502
era a pista para o 1-horizontal das palavras cruzadas do Times
de hoje. Moleza. Esse é o código da polícia para dirigir
embriagado, Driving While Intoxicated, então eu escrevi DWI
nos quadradinhos. Errado. Imagino que os leitores do New York
Times lá de Connecticut saibam que o certo seria escrever 502 em
algarismos romanos. Tive alguns instantes de pânico, como sempre
acontece quando lembranças dos tempos em que eu bebia me vêm à
cabeça. Mas, desde que me mudei para Boulder, aprendi a respirar
fundo e meditar, o que é infalível para me acalmar.
Ainda
bem que fiquei sóbria antes de me mudar para Boulder. Esse é o
primeiro lugar em que moro que não tem uma loja de bebida em cada
esquina. Nem nos supermercados Safeway daqui vendem bebidas
alcoólicas, e claro que é impossível comprar bebida aos domingos.
Só existem algumas poucas lojas de bebida, a maior parte delas nos
arredores da cidade, então, se você é um pobre alcoólatra
acometido por uma tremedeira e está nevando, Deus tenha piedade. As
lojas de bebida daqui são gigantescas, do tamanho de Targets,
verdadeiros pesadelos. Dá para morrer de delirium tremens só
tentando encontrar o corredor do Jim Beam.
A
melhor cidade é Albuquerque, onde as lojas de bebida têm janelas
para atender os fregueses sem que eles saiam do carro, então você
não precisa nem trocar o pijama. Mas elas também não abrem aos
domingos. Então, quando eu não planejava com antecedência, sempre
havia o problema de descobrir quem no mundo eu poderia visitar que
fosse me oferecer uma bebida de verdade e não um daqueles refrescos
de vinho.
Embora
já estivesse sóbria fazia anos antes de me mudar para cá, tive
problemas no início. Sempre que olhava pelo espelho retrovisor, eu
pensava “Ah, não”, mas eram só os porta-esquis que quase todo
carro daqui tem. Na verdade, eu nunca vi um carro de polícia em
perseguição nem vi ninguém ser preso. Vi policiais de short no
shopping, tomando frozen yogurt Ben & Jerry’s, e uma equipe da
SWAT numa picape. Seis homens vestidos com roupas de camuflagem e com
rifles enormes carregados com dardos tranquilizantes perseguindo um
filhote de urso no meio da Mapleton Avenue.
Boulder
deve ser a cidade mais saudável do país. Aqui não se bebe em
festas de fraternidades nem em jogos de futebol. Ninguém fuma,
ninguém come carne vermelha nem donuts com cobertura. Você pode
andar sozinho à noite e deixar as portas destrancadas. Não há
gangues aqui nem racismo. Não há muitas raças aqui, na verdade.
Aquela
porcaria de 502. Uma enxurrada de lembranças invade a minha cabeça,
apesar de eu estar respirando fundo. O meu primeiro dia de trabalho
em U———, o problema no Safeway, o incidente em San Anselmo, a
cena com A————.
Agora
está tudo bem. Adoro o meu trabalho e meus colegas. Tenho bons
amigos. Moro num apartamento bonito, logo abaixo do monte Sanitas.
Hoje um sanhaço pousou num galho no meu quintal. Cosmo, o meu gato,
estava dormindo ao sol, então não tentou caçá-lo. Sou
profundamente grata pela minha vida hoje.
Então,
que Deus me perdoe, mas confesso que de vez em quando sinto um
impulso diabólico de, bem, esculhambar tudo. Nem acredito que isso
me passe pela cabeça, depois de todos aqueles anos de suplício em
que o oficial Wong vivia me levando ou para a cadeia ou para a
clínica de desintoxicação.
O
Educado, era como chamávamos Wong. Chamávamos todos os outros de
porcos, uma palavra que jamais poderia ser aplicada ao oficial Wong,
que era muito gentil, de fato. Metódico e formal. Nunca havia
nenhuma das costumeiras interações físicas entre você e ele como
acontecia com os outros. Ele nunca empurrava você de encontro ao
carro nem torcia as algemas para machucar o seu pulso. Você ficava
lá esperando durante horas enquanto ele preenchia meticulosamente a
multa e lia os seus direitos. Antes de algemar você ele dizia “Com
licença” e, quando você ia entrar no carro, “Cuidado pra não
bater a cabeça”.
Era
dedicado e honesto, um membro excepcional da polícia de Oakland.
Tínhamos sorte de tê-lo no nosso bairro. Hoje, lamento em especial
um incidente. Um dos passos do programa dos Alcoólicos Anônimos é
fazer reparações às pessoas a quem você tenha prejudicado ou com
as quais tenha sido injusta. Acho que fiz a maioria das reparações
que pude, mas fiquei devendo uma ao oficial Wong. Fui injusta com ele
sem a menor sombra de dúvida.
