A recompensa
Os chefes indígenas de Huexotzingo usam, agora, os nomes de seus novos senhores. Se chamam Felipe de Mendoza, Hernando de Meneses, Miguel de Alvarado, Diego de Chaves e Mateo de la Corona. Mas escrevem em sua língua, em língua náhuatl, e nela dirigem uma carta ao rei da Espanha: Desafortunados somos, pobres vassalos vossos de Hgexotzingo…
Explicam a Felipe II que não podem chegar a ele de outra maneira, porque não têm com que pagar a viagem, e por carta contam sua história e formulam sua petição. Como falaremos? Quem falará por nós? Desafortunados somos.
Eles não guerrearam nunca com os espanhóis. Vinte léguas caminharam até Hernán Cortez e o abraçaram, o alimentaram e o serviram e carregaram seus soldados doentes. Deram a ele homens e armas e a madeira para construir os bergantins que assaltaram Tenochtitlán. Caída a capital dos astecas, os de Huexotzingo lutaram depois junto a Cortez na conquista de Michoacán, Jalisco, Colhuacan, Pánuco, Oaxaca, Tehuantepec e Guatemala. Muitos morreram. E depois, quando nos disseram que rompêssemos as pedras e queimássemos as madeiras que adorávamos, o fizemos, e destruímos nossos templos... Tudo o que mandaram, obedecemos.
Huexotzingo era um reino independente quando os espanhóis chegaram. Eles nunca tinham pago tributo aos astecas. Nossos pais, avós e antepassados não conheciam o tributo e não o pagavam a ninguém.
Agora, em compensação, os espanhóis exigem tributos tão altos em dinheiro e milho que declaramos ante Vossa Majestade que não se passará muito tempo antes de que nossa cidade de Huexotzingo desapareça e morra.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Nenhum comentário:
Postar um comentário