Calma, Cláudio. Eu te amo do jeito
que você é. Só queria que você fosse um pouco mais parecido
comigo. Eu sei que você é você e eu sou eu. Mas eu preferia que
você fosse um pouco mais eu e menos você. Seria mais fácil pra
mim. Já tô acostumada a lidar comigo. Quase não brigo comigo
mesma. Quando brigo, esqueço rápido. Eu me perdoo com muita
facilidade, Cláudio. Se você fosse eu, eu te perdoaria rapidinho.
Calma, Cláudio. Eu te amo do jeito
que você é. Mas é que você ficou tão igualzinho a mim. E de mim
já basta eu. Eu já não tenho paciência pra mim. Vou ter pra você?
Eu sei que você também não prestava quando você era aquela outra
pessoa tão diferente de mim. O que eu queria é que você fosse um
meio-termo entre aquela outra pessoa que você era e eu. Nem oito nem
oitenta, Cláudio.
Calma, Cláudio. É que assim ficou
meio meio-termo demais. Eu só queria que você fosse uma pessoa
menos meia-terma, uma pessoa menos menas, e fosse uma pessoa mais
mais, mais muito, mais muito mais. Eu sei que eu disse nem oito nem
oitenta, Cláudio, mas eu estava pensando em oitocentos. Oitocentos e
oitenta e oito, Cláudio. Pode ser?
Calma, Cláudio. Assim tá over. Baixa
a bola, segura essa onda. Assim parece que cheirou pó. Eu sei que
fui eu que mandei você mudar. Mas desse jeito que você tá mudando,
dá pra ver que fui eu que mandei você mudar. Queria que você
mudasse porque você quis e não porque fui eu que mandei. Eu sei que
foi porque você quis mas você só quis porque eu quis que você
quisesse. Eu queria que você quisesse ser o que eu queria antes de
saber que era assim que eu queria que você fosse. Eu só queria que
você fosse uma pessoa que quisesse coisas, Cláudio.
Calma, Cláudio. Estou falando de
coisas. Lá foi você querer pessoas. Quem diria, Cláudio. Até
você. Correndo atrás de pessoas. Eu sei que eu falei. Mas para de
me ouvir. Eu só queria que você fosse uma pessoa que não se
importasse tanto em ser a pessoa que eu queria que você fosse. É
difícil gostar de uma pessoa que quer tanto ser a pessoa que você
gostaria que ela fosse, Cláudio. Calma, Cláudio. Não deixa de se
importar comigo assim. Eu só queria que você não deixasse de
gostar de mim só porque descobriu que eu não gostava de você do
jeito que você era e continuasse gostando igual você gostava antes.
O problema é que agora eu comecei a gostar tanto de você, Cláudio.
Assim mesmo, do jeito que você é. Volta, Cláudio.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
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