03/11/2025

1598 – Potosí

História de Floriana Rosales, virtuosa mulher de Potosí (em versão abreviada da crônica de Bartolomé Arzáns de Orsúa y Vela)

Por causa da grande formosura que desde o berço manifestava como terna e bela flor, e por ser Ana o nome de sua mãe, a batizaram Floriana.
Exercitada sempre na virtude e recolhimento de sua casa, a belíssima donzela excusava o ver e ser vista, mas isto mesmo acendia mais o desejo dos pretendentes que desde que cumpriu doze anos rondavam. Entre eles, os que com maior eficácia permaneciam na solicitação eram dom Júlio Sánchez Farfán, senhor de minas, o capitão dom Rodrigo de Albuquerque e o governador do Tucumán, que por aqui passou indo para Lima e por ter visto Floriana na igreja ficou em Potosí.
Por puro despeito vendo-se rejeitado, o governador do Tucumán desafiou para duelo o pai de Floriana, e em um ermo de mananciais sacaram espadas e entre os dois se esfaquearam até que umas damas, não sem falta de valor, se meteram no meio.
Ardeu em iras Floriana ao ver o pai ferido e determinou satisfazer por sua mão aquele agravo. Enviou a dizer ao governador que na seguinte noite o esperava em certa tenda, onde sem nenhuma testemunha queria falar com ele.
Se pôs o governador em gala rica, que nisto era vaníssimo, vício abominável nos homens que cursaram a escola de Heliogábalo, de quem disse Herodiano que menosprezava a vestidura romana e grega por ser feita de lã e a trazia de ouro e púrpura com preciosas pedras à maneira dos persas, como refere Lampridio. Pontualmente esteve o governador, ataviado de ricas telas, e à hora combinada apareceu Floriana trazendo entre as belas flores de seu rosto o venenoso áspide de suas raivas. Tirando um largo e bem afiado punhal que trazia na manga, como uma leoa arremeteu para cortar-lhe a cara dizendo-lhe mizitos insultos. Com a mão rebateu o talho o governador, e mostrou uma adaga. Percebendo Floriana seu risco, atirou-lhe ao rosto um envoltório de mantas, após o que teve como empunhar com as duas mãos um grosso tronco que ali deparou sua fortuna. Tão grande golpe lhe deu que caiu duro o governador do Tucumán.
Com grande pesar e sobressalto, os pais de Floriana trataram de escondê-la em sua casa, mas já não foi possível. O corregidor, máxima autoridade em assuntos de justiça e polícia, veio com toda diligência, e não pôde fazer outra coisa Floriana além de subir a seu quarto e atirar-se pela janela à rua. Quis Deus prender-lhe a anágua de uma madeira que sobressaía da moldura da janela, e ficou ela pendurada com a cabeça para baixo.
Uma criada que conhecia dom Júlio Sánchez Farfán e sabia que amava a sua senhora, lhe disse que fosse ao beco que estava nas costas das casas e visse se Floriana andava por lá, porque fazia tempo que se atirara da janela. Mas como o capitão Rodrigo de Albuquerque visse falar em segredo com dom Júlio a criada, foi-lhe seguindo os passos até o beco.
Chegou dom Júlio no ponto em que a aflita Floriana, que bom tempo levava pendurada, com ânsias mortais pedia já favor dizendo que se sufocava. Aproximou-se o amante cavalheiro e estendendo os braços tomou-a pelos ombros e puxando-a fortemente caiu com ela ao chão.
Nisto acudiu o capitão Rodrigo, e com palavras de enamoramento cobriu com sua capa Floriana e levantou-a. Vendo-o assim dom Júlio, ardente em ciúmes pôs-se em pé e sacando um punhal investiu ao capitão dizendo-lhe que era traidor vilão. Ferido de morte no peito, caiu em terra o capitão pedindo confissão, ouvindo o que Floriana amaldiçoou sua sorte e os padecimentos de sua honra e marcou-se a toda pressa.
Pôs-se Floriana em hábitos de índia para ausentar-se desta vila de Potosí, mas quando estava por montar em uma mula não faltou quem avisasse o corregedor que veio a ponto de colocá-la em prisão. Quando o corregedor via Floriana, o menino cego que chamam de Cupido atravessou-lhe o coração com terrível flecha, de lado a lado. Tomou-lhe desejoso as mãos, e levou-a ao palácio.
Dadas as dez da noite, hora em que haveria de ir à alcova do corregedor, Floriana amarrou uma corda ao balcão e deixou-se cair até pôr-se em mãos de dom Júlio, que a esperava abaixo. Disse a donzela a dom Júlio que antes de dar um só passo lhe fizesse juramento de segurança em sua pessoa e pureza.
Vendo o cavalheiro o perigo que corriam, pois já se havia descoberto a fuga, tomou Floriana sobre seus ombros e correu carregando-a até a distante praça do Gato. Voou sobre pedras e barro, suando e suando, e quando por fim pode sentar-se para descansar e desceu Floriana de suas costas, repentinamente caiu.
Julgando que fosse algum desmaio, ela pôs a cabeça de dom Júlio em seu regaço. Mas percebendo que era morto, com grande sobressalto pôs-se de pé e fugiu para os bairros de San Lorenzo, no mês de março daquele ano de 1598.
Ali permaneceu, decidida a guardar perpétua castidade e a continuar sendo, até o fim de seus dias, obediente serva do Senhor.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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