18/03/2025

O encouraçado terrestre

  



1.

 

O jovem tenente, estirado no chão ao lado do correspondente de guerra, admirava a tranquilidade idílica das linhas inimigas, através do binóculo.

Pelo que posso ver — disse, por fim —, apenas um homem.

O que ele está fazendo? — perguntou o correspondente de guerra.

Olhando para nós de binóculo — disse o jovem tenente.

E isto é uma guerra!

Não — disse o jovem tenente —, isto é Bloch.

O jogo está empatado.

Não. Eles precisam ganhar, senão perdem. Um empate significa vitória para nós.

Já tinham discutido a situação política umas cinquenta vezes, e o correspondente de guerra estava cansado disto. Ele espreguiçou-se, esticando os membros.

Aaaah, suponho que sim — disse, bocejando.

Flut!

O que foi isso?!

Ele atirou em nós.

O correspondente de guerra moveu-se até uma posição mais protegida.

Ninguém atirou nele — queixou-se.

Será que eles pensam que vamos ficar tão entediados aqui que acabaremos voltando para casa?

O correspondente de guerra não respondeu.

Há a colheita, é claro…

Estavam ali havia um mês. Desde as primeiras agitações após a declaração de guerra as coisas vinham desacelerando cada vez mais, até parecer que a máquina que movia os acontecimentos tinha quebrado. No início, tudo ocorrera precipitadamente; o Exército invasor cruzara a fronteira, assim que saíra a guerra fora declarada, em meia dúzia de colunas paralelas, por trás de uma nuvem de ciclistas e de cavalaria, dando a impressão de que marchariam direto para a capital; a cavalaria defensora conseguiu detê-los, crivando-os de balas e forçando-os a abrir o flanco. Depois, ocupou a próxima posição de acordo com o figurino, por uns dois dias, até que durante a tarde, bump! Lá estava o invasor novamente de encontro a suas linhas de defesa. Não tinha sofrido os danos que todos esperavam: avançava, pelo que era possível perceber, de olhos abertos, com seus batedores farejando as armas inimigas. E ali se instalou, sem sequer esboçar um ataque. Começou a preparar trincheiras para se abrigar, como se pretendesse ficar por ali até o fim dos tempos. Era vagaroso, mas muito mais previdente do que o mundo tinha chegado a supor. Mantinha seus comboios bem abrigados, e protegia a marcha vagarosa de sua infantaria o bastante para evitar que sofresse danos pesados.

Mas ele devia atacar — insistia o jovem tenente.

Ele vai nos atacar ao amanhecer, em algum ponto ao longo das nossas linhas de defesa. Quando você menos esperar, vai ver as baionetas vindo na direção das trincheiras — dissera o correspondente de guerra até uma semana atrás.

O jovem tenente piscou ao ouvir isso.

Uma manhã, os homens que os defensores colocaram quinhentos metros à frente das trincheiras, para descarregar sua munição sobre qualquer ataque noturno, cederam a um pânico desnecessário e abriram fogo contra o nada por dez minutos. Então, o correspondente de guerra entendeu o significado daquela piscadela.

O que faria você se fosse o inimigo? — perguntou o correspondente de guerra, de repente.

Se eu tivesse homens como os que tenho agora?

Sim.

Tomaria nossas trincheiras.

Como?

Ora! Bastaria arrastar-se metade da distância à noite, antes da lua nascer, e aproximar-se do pessoal que mandamos lá para a frente. Disparar sobre eles se tentassem mudar de posição, e abater alguns durante o dia. Ficar conhecendo de cor aquele terreno, abrigar-se o dia inteiro naqueles buracos, e na noite seguinte chegar mais perto. Há um trecho ali adiante, um terreno com elevações, onde eles poderiam chegar facilmente até a distância ideal para uma arremetida contra nós. Levaria uma ou duas noites. Tudo isso seria brincadeira para os nossos rapazes; foram preparados para isto... Armas? Granadas e coisas assim não são capazes de deter homens determinados.

E por que não fazem isso?

Eles não são idiotas, eis o problema. A verdade é que são uma multidão de sujeitos urbanos sem muito estofo. São funcionários públicos, operários de fábrica, estudantes, homens civilizados. Sabem ler, sabem se expressar, são capazes de fazer todo tipo de coisa, mas em matéria de guerra são uns pobres amadores. Não têm condições físicas de resistência, e pronto. Nunca dormiram ao ar livre uma só noite em suas vidas; nunca beberam outra coisa senão água filtrada, fornecida pelas companhias urbanas; nunca deixaram de fazer três refeições por dia desde que abandonaram a mamadeira. Metade dos homens da cavalaria deles nunca havia passado a perna sobre um cavalo, até serem convocados, seis meses atrás. Cavalgam como se estivessem andando de bicicleta... olhe bem para eles! São uns pobres diabos neste jogo, e sabem disso. Nossos meninos de catorze anos estão muitos pontos acima deles. Muito bem…

O correspondente de guerra ficou pensativo, apoiando o nariz de encontro aos nós dos dedos.

Se uma civilização decente — disse ele — não é mais capaz de produzir melhores soldados do que... — Ele se interrompeu por cortesia, mas um pouco tarde. — Quero dizer…

Do que a nossa vida ao ar livre — disse o jovem tenente.

Exatamente — disse o correspondente de guerra. — Se é assim, a civilização tem que parar.

É o que parece estar acontecendo — admitiu o jovem tenente.

