da pátria, com as suas vacas
nédias, os seus clássicos moinhos de vento e a ligeira névoa que
parece sempre cobri-las, para readquirirem o necessário relevo das
suas pessoas.
Não falando no famoso jardim botânico
dos arredores, Batávia, como São Paulo ou Cuiabá, possui
estabelecimentos e sociedades de ciência e de arte dignas de
atenção.
A sua academia de letras é muito
conhecida na rua principal da cidade, e os literatos da ilha brigam e
guerreiam-se cruamente, para ocuparem um lugar nela. A pensão que
recebem é módica, cerca de cinco patacas, por mês, na nossa moeda;
eles, porém, disputam o fauteuil acadêmico por todos os processos
imagináveis. Um destes é o empenho, o nosso “pistolão”, que
procuram obter de quaisquer mãos, sejam estas de amigos, de
parentes, das mulheres, dos credores ou, mesmo, das amantes dos
acadêmicos que devem escolher o novo confrade.
Há de parecer que, por tão pouco,
não valia a pena disputar acirradamente, como fazem, tais posições.
É um engano. O sujeito que é acadêmico tem facilidade em arranjar
bons empregos na diplomacia, na alta administração; e a grande
burguesia da terra, burguesia de acumuladores de empregos, de
políticos de honestidade suspeita, de leguleios afreguesados, de
médicos milagrosos ou de ricos desavergonhados, cujas riquezas foram
feitas à sombra de iníquas e aladroadas leis — essa burguesia,
continuando, tem em grande conta o título de membro da academia,
como todo outro qualquer, e o acadêmico pode bem arranjar um
casamento rico ou coisa equivalente.
Lá, a literatura não é uma
atividade intelectual imposta ao indivíduo, determinada nele, por
uma maneira muito sua e própria do seu feitio mental; para os
javaneses, é, nada mais, nada menos, que um jogo de prendas, uma
sorte de sala, podendo esta ser cara ou barata.
Os médicos, que, em Java, têm outra
denominação, como veremos mais tarde, são os mais constantes
fregueses da academia. Estão sempre a bater-lhe na porta, apesar de
não ter a medicina nada que ver com a literatura.
Pertencendo à Academia de Letras —
é o que imagino — como que eles ganham maior confiança dos
clientes e mais segurança no emprego dos remédios. Assim, talvez,
pensem eles e também o povo, tanto que a clínica lhes aumenta logo
que entram para a ilustre companhia javanesa.
É bem possível que as suas letras e
a sua fascinação pela Academia visem somente tal resultado,
porquanto, entre eles, a rivalidade na clínica é terrível e mais
ainda quando se trata de competir com colegas estrangeiros. Usam
contra estes das mais desleais armas.
Um houve, natural de um pequeno país
da Europa e de extração campônia, que só as pôde manter à
distância, usando de armas e processos grosseiramente saloios.
Estava sempre de varapau em punho e foi o meio mais eficaz que
encontrou, para não lhe caluniarem e lhe prejudicarem a clínica.
A literatura desses doutores e
cirurgiões é das mais estimadas naquelas terras; e isto, por dois
motivos: porque é feita por doutores e porque ninguém a lê e
entende.
O critério literário e artístico
dos médicos de Java não é o de Hegel, de Schopenhauer, de Taine,
de Brunetière ou de Guyau, eles não perdem tempo com semelhante
gente. Não admitem que a obra literária tenha por fim manifestar um
certo caráter saliente ou essencial do assunto que se tem em vista,
mais completamente do que o fazem os fatos reais. Literatura não é
fazer entrar no patrimônio do espírito humano, com auxílio dos
processos e métodos artísticos, tudo o que interessa o uso da vida,
a direção da conduta e o problema do destino. Não, absolutamente
não.
Os doutores javaneses de curar não
entendem literatura assim. Para eles, é boa literatura a que é
constituída por vastas compilações de coisas de sua profissão,
escritas laboriosamente em um jargão enfadonho com fingimentos de
língua arcaica.
