História de Floriana Rosales,
virtuosa mulher de Potosí (em versão abreviada da crônica de
Bartolomé Arzáns de Orsúa y Vela)
Por causa da grande formosura que
desde o berço manifestava como terna e bela flor, e por ser Ana o
nome de sua mãe, a batizaram Floriana.
Exercitada sempre na virtude e
recolhimento de sua casa, a belíssima donzela excusava o ver e ser
vista, mas isto mesmo acendia mais o desejo dos pretendentes que
desde que cumpriu doze anos rondavam. Entre eles, os que com maior
eficácia permaneciam na solicitação eram dom Júlio Sánchez
Farfán, senhor de minas, o capitão dom Rodrigo de Albuquerque e o
governador do Tucumán, que por aqui passou indo para Lima e por ter
visto Floriana na igreja ficou em Potosí.
Por puro despeito vendo-se
rejeitado, o governador do Tucumán desafiou para duelo o pai de
Floriana, e em um ermo de mananciais sacaram espadas e entre os dois
se esfaquearam até que umas damas, não sem falta de valor, se
meteram no meio.
Ardeu em iras Floriana ao ver o pai
ferido e determinou satisfazer por sua mão aquele agravo. Enviou a
dizer ao governador que na seguinte noite o esperava em certa tenda,
onde sem nenhuma testemunha queria falar com ele.
Se pôs o governador em gala rica,
que nisto era vaníssimo, vício abominável nos homens que cursaram
a escola de Heliogábalo, de quem disse Herodiano que menosprezava a
vestidura romana e grega por ser feita de lã e a trazia de ouro e
púrpura com preciosas pedras à maneira dos persas, como refere
Lampridio. Pontualmente esteve o governador, ataviado de ricas telas,
e à hora combinada apareceu Floriana trazendo entre as belas flores
de seu rosto o venenoso áspide de suas raivas. Tirando um largo e
bem afiado punhal que trazia na manga, como uma leoa arremeteu para
cortar-lhe a cara dizendo-lhe mizitos insultos. Com a mão rebateu o
talho o governador, e mostrou uma adaga. Percebendo Floriana seu
risco, atirou-lhe ao rosto um envoltório de mantas, após o que teve
como empunhar com as duas mãos um grosso tronco que ali deparou sua
fortuna. Tão grande golpe lhe deu que caiu duro o governador do
Tucumán.
Com grande pesar e sobressalto, os
pais de Floriana trataram de escondê-la em sua casa, mas já não
foi possível. O corregidor, máxima autoridade em assuntos de
justiça e polícia, veio com toda diligência, e não pôde fazer
outra coisa Floriana além de subir a seu quarto e atirar-se pela
janela à rua. Quis Deus prender-lhe a anágua de uma madeira que
sobressaía da moldura da janela, e ficou ela pendurada com a cabeça
para baixo.
Uma criada que conhecia dom Júlio
Sánchez Farfán e sabia que amava a sua senhora, lhe disse que fosse
ao beco que estava nas costas das casas e visse se Floriana andava
por lá, porque fazia tempo que se atirara da janela. Mas como o
capitão Rodrigo de Albuquerque visse falar em segredo com dom Júlio
a criada, foi-lhe seguindo os passos até o beco.
Chegou dom Júlio no ponto em que a
aflita Floriana, que bom tempo levava pendurada, com ânsias mortais
pedia já favor dizendo que se sufocava. Aproximou-se o amante
cavalheiro e estendendo os braços tomou-a pelos ombros e puxando-a
fortemente caiu com ela ao chão.
Nisto acudiu o capitão Rodrigo, e
com palavras de enamoramento cobriu com sua capa Floriana e
levantou-a. Vendo-o assim dom Júlio, ardente em ciúmes pôs-se em
pé e sacando um punhal investiu ao capitão dizendo-lhe que era
traidor vilão. Ferido de morte no peito, caiu em terra o capitão
pedindo confissão, ouvindo o que Floriana amaldiçoou sua sorte e os
padecimentos de sua honra e marcou-se a toda pressa.
Pôs-se Floriana em hábitos de
índia para ausentar-se desta vila de Potosí, mas quando estava por
montar em uma mula não faltou quem avisasse o corregedor que veio a
ponto de colocá-la em prisão. Quando o corregedor via Floriana, o
menino cego que chamam de Cupido atravessou-lhe o coração com
terrível flecha, de lado a lado. Tomou-lhe desejoso as mãos, e
levou-a ao palácio.
Dadas as dez da noite, hora em que
haveria de ir à alcova do corregedor, Floriana amarrou uma corda ao
balcão e deixou-se cair até pôr-se em mãos de dom Júlio, que a
esperava abaixo. Disse a donzela a dom Júlio que antes de dar um só
passo lhe fizesse juramento de segurança em sua pessoa e pureza.
Vendo o cavalheiro o perigo que
corriam, pois já se havia descoberto a fuga, tomou Floriana sobre
seus ombros e correu carregando-a até a distante praça do Gato.
Voou sobre pedras e barro, suando e suando, e quando por fim pode
sentar-se para descansar e desceu Floriana de suas costas,
repentinamente caiu.
Julgando que fosse algum desmaio,
ela pôs a cabeça de dom Júlio em seu regaço. Mas percebendo que
era morto, com grande sobressalto pôs-se de pé e fugiu para os
bairros de San Lorenzo, no mês de março daquele ano de 1598.
Ali permaneceu, decidida a guardar
perpétua castidade e a continuar sendo, até o fim de seus dias,
obediente serva do Senhor.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Nenhum comentário:
Postar um comentário