A civilização tem a ciência, como você sabe — disse o correspondente de guerra. — Ela inventou e fabrica os fuzis e as pistolas, e todas as coisas que vocês utilizam.

Coisas que os nossos bons caçadores, criadores de gado e tudo o mais, os que derrubam reses e dão pancadas nos negros, sabem usar dez vezes melhor do que... espere, o que foi aquilo?!

— O quê? — disse o correspondente de guerra. Vendo seu companheiro empunhar rapidamente o binóculo, ele pegou também o seu. — Onde? — perguntou, varrendo com o visor as linhas inimigas.

Não é nada — disse o jovem tenente, ainda observando.

O que não é nada?

O jovem tenente abaixou o binóculo e apontou com o dedo.

Pensei ter visto alguma coisa ali, por trás dos troncos daquelas árvores. Alguma coisa escura. Mas não tenho como saber o que era.

O correspondente de guerra dedicou-se a um intenso escrutínio.

Não foi nada — disse o jovem tenente, rolando para ficar de rosto para cima, contemplando o céu, que escurecia rapidamente com o anoitecer. E generalizou: — Nunca mais haverá nada. A menos que…

O correspondente de guerra o olhou com ar interrogativo.

Que aconteça alguma coisa errada com os seus estômagos, algo próprio de quem vive sem um sistema adequado de esgotos.

Um som de cornetas se ouviu vindo das tendas por trás deles. O correspondente de guerra deslizou pela encosta arenosa até chegar embaixo, onde ficou de pé. Ouviu-se uma detonação vinda de certa distância, do lado esquerdo.

Olá! — disse ele. Depois de hesitar um pouco, rastejou de volta para o posto de observação. — Disparar a esta hora é muita falta de educação.

O jovem tenente esteve pouco comunicativo durante algum tempo. Depois voltou a apontar para o aglomerado de árvores a distância.

Um dos nossos grandes canhões — disse. — Estava disparando para lá.

Para a coisa que não era nada?

Bem, de qualquer modo existe alguma coisa ali.

Os dois homens ficaram em silêncio, espreitando pelos binóculos.

Logo agora quando há pouca luz — queixou-se o tenente, e ficou de pé.

Acho que vou ficar aqui mais um pouco — disse o correspondente de guerra.

O tenente balançou a cabeça.

Não há nada para ver — disse, num tom de quem pede desculpas, e desceu o barranco até as trincheiras, onde seu pequeno grupo de soldados, de rostos bronzeados e membros ágeis, entretinha-se em contar histórias. O correspondente de guerra também se levantou, observou por um instante o grupo atarefado na trincheira, dedicou talvez mais vinte segundos de atenção àquelas árvores enigmáticas, e depois voltou a olhar o acampamento.

Ficou imaginando se seu editor aceitaria uma matéria sobre como alguém tinha avistado uma forma escura por trás de um grupo de árvores, e como um canhão tinha sido disparado por alguém na direção dessa miragem; seria trivial demais para publicação?

É o único lampejo de uma sombra de interesse durante dez dias inteiros — disse o correspondente de guerra. E em seguida: — Não, vou escrever aquela outra matéria, intitulada “A guerra é algo superado?”.

Voltou a examinar as linhas negras que convergiam em perspectiva, o traçado das trincheiras feitas pelo inimigo, que se sucediam e se protegiam mutuamente. As sombras e a névoa envolviam aqueles contornos a perder de vista. Aqui e ali brilhava uma lanterna, e ali e acolá viam-se grupos de homens atarefados em volta de pequenas fogueiras.

Nenhuma tropa do mundo seria capaz — disse ele em voz baixa.

Estava deprimido. Ele acreditava que havia coisas na vida mais valiosas do que a eficiência na guerra; acreditava que no âmago da civilização, apesar de todos os seus contratempos, de toda a sua esmagadora concentração de forças, de todas as injustiças e sofrimentos, existia algo que poderia ser uma esperança para o mundo; e a ideia de que um povo, apenas vivendo ao ar livre, eternamente caçando, afastando-se dos livros, das obras de arte e de tudo que torna a vida mais profunda, esperasse poder resistir e interromper aquela evolução até o fim dos tempos, abalava sua alma civilizada.

Como que em harmonia com seus pensamentos, uma fila de soldados das linhas de defesa aproximou-se, passando por ele sob o clarão de uma lanterna balouçante que clareava o caminho.

Ele observou seus rostos sob aquele clarão avermelhado, e um deles se destacou por um instante, um tipo de rosto muito comum entre as tropas dos defensores: um nariz malformado, lábios sensuais, olhos claros com uma expressão sagaz e alerta, chapéu de aba larga, descaído para um lado e enfeitado com a pena de pavão de um Don Juan rústico transformado em soldado; a pele áspera e queimada de sol, um corpo musculoso, o passo largo, franco, e uma mão que se cerrava com firmeza sobre o fuzil.

O correspondente de guerra retribuiu a saudação do grupo e seguiu seu caminho.

Grosseiros — murmurou ele. — Um bando de indivíduos grosseiros e espertos. E vão derrotar os homens mais civilizados, no jogo da guerra!

Da luz rubra que vinha das barracas mais próximas ergueu-se primeiro uma voz, e depois um coro de meia dúzia de vozes fortes, entoando em uníssono os versos de uma canção patriótica especialmente banal e cheia de sentimentalismo.

Ora, dane-se — murmurou o correspondente de guerra, com amargura.

H. G. Wells, em O país dos cegos e outras histórias

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