Curioso é que a primeira qualidade
exigida em um livro de estudo é a sua perfeita, completa clareza,
que só pode ser obtida com a máxima simplicidade de escrever, além
de um encadeamento naturalmente lógico de suas partes, evitando-se
tudo o que distraia a atenção do leitor daquilo que se quer
ensinar.
Vou explicar-me melhor e os leitores
verão como os sábios javaneses prendem a atenção, poupam o
esforço mental dos seus discípulos, empregando termos obsoletos e
locuções que desde muito estão em desuso.
Suponhamos que um médico nosso
patrício se proponha a escrever um tratado qualquer de patologia e
empregue a linguagem de João de Barros, mesclada com a do Padre
Vieira, sem esquecer a de Alexandre Herculano. Eis aí em que
consiste a literatura suculenta dos doutores javaneses; e todos de lá
lhes admiram as obras escritas em tal patoá ininteligível. Darei um
exemplo, servindo-me do nosso idioma.
Antes, porém, de dar essa mostra do
modo de escrever dos esculápios de lá, dar-lhes-ei o de falar, com
uma anedota que me contaram lá mesmo — porque lá há também
irreverentes e observadores. Uma família média, tendo o chefe
doente e vendo que a moléstia não dava volta com o modesto médico
assistente, resolveu chamar uma das celebridades da medicina
javanesa. A mulher do doente era quem mais queria isto, porque,
embora possam ser excelentes, com todos os bons predicados, nenhuma
mulher perde de todo a vaidade; e a visita de uma notabilidade
hipocrática fazia falar a vizinhança. Foi chamado o homem, o doutor
Lhovehy, um celebridade retumbante, professor, membro de várias
academias, inclusive a de Letras e a de História e Geografia.
Ele foi de carro, com a visita paga
adiantadamente: cento e cinquenta florins. Em chegando junto ao
doente, com três jeitos de mau ator foi falando assim:
— Até agora quem o há tratado?
— O doutor Nepuchalyth.
— Mister é que tenhais sempre
atilamento com esses físicos incautos. Eles são homens que não
curam senão por experiência e costume; e é tão bom de enganar os
néscios não afeitos ao bom parecer dos físicos de valia que dão
cor a facilmente serem enganados por eles e o pior é que alguns
clientes físicos, ou por contentar todos os do povo e não querer
trabalhar ou especular as curas, vão-se com o parecer deles; e
porque ser aprazível ao povo faz ao físico ganhar mais moedas, usam
logo em princípio as suas mezinhas deles.
Depois de ter pronunciado esse exórdio
com toda a solenidade teatral e doutoral, o Garcia Orta não
anunciado, da sublime escola de Java, examinou o doente e receitou em
grego. Quase ao sair, a mulher perguntou-lhe:
— Doutor, qual a dieta?
— Polho cozido ou caldo dele.
A mulher voltou para junto do marido,
sem ter compreendido a dieta, pois temeu mostrar-se ignorante em face
do sábio, indagando o que era polho.
Logo que a viu, o marido ralhou-a com
doçura:
— Filha, eu não dizia a você que
esses médicos famosos não servem para nada?... Este que você
trouxe fala que ninguém o entende, como se a gente falasse para
isso... Receita umas mixórdias misteriosas... Sabe você de uma
coisa? Continuo com o doutor Nepuchalyth, ali da esquina. Este ao
menos tem juízo e não inventou um modo de falar para ele só
entender.
O exemplo de que falei acima é o que
se encontra em obras de um famoso doutor lá de Java. Cito um único,
mas poderia citar muitos. O javanês, doutor de curas, queria dizer:
“Sou de opinião que a febre deve ser combatida na sua causa”.
Julgou isto vulgar, indigno do seu
título e das suas prerrogativas consuetudinárias, e escreveu
provocando a máxima admiração dos seus leitores, da seguinte
forma:
“Erro, quer parecer-me, é não se
atentar donde provém tal febre com incendimento e modorra, para só
tratá-la às rebatinhas, tão de pronto como se mesmo fora ela a
doença, senão consequência muita vez de vitais desarranjos imigos
da sã vida e onde o físico de recado achará a fonte ou as fontes
do mal que deixa assim o corpo sem os bons e sãos aspectos de sua
habitual composição.”