Na
época, eu morava em Oakland, num enorme prédio turquesa na esquina
da Alcatraz com a Telegraph. Bem em cima da loja de bebida Alcatel,
perto da White Horse e em frente a uma 7-Eleven. Boa localização.
A
7-Eleven era uma espécie de ponto de encontro de velhos beberrões.
Embora, ao contrário deles, eu saísse para trabalhar todos os dias,
eles esbarravam comigo em lojas de bebida nos fins de semana. Filas
em frente à Black and White, que abria às seis da manhã.
Discussões tarde da noite com o paquistanês sádico que trabalhava
na 7-Eleven.
Todos
eles eram amáveis comigo. “Como é que tá essa força, dona Lu?”
Às vezes eles me pediam dinheiro, que eu sempre dava, e de vez em
quando, depois que perdi o emprego, eu pedia dinheiro a eles. O grupo
ia mudando conforme alguns iam para a cadeia, para o hospital, para o
beleléu. Os habitués eram Ace, Mo, Little Ripple e The Champ. Esses
quatro velhos negros passavam as manhãs na 7-Eleven e as tardes
cochilando ou bebendo num Chevrolet Covair azul-piscina desbotado que
ficava estacionado no quintal de Ace. A mulher dele, Clara, não
deixava que eles fumassem nem bebessem dentro de casa. Inverno ou
verão, chuva ou sol, os quatro ficavam lá, sentados dentro do
carro. Dormindo como criancinhas em longas viagens de carro, a cabeça
apoiada nas mãos entrelaçadas, ou olhando para a frente como se
estivessem passeando num domingo, tecendo comentários sobre todo
mundo que passava a pé ou de carro, enquanto dividiam uma garrafa de
vinho do Porto.
Quando
eu descia no ponto de ônibus e vinha subindo a rua, gritava para
eles “Como é que tá tudo aí?”. “Tudo certinho!” Mo
respondia. “Eu tenho o meu vinho!” E Ace complementava: “Sopa
no mel, eu tô com o meu moscatel!”. Eles perguntavam do meu chefe,
aquele bobão do dr. B.
“Pede
logo demissão daquela droga de emprego. Arranja uma pensão por
invalidez que você merece! Vem ficar aqui com a gente, irmã, passar
o tempo com conforto. Você não precisa de emprego nenhum!”
Uma
vez Mo disse que eu não estava parecendo muito bem, que talvez eu
estivesse precisando de uma detox.
“Detox?”,
The Champ debochou. “Que detox que nada. Retox! Isso sim!”
The
Champ era baixo e gordo, usava um terno azul lustroso, uma camisa
branca limpa e um chapéu de jazzista, de copa baixa e coroa reta.
Tinha um relógio de bolso dourado preso por uma corrente e estava
sempre com um charuto na mão. Os outros três usavam camisa xadrez,
macacão e boné dos Oakland Athletics.
Uma
sexta-feira eu não fui trabalhar. Devo ter bebido na noite anterior.
Não sei aonde eu tinha ido de manhã, mas lembro de ter voltado para
casa com uma garrafa de Jim Beam. Estacionei meu carro atrás de uma
van, em frente ao meu prédio, mas do outro lado da rua. Subi e fui
dormir. Acordei com batidas fortes na minha porta.
“Abra
a porta, sra. Moran. É o oficial Wong.”
Escondi
a garrafa na estante e abri a porta. “Olá, oficial Wong. Em que
posso ajudá-lo?”
“A
senhora tem um Mazda 626?”
“O
senhor sabe que sim.”
“Onde
está o seu carro, sra. Moran?”
“Bem,
aqui dentro é que ele não está.”
“Onde
a senhora estacionou o veículo?”
“Acho
que lá em frente à igreja.” Eu não estava conseguindo me
lembrar.
“Pense
melhor.”
“Eu
não me lembro.”
“Olhe
pela janela. O que a senhora vê?”
“Nada.
A 7-Eleven. Telefones. Bombas de gasolina.”
“Alguma
vaga de carro?”
“Sim.
Impressionante. Duas vagas! Ah. Eu estacionei o meu carro ali, atrás
de uma van.”
“A
senhora deixou o carro em ponto morto, sem freio de mão. Quando a
van saiu, o seu carro seguiu atrás dela, desceu a Alcatraz em plena
hora do rush, depois passou para a outra pista, por muito pouco não
colidindo com outros veículos, e subiu na calçada, quase ferindo um
homem, a esposa dele e o bebê que estava no carrinho.”
“E
depois, o que aconteceu?”
“Eu
vou levar a senhora para ver o que aconteceu. Venha comigo.”
