16/10/2023

As rãs | 15.


Seriam tantos os participantes da assembleia de denúncia do secretário do Comitê Distrital do Partido, Yang Lin, que não caberiam em lugar nenhum. Xiao Lábio Superior, então diretor do Comitê Revolucionário da comuna, teve a genial ideia de realizar o evento na área de contenção de enchentes na margem norte do rio Jiao. Estávamos em pleno inverno, um gelo grosso cobria a superfície da água. Um mundo de vidro se estendia até onde a vista alcançava. Fui o primeiro da aldeia a saber que a reunião aconteceria nesse local, porque eu sempre matava aula para ir brincar ali. Naquele dia, eu estava sob o arco da comporta, quebrando o gelo para pescar, quando escutei um vozeirão que vinha lá de cima. Reconheci a voz de Xiao Lábio Superior. Sou capaz de distinguir a voz dele num instante, nem que esteja entre dez mil pessoas. Eu o ouvi dizer: “Caramba, que linda paisagem do Norte! A assembleia será aqui, vamos montar a mesa da presidência em cima da barragem”.
O local era originalmente um terreno alagadiço. Mais tarde, para proteger as terras a jusante, foram construídas comportas na barragem do rio Jiao. Nas cheias de verão e outono, abriam-se as comportas para escoar a água e esse terreno se transformava numa lagoa. Naquela altura, os moradores locais ficavam extremamente insatisfeitos. Aquela terra, apesar de baixa, não deixava de ser terra, podia não dar muita coisa, mas sorgo sempre dava. Porém, como pode o povo comum contrariar as decisões do Estado? Muitas vezes eu matei aula e fui até lá para ver a água da enchente jorrar com força das doze comportas. Escoada a água, a área de contenção de enchentes ficava inteiramente alagada, virava uma lagoa com quase cinco quilômetros de circunferência. Havia peixes e camarões em profusão, as pessoas faziam fila para pescar e os vendedores de peixe aos poucos se multiplicaram. De início, montavam barracas na barragem. Quando não cabiam mais lá, passavam para a margem leste da lagoa e, um a um, foram montando suas barracas sob os salgueiros à beira da água. Nos dias de maior movimento, a fila de barracas se estendia por quase um quilômetro. A feira livre, que antes funcionava em frente à sede da comuna, aos poucos se mudou para cá depois que surgiu o mercado de peixes. Vieram os vendedores de legumes, os vendedores de ovos e também os vendedores de amendoim torrado. Vieram até os batedores de carteira, os malandros e os mendigos, próprios da feira. Diversas vezes a comuna mandou milicianos dispersarem as pessoas. Quando os milicianos chegavam, todo mundo debandava. Quando os milicianos iam embora, a aglomeração aos poucos se refazia. E assim a feira subsistiu entre a legalidade e a ilegalidade. Eu gostava muito de ver os peixes. Via carpas comuns, carpas prateadas, carpas crucianas, bagres, cabeças-de-cobra, enguias e também caranguejos, peixes-cobra, amêijoas e coisas do gênero. O maior peixe que vi por ali pesava mais de cinquenta quilos, tinha uma barriga branca parecida com a de uma mulher grávida. O velho vendedor vigiava o peixe apreensivo, como se vigiasse uma divindade. Eu estava bem familiarizado com os vendedores de peixe que viviam de orelha em pé e olhos atentos. Por que viviam assim, de orelha em pé e olhos atentos? Porque os agentes da Secretaria Fiscal da comuna vinham regularmente confiscar seus peixes. Havia também uns funcionários da comuna que se passavam por fiscais para extorquir. Aquele peixe de mais de cinquenta quilos quase foi confiscado por dois sujeitos de uniforme azul, com um cigarro pendurado na boca e uma maleta preta na mão. Se a filha do vendedor não viesse às pressas para botar a boca no mundo e se Qin He não desmascarasse os dois homens, o peixe teria sido levado por eles.
