[…]
E veio mesmo outra manhã, sem
assunto, eu decidi comigo! ― E hoje... Mas dessa vez eu ainda
remudei. Sem motivo para sim, sem motivo para não. Delonguei,
deveras. Não é que, não foi de medo. Nem eu cria que, no passo
daquilo, pudesse se dar alguma visão. O que eu tinha, por mim ― só
a invenção de coragem. Alguma coisice por principiar. O que algum
tivesse feito, por que era que eu não ia poder? E o mais ― é
peta! ― nonada. Do Tristonho vir negociar nas trevas de
encruzilhadas, na morte das horas, soforma dalgum bicho de pêlo
escuro, por entre chorinhos e estados austeros, e daí erguido
sujeito diante de homem, e se representando, canhim, beiçudo,
manquinho, por cima dos pés de bode, balançando chapéu vermelho
emplumado, medonho como exigia documento com sangue vivo assinado, e
como se despedia, depois, no estrondo e forte enxofre. Eu não
acreditava, mesmo quando estremecia. T arreneguei.
Com isso, o tempo mais parava. Também,
fazia mais de mês que a gente estava naquela tapera de retiro, cujo
a Coruja era que era o nome, por um desses impossíveis de Zé
Bebelo. Ao que mais foi que aconteceu ali? Bem, passa um bando de
papagaios, o senhor pensa que eles levaram de sua pessoa alguma
diversão. Mas os papagaios estão voando já longe, e o rumor deles,
conforme o vento, faz que nem estivessem retornando. Diadorim, esse,
nunca teve instante desiludido. Sempre eu gostava muito dele. Só que
não falasse; por aquele tempo eu quase não abria boca para
conversação.
E se deu que chegaram lá dois homens,
quando não se esperava, um deles se vendo que sendo patrão, e o
outro algum vaqueiro de seu serviço. Aí logo se soube! era o dono
daqueles lugares, do retiro do Valado, principalmente; e ele,
conforme já disse, seó Habão se chamava. Ali, quando dei fé, ele
já tinha se apeado; estava curvado para o chão, mas seguro com a
mão esquerda na rédea de seu cavalo. Era um homem de boa idade,
vestido com brim azul encorpado escuro, e calçando pretas botas
joelhudas. Quando levantou o olhar, outra vez, notei que tinha boa
catadura. Mas o cavalo ― esse me entusiasmou: era um animal
gateado, grande, com imponência e todo brio, de rabejo vasto; e mais
tarde o senhor verá o que ele era; cavalo de cara alta, de beiço
mole, cavalo que debruça bem e que em poço bebia remolhando a
testa. Ele sabia olhar redor-mirado a gente, com simpatias ou com
desprezos, e respirava para dentro dos peitos a maior quantidade de
ar que desejava, por quantas ventas tão largas ele tinha. Bem, dele
depois lhe conto.
Seó Habão estava conversando com Zé
Bebelo. Admirei a noção dele: que era uma calma muito sensata e
firmada, junto com um miúdo comportamento. E vigiava os traços
simples do arredor, não perdendo azo de reparar em todas as coisas,
como era que estavam em que pé. Olhares de dono ― o senhor sabe. E
assim foi que ele declarou a Zé Bebelo que, na ocasião, estava
desprevenido, não transportava consigo o dinheiro razoável. Mas
que, se a gente desse a ele o gosto de seguirmos até à verdadeira
sua fazenda-grande que possuía, na vertente do Resplandor, dali a
umas vinte léguas de lonjura, ele havia de fornecer ademais um
auxílio, em espórtulas. E ele falou aquilo com tantas sinceras
medidas ― a gente se capacitando do profundo que o dinheiro para
ele devia de ter valor. Por aí, vi que ele era adiantado e sagaz.
Porque: ema, no chapadão, é a primeira que ouve e se sacode e corre
― e mesmo em quando tenha razão.
Mas, com seus modos guerreiros, Zé
Bebelo abriu um gesto, à fidalgamente, nem deixando o outro
estipular:
― Ah , isso não, patrício meu
amigo, he, mas absolutamente! A gente não é gente da desordem... E
favor, de sobra, nós já devemos ao senhor ― pela pousada em suas
terras e pelas cabeças de gado de sua posse, que temos carneado, por
precisão de sustento...
O homem depressa pronunciou que tinha
prazer naquilo, que sua boiada toda estava às ordens; mas, como por
uma regra, perguntou assim mesmo quantas cabeças, mais ou menos, a
gente já tinha consumido. Assim ele dava balanço, inquiria, e
espiava gerente para tudo, como se até do céu, e do vento suão,
homem carecesse de cuidar comercial. Eu pensei! enquanto aquele homem
vivesse, a gente sabia que o mundo não se acabava. E ele era
sertanejo? Sobre minha surpresa, que era. Serras que se vão saindo,
para destapar outras serras. Tem de todas as coisas. Vivendo, se
aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores
perguntas.
Fiquei notando. Em como Zé Bebelo aos
poucos mais proseava, com ensejos de ir mostrando a valia declarada
que tinha, de jagunço chefe famoso; e daí, sutil, se reconhecia da
parte dele um certo desejo de agradar ao outro. Por causa que o outro
era diferido, composto em outra séria qualidade de preocupações. E
seô Habão, que escutava com respeito, devagarzinho pegava a fazer
perguntas, com a ideia na lavoura, nos trabalhos perdidos daquele
ano, por desando das chuvas temporãs e do sol grave, e das doenças
sucedidas. O que me dava a qual inquietação, que era de ver!
conheci que fazendeiro-mór é sujeito da terra definitivo, mas que
jagunço não passa de ser homem muito provisório.
E Zé Bebelo mesmo se cansava de falar
demonstrado. Porque seô Habão, mansoso e manso, sem glória
nenhuma, era um toco de pau, que não se destorce, fincado sempre
para o seu arrumo. Ele só entendia de assuntos triviais, mas cuidava
deles com uma força vagarosa, verdadeira, de boi-de-cóice. E, no
mais, nem ouvia, apesar de toda a cortesia de respeito, quando se
falava em Joca Ramiro, no Hermógenes e no Ricardão, em tiroteios
com os praças e na grande tomada, por quinhentos cavaleiros, da
formosa cidade de São Francisco ― que é a que o Rio olha com
melhor amor. Daí, assim ia sendo que, mesmo sem sentir, o próprio
Zé Bebelo se via principiando a ter de falar com ele em todas as
pestes de gado, e na boas leiras de vazante, no feijão-da-seca e nos
arrozais cacheando, em que os passarinhos de Deus viram em a má
praga. Com efeito, nos intervalos daquela dividida conversa, não sei
o que Zé Bebelo sentia nem achava. Eu, digo ― me disse: que um
homem assim, seó Habão, era para se querer longe da gente; ou,
pois, então, que logo se exigisse e deportasse. Do contrário, não
tinha sincero jeito possível: porque ele era de raça tão
persistente, no diverso da nossa, que somente a estância dele, em
frente, já media, conferia e reprovava.
[...]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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