“O
senhor pode me dar um instante? Eu quero lavar o rosto.”
“Eu
vou ficar esperando aqui.”
“Por
favor, oficial, um pouco de privacidade. Espere do lado de fora,
sim?”
Tomei
uma dose caprichada de uísque. Escovei os dentes e penteei o cabelo.
Nós
dois descemos a rua em silêncio. Dois longos quarteirões. Merda.
“Se
o senhor parar para pensar, foi um verdadeiro milagre o meu Mazda não
ter batido em nada nem ferido ninguém. O senhor não acha, oficial
Wong? Um verdadeiro milagre!”
“Bem,
ele bateu em alguma coisa. Foi um milagre nenhum daqueles senhores
estar dentro do carro na hora. Eles tinham saído pra ver o seu Mazda
deslizando rua abaixo.”
O
nariz do meu carro estava enfiado no para-lama direito do Chevrolet
Corvair. Os quatro velhos estavam parados lá, sacudindo a cabeça.
Champ dava baforadas num charuto.
“Graças
a Deus você não estava no carro, irmã”, disse Mo. “A primeira
coisa que eu fiz foi abrir a porta e perguntar ‘Cadê ela?’”
O
para-lama e a porta do Chevrolet estavam bem amassados. No meu carro,
o para-choque, um dos faróis dianteiros e uma seta estavam
quebrados.
Ace
continuava sacudindo a cabeça. “Espero que a senhora tenha seguro,
dona Lucille. Esse meu carro clássico aqui sofreu umas avaria bem
séria.”
“Não
se preocupe, Ace. Eu tenho seguro. Assim que puder, você me traz um
orçamento.”
The
Champ falou alguma coisa em voz baixa para os outros. Eles tentaram
não sorrir, mas não funcionou. Ace disse: “Nós só tava aqui
sentado, cuidando da nossa vida, e olha só o que acontece! Meu Deus
do céu!”.
O
oficial Wong estava anotando os números da placa do meu carro e do
carro de Ace.
“Esse
carro tem motor?”, ele perguntou a Ace.
“Este
carro aqui é uma peça de museu. Modelo vintage. Não precisa de
motor.”
“Bem,
acho que agora então eu vou tratar de tentar sair daqui de ré sem
bater em ninguém”, eu disse.
“Ainda
não, sra. Moran”, disse o oficial Wong. “Eu preciso redigir um
auto de infração.”
“Auto
de infração? Que é isso, oficial? Que absurdo!”
“O
senhor não pode passar uma multa pra essa senhora. Ela estava
dormindo na hora do incidente!”
Os
velhos cercaram o policial, deixando-o nervoso.
“Bem”,
ele gaguejou, “ela cometeu uma imprudência… imprudência…”
“Não
pode ser imprudência ao volante. Ela não estava dirigindo o carro!”
Ele
estava tentando pensar. Eles ficaram resmungando e grunhindo.
“Absurdo. Vergonha. Contribuintes inocentes. Coitadinha, sozinha e
tudo o mais.”
“Eu
definitivamente estou sentindo cheiro de álcool”, disse o oficial
Wong.
“Sou
eu!”, os quatro disseram ao mesmo tempo, bafejando.
“Não,
senhor”, disse Champ. “Se você não está dirigindo, não pode
ser multado por dirigir embriagado!”
“É
verdade!”
“Sem
dúvida nenhuma.”
O
oficial Wong olhou para nós com uma expressão de extremo desânimo.
O rádio da polícia começou a grasnar. Wong guardou rapidamente o
bloco no bolso, deu as costas, correu para o carro de patrulha e se
mandou com sirene e luzes ligadas.
O
cheque do seguro chegou bem rápido, enviado para mim, mas nominal a
Horatio Turner. Os quatro homens estavam sentados dentro do carro
quando eu entreguei o cheque a Ace. Mil e quinhentos dólares.
Aquela
tarde foi a única vez em que eu me sentei dentro do velho Chevrolet.
Tive que deslizar pelo banco atrás de The Champ porque a outra porta
não estava abrindo. Little Ripple, que era pequeno, se sentou do
outro lado. Todos eles estavam tomando vinho do Porto Gallo, mas
trouxeram uma garrafa enorme de cerveja Colt 45 para mim. Fizeram um
brinde. “À nossa senhora Lucille!” Foi assim que fiquei
conhecida no bairro depois daquele dia.
A
parte triste foi que isso aconteceu no início da primavera. O
oficial Wong ainda teve que aguentar o resto da primavera e o verão
inteiro naquela mesma rota. Todo dia, era obrigado a passar pelos
velhos no Chevrolet Corvair, que sorriam e acenavam para ele.
Claro
que tive outros encontros com o oficial Wong depois desse. E não
foram nem um pouco agradáveis.
Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

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