Depois de uma beleza destas, a sua
entrada na academia foi certa e inevitável, pois é nessa espécie
de pot-pourri de estilos de tempos desencontrados, com o emprego de
um vocábulo senil, tirado à sorte; de salada de feitios de
linguagem de épocas diferentes, de modismos de séculos afastados
uns dos outros, que a gente inteligente de Java encontra a mais alta
expressão da sua oca literatura. Há exceções, devo confessar.
Continuo, sem me deter nelas.
A ciência javanesa está muito
adiantada. Nunca se fez lá a mais insignificante descoberta; nunca
um sábio javanês edificou uma teoria qualquer.
Penso que tal se dá por não haver
precisão disso; os da estranja suprem as necessidades da mentalidade
javanesa.
O sábio da Batávia é o contrário
de todos os outros sábios do mundo. Não é um modesto professor que
vive com seus livros, seus algarismos, suas retortas ou éprouvettes.
O sábio de Java, ao contrário, é sempre um ricaço que foge dos
laboratórios, dos livros, das retortas, dos cadinhos, das épuras,
dos microscópios, das equatoriais, dos telescópios, das cobaias,
tem cinco ou seis empregos, cada qual mais afanoso, e não falta às
festas mundanas.
A presunção de cientista,
entretanto, não há quem lá não a tome. Basta que um sujeito tenha
aprendido um pouco de álgebra ou folheado um compêndio de anatomia,
para se julgar cientista e se encher de um profundo desdém por toda
a gente, sobretudo pelos literatos ou poetas. Contudo todos desse
gênero querem sê-lo e, em geral, são péssimos.
Vou lhes contar um caso que se passou
com o doutor Karitschâ Lanhi, quando foi nomeado diretor do câmbio
do Banco Central de Java. Esse doutor era professor da Escola de
Sapadores, da qual mais adiante falarei, e por isso se julgou no
direito de pleitear o lugar do banco. No dia seguinte de sua
nomeação, o seu subalterno imediato foi perguntar-lhe qual a taxa
de câmbio que devia ser afixada.
— Sempre para a alta. Qual foi a
taxa de ontem?
O empregado retrucou:
— 18 5/17, doutor.
O sábio pensou um pouco e determinou:
— Afixe: 18 5/21, senhor Hatati.
O homem reprimiu o espanto e todo o
banco riu-se de tão seguro financeiro que lhe caía do céu, por
descuido. Não houve remédio senão demitir-se ele uma semana depois
de nomeado.
São assim os graves sábios de Java.
Não nos afastemos, porém, do nosso
estudo.
Das grandes artes técnicas, a mais
avançada, como era de esperar, é a medicina. O tratamento
geralmente empregado é o do vestuário médico. Consiste ele em usar
o doutor certo traje para curar certa moléstia. Para sarar bexigas,
o médico vai em ceroulas; para congestão de fígado, sobrecasaca e
cartola; para tuberculose, tanga e chapéu de palha de coco; antraz,
de casaca etc. etc.
Este curioso método foi descoberto
recentemente em um país próximo que o repudiou, mas veio
revolucionar a medicina da grande ilha. Os físicos locais
adotaram-no imediatamente e aumentaram o preço das visitas e
redobraram a caça aos empregos, para atender às despesas com a
indumentária e os aviamentos.
Estava a ponto de esquecer-me de falar
no ensino da célebre ilha do arquipélago de Sonda, pois tanto me
alonguei no estudo dos seus médicos, que vou ter a ele com pressa.
Existe uma universidade com três
faculdades superiores: a de “Sapadores”, a de “Cortadores” e
a de “Físicos”. Os cursos destas faculdades duram cerca de cinco
anos, mas cada uma delas tem um subcurso menor, de dois ou três
anos. A de “Sapadores” tem o de “consertadores de picaretas”;
a de “Cortadores”, o de “embrulhadores”; e a de “Físicos”,
o de “cobradores”.