Qin He era aquele mendigo de cabelo repartido, que andava de uniforme escolar de gabardina azul, uma caneta-tinteiro da marca Doutor e uma esferográfica bicolor da marca Nova China enfiadas no bolso, parecia um estudante do Quatro de Maio.* Tinha o rosto pálido, a expressão melancólica, os olhos sempre úmidos, como se pudesse derramar lágrimas a qualquer momento. Era muitíssimo eloquente, falava um mandarim tão perfeito que, quando abria a boca, parecia estar recitando uma peça de teatro — foi por influência dele que comecei a escrever para teatro mais tarde —, ele sempre carregava uma enorme caneca branca, esmaltada, com uma estrela de cinco pontas e a palavra “prêmio” em vermelho. Punha-se diante dos vendedores de peixes e camarões e dizia com toda a emoção: “Camarada, sou alguém que perdeu a capacidade de trabalhar. Talvez se pergunte como pode um jovem como eu ter perdido a capacidade de trabalhar. Camarada, permita-me explicar, o que vê é só minha aparência externa. Na verdade, padeço de um grave problema cardíaco. Meu coração foi perfurado por uma faca. Se eu trabalhar, a cicatriz no coração vai se abrir e vou sangrar até a morte por todos os orifícios do corpo. Camarada, me dê um peixe. Nem me atrevo a querer um peixe grande, basta-me um pequeno, o menor de todos…”. Ele sempre conseguia algum peixe, ou camarões. Depois, ia para a beira da lagoa, limpava o peixe com uma faquinha, procurava um lugar protegido do vento, catava gravetos, apoiava a caneca em cima de dois tijolos erguidos e acendia o fogo para cozinhar… Eu ficava atrás dele, vendo-o cozinhar o peixe, um aroma delicioso exalava de sua caneca e me deixava com água na boca. Eu invejava a vida dele do fundo do coração…
Qin He era irmão do secretário do Partido da comuna, Qin Shan. Tinha sido um aluno brilhante da Escola Secundária Distrital número 1. Devia haver razões complexas para o irmão do secretário do Partido da comuna estar mendigando numa feira. Alguns diziam que ele era um dos admiradores fanáticos da minha tia. Sofreu um impacto emocional muito forte e tentou o suicídio com a pistola do irmão. Depois de se recuperar, ficou daquele jeito. De início, havia quem zombasse dele, mas desde que ajudou o velho a salvar seu peixe grande, os vendedores passaram a vê-lo com outros olhos. Senti que o homem tinha muito carisma. Queria entendê-lo melhor. Simpatizava com ele assim que via seus olhos úmidos. Num fim de tarde, terminada a feira, ele ia para oeste, caminhava sozinho em direção ao sol poente, arrastando atrás de si uma longa sombra. Eu o segui às escondidas. Queria saber qual o segredo dele. Quando descobriu que eu o seguia, ele parou, fez-me uma profunda reverência e disse: “Caro amigo, por favor, não faça isso”. Imitando seu tom, respondi: “Caro amigo, não estou fazendo nada”. “O que eu quero dizer”, explicou ele com ar miserável, “é que não venha atrás de mim.” Eu disse: “Você estava andando, eu também. Não estava seguindo você”. Ele balançou a cabeça e murmurou: “Amigo, por favor, tenha pena deste homem infeliz”. Ele se virou e seguiu adiante. Eu continuei no seu encalço. Ele começou a correr. Levantava as pernas bem alto, em passadas largas e leves. O corpo sacudia como um pedaço de papelão. Gastei apenas metade da minha força para alcançá-lo. Ele parou, ofegante, o rosto tinha a cor de papel dourado, os olhos estavam cheios de lágrimas: “Amigo… por favor me deixe em paz… sou um inválido, sofri um ferimento grave…”.
Fiquei comovido, parei de andar e deixei de segui-lo. Enquanto olhava sua silhueta se afastando, ouvia soluços abafados que saíam de sua garganta. Na verdade, eu não tinha más intenções, só queria saber como vivia, por exemplo, onde dormia à noite?
Naquele tempo, eu tinha pernas finas e compridas e pés grandes. Adolescente, eu já calçava sapatos grandes, número quarenta, motivo de frequentes aborrecimentos para minha mãe. Quem nos dava aula de educação física era o professor Chen, ex-integrante da equipe de atletismo provincial, um verdadeiro mestre dos esportes, direitista. Ele beliscou minhas pernas e meus pés como se fosse um comprador de cavalos, me considerou ótima matéria-prima e decidiu me dar um treinamento intensivo. Ele me ensinou como levantar as pernas e dar as passadas, controlar a respiração e distribuir a força física. Nos jogos esportivos das escolas primárias e secundárias do distrito, consegui o terceiro lugar na corrida de três mil metros do grupo infantojuvenil. Por isso, o fato de eu matar aula para ir passear no mercado de peixes era algo semipúblico.
