40.
Sinto-me
às vezes tocado, não sei porquê, de um prenúncio de morte... Ou
seja, uma vaga doença, que se não materializa em dor e por isso
tende a espiritualizar-se em fim, ou seja, um cansaço que quer um
sono tão profundo que o dormir lhe não basta — o certo é que
sinto como se, no fim de um piorar de doente, por fim largasse sem
violência ou saudade as mãos débeis de sobre a colcha sentida.
Considero
então que coisa é esta a que chamamos morte. Não quero dizer o
mistério da morte, que não penetro, mas a sensação física de
cessar de viver.
A
humanidade tem medo da morte, mas incertamente; o homem normal
bate-se bem em exercício, o homem normal, doente ou velho, raras
vezes olha com horror o abismo do nada que ele atribui a esse abismo.
Tudo isso é falta de imaginação. Nem há nada menos de quem pensa
que supor a morte um sono. Porque o há de ser se a morte se não
assemelha ao sono? O essencial do sono é o acordar-se dele, e da
morte, supomos, não se acorda. E se a morte se assemelha ao sono,
deveremos ter a noção de que se acorda dela. Não é isso, porém,
o que o homem normal se figura: figura para si a morte como um sono
de que não se acorda, o que nada quer dizer. A morte, disse, não se
assemelha ao sono, pois no sono se está vivo e dormindo; nem sei
como pode alguém assemelhar a morte a qualquer coisa, pois não pode
ter experiência dela, ou coisa com que a comparar.
A
mim, quando vejo um morto, a morte parece-me uma partida. O cadáver
dá-me a impressão de um trajo que se deixou. Alguém se foi embora
e não precisou de levar aquele fato único que vestira.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Nenhum comentário:
Postar um comentário