Nas margens do Jacarta, rio que banha
a Batávia, quem não tem um título dado por uma dessas faculdades
não pode ser nada, porquanto, aos poucos, os legisladores da terra e
a estupidez do povo foram exigindo para exercer os grandes e pequenos
cargos do Estado, quer os políticos, quer os administrativos, um
qualquer documento universitário de sabedoria.
Todos, por isso, tratam de obtê-lo e
é a mais dura vicissitude da vida ser reprovado no curso. É raro,
mas acontece. Os jovens javaneses empregam toda espécie de meios
para não serem reprovados, menos estudar. Essa contingência pueril
da “bomba”, na sociedade javanesa, leva às almas dos moços
daquelas paragens um travo tão amargo de desconforto que toda a
felicidade que lhes chegar posteriormente não o atenuará, e muito
menos será capaz de dissolvê-lo.
E mesmo que ele se acredite por sua
própria iniciativa, mais valiosa e mais segura que os papéis
oficiais; por mais aptidões que demonstre sem título — tem que
vegetar em lugares subalternos e dar o que tem de melhor aos outros
titulados, para que figurem estes como capazes. Ele escreverá as
cartas de amor; mas os beijos não serão nele. Por um curioso
fenômeno sociológico, as ideias bramânicas de casta se enxertaram
nas caducas concepções universitárias do medievo europeu e foram
dar nas ilhas de Sonda, sob o pretexto de ensino, nessa estranha e
original concepção do doutor javanês. Aproveito a ocasião para
avisar os leitores que essa concepção religioso-universitária
também existe na República de Bruzundanga.
Creio, porém, que ela é originária
da grande ilha da Malásia donde foi ter àquela República, por
caminho que não descobri.
Como todo moço que tem legítimas
ambições naquele recanto do nosso planeta, Harakashy, um javanês
que foi muito meu amigo mais tarde, conseguiu entrar para a Escola
dos Sapadores, a fim de acreditar-se na sociedade em que vivia, e ter
o seu lugar sob o sol, com o título que a faculdade dava. Era malaio
com muitas gotas de sangue holandês nas veias, mas sem fortuna nem
família. No começo, as coisas foram indo, ele passou; mas, em
breve, Harakashy desandou e foi reprovado umas dez vezes na
universidade.
Em absoluto, não houve injustiça. O
meu amigo nada sabia, porque ingenuamente deduzira dos fatos que a
principal condição para ser aprovado, nos exames de Java, é não
saber. Enganava-se, porém, supondo que tal homenagem fosse prestada
a todos. Recebem-na os filhos dos grandes dignitários da colônia,
dos ricaços, dos homens de negócios que sabem levantar capitais;
mas escolares que não têm tal ascendência, como o meu amigo, estão
talhados para engrossar a estatística dos reprovados, a fim de
comprovar o rigor que há nos estudos da Universidade de Batávia.
Dá-se isto, não por culpa total dos
professores; mas pelas solicitações de toda a sociedade batavense
que quer seus lentes universitários, homens de salão, de teatros
caros, de bailes de alto bordo; e eles, para aumentar as suas rendas,
que custeiem esse luxo, têm que viver ajoujados aos ministros que
dão empregos, ou aos brasseurs d’affaires que lhes pedem
emprestados os nomes para apadrinhar empresas honestas, semi-honestas
e mesmo desonestas, em troco de boas gorjetas.
Quem meu filho beija, minha boca adoça
— diz o nosso povo.
Em uma sociedade que se modelou assim,
não era possível que o meu Harakashy fosse lá das pernas.
Entretanto, eu o conheci e o senti
muito inteligente, culto, amigo dos livros e todo ele saturado de
anseios espirituais. Gostava muito de filosofia, de letras e,
sobretudo, de história. Leu-me ensaios e eu achei muito bem
escritos, revelando uma grande cultura e um grande poder de evocar.
Mas Java é muito estúpida e não
admite inteligência senão nos “sapadores”, nos “físicos” e
nos “cortadores”.
Ainda não lhes disse o que são os
tais “cortadores”. São estes assim como os nossos advogados e o
seu emblema é uma tesoura, devido a ser, senão de regra, mas de
praxe, de tradição que toda defesa ou acusação judiciária tenha
o maior número de citações possíveis e tais peças são mais
estimadas quando as referências aos autores consultados vêm nelas
coladas com os próprios retalhos dos livros aludidos. A tesoura é
instrumento próprio para isto e, dessa maneira, enriquece os
“cortadores”, pois os arrazoados dessa natureza são muito bem
pagos, embora lhes estraguem as bibliotecas que alcançam muito
baixas licitações quando vão a leilão.
Atribuí o desastre da vida escolar do
meu amigo ao fato de ele não ter nenhum jeito para qualquer das
grandes profissões liberais que a Batávia oferece aos seus filhos.
Se Harakashy nascesse em França ou em
outro país civilizado, naturalmente a sua própria vocação
encaminhá-lo-ia para uma aplicação mental, de acordo com a sua
feição de espírito; mas, em Java, tinha que ser uma daquelas três
coisas, se quisesse figurar como inteligente. Não achando campo para
a sua atividade cerebral, muito pouco atraído para o estudo das
“picaretas automáticas”, muito orgulhoso para bajular os
professores e aceitar aprovações por comiseração, o meu amigo
ficou naquela exuberante terra sem norte, sem rumo, absolutamente sem
saber o que fazer.
Ensinava para vestir-se e comer. E
todos que o conheciam desde menino admiravam-se que, ao infante
galhardo dos seus primeiros anos, se houvesse substituído nele um
rapaz macambúzio, isolado, amargo e cruel nas suas conversas
camarárias, ressumando sempre uma profunda tristeza.
Aos profundos, parecerá vão; aos
superficiais, parecerá tolo — tão grandes consequências para tão
fracas causas.
Não me animo a discutir, mas lembro
que o amor tem qualquer coisa de parecido...
Visitei-o sempre. Amei-o na sua
desordem de espírito, imensa e ambiciosa de fazer o Grande e o Novo.
Em uma das minhas visitas, encontrei-o no seu modesto quarto, deitado
em uma espécie de enxerga, fumando e tendo um gordo livro ao lado.
Eu entrava sem me anunciar. Trocamos algumas palavras e ele me disse
logo após:
— Fizeram muito bem em não me
deixar ir adiante.
— E essa!
— Não te admires. Continuo a
estudar história e estou convencido.
— Como?
— Lê este manuscrito.
Passou-me então um códice fortemente
encadernado em couro.
Era o livro que tinha ao lado. Pude
ler o título: História da Universidade de Batávia com a
biografia dos seus mais distintos alunos, por Degni-Hatdy — 1878.
— Quem é este Degni-Hatdy?
perguntei.
— Foi um gênio, meu caro. Um gênio
de escola... Recebeu medalhas, diplomas, prêmios... Vive ainda, mas
ninguém o conhece mais.
— É de interesse, a memória?
— É, e bastante, pois traz a lista
dos alunos ilustres da universidade.
— Quais foram?
— Newton, Huyghens, Descartes, Kant,
Pasteur, Claude Bernard, Darwin, Lagrange.
— Chega.
— Ainda: Dante e Aristóteles.
— Uff!
— Gente de primeira, como vês; e,
quando soube, tive orgulho de ter sido de alguma forma colega deles;
mas...
Por aí acendeu um cigarro, tirou duas
longas fumaças com a languidez javanesa e continuou com a pachorra
batava:
— Mas, como te dizia, bem cedo tive
vergonha de ter um dia passado pela minha mente que eu era capaz de
emparelhar-me com tais gênios. E verdade que não sabia terem eles
frequentado a universidade... Vou esconder-me em qualquer buraco,
para me resgatar de tamanha pretensão.
Saí. Ainda o vi durante alguns dias;
mas, bem depressa, desapareceu dos meus olhos. Pobre rapaz! Onde
estará?
Lima Barreto, em Contos completos

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