Depois que tentei segui-lo, Qin He ficou meu amigo. Todas as vezes que nos encontrávamos, ele me cumprimentava acenando com a cabeça. Era dez anos mais velho que eu, mas nossa amizade superava a diferença de idade. Além dele, havia outros dois mendigos na feira, um se chamava Gao Men, de ombros largos e mãos grandes, parecia ter uma força física infinita. O outro, Lu Florzinha, era um homem com icterícia, não sei por que ganhara um nome tão feminino. Um dia, os dois mendigos batiam sem dó em Qin He com um galho de salgueiro e um sapato velho. Em vez de revidar, Qin He se limitava a repetir:
Bons irmãos, se me baterem até morrer, eu agradeço. Mas não comam rãs… As rãs são amigas do homem, não são para comer… As rãs têm parasitas no corpo… Quem come rã vira idiota…”
Vi uma fogueira debaixo do salgueiro, a fumaça azulada subindo em espirais, sobre o fogo, algumas rãs meio assadas. Ao lado da fogueira, peles e ossos de rãs espalhavam um odor nauseante. Então entendi que Qin He estava apanhando por tentar impedi-los de assar rãs para comer. Ao vê-lo nessa situação, meus olhos se encheram de lágrimas. Em épocas de fome, muita gente comia rã. Mas nossa família tinha grande aversão por essa gente. Acredito que os membros do nosso clã prefeririam morrer de inanição a se alimentar desse animal. Nesse ponto, Qin He e eu tínhamos o mesmo ideal. Peguei um galho em brasa da fogueira, cutuquei a bunda de Gao Men e espetei o pescoço de Lu Florzinha. Saí correndo pela margem da lagoa, os dois vieram atrás de mim. Eu mantinha certa distância à frente deles, só para provocá-los. Quando paravam de me perseguir, eu os xingava ou pegava pedaços de tijolos e telhas para jogar neles.
Naquele dia, veio gente de todas as quarenta e oito aldeias da comuna. Chegaram em grupos, uns carregando bandeiras vermelhas, outros batendo tambores, gongos e panelas, uns caminhando pela estrada, outros pelo leito do rio, todos escoltavam os maus elementos de suas respectivas aldeias até a área de contenção de enchentes, onde se reuniriam em assembleia para denunciar Yang Lin, o principal seguidor da via capitalista no distrito, e com ele os maus elementos de cada órgão da comuna, de cada departamento subordinado a ela, de cada aldeia. Fomos pelo leito do rio, pisando no gelo escorregadio. Algumas pessoas calçavam raquetes de neve de fabricação caseira. Chen, o professor de educação física a quem eu devia a descoberta do meu talento, usava na cabeça um alto cone de papel e calçava um par de sandálias de palha bem gastas, sem meias. Ele seguia, com ar despreocupado, o diretor da escola, que também tinha um cone de papel na cabeça, mas andava com expressão pesarosa. Xiao Lábio Inferior, filho de Lábio Superior, ia atrás deles com um dardo na mão. Lábio Superior assumira a diretoria do Comitê Revolucionário da comuna e seu filho, Lábio Inferior, agora era o capitão dos Guardas Vermelhos da nossa escola. O tênis branco, da marca Huili, que ele calçava, foi arrancado dos pés do professor Chen. A pistola de partida que só dava um par de tiros, a menina dos meus olhos, era patrimônio público, mas agora estava pendurada na cintura de Lábio Inferior. De quando em quando ele sacava a pistola, carregava com pólvora, e atirava para cima. Pá! Pá! Saíam dois estampidos junto com uma fumaça branca. Um cheiro bom de salitre e enxofre impregnava o ar.
No início da Revolução, eu também queria fazer parte da Guarda Vermelha, mas Lábio Inferior não me aceitou. Ele disse que eu era a erva daninha cultivada pelo direitista professor Chen, que meu tio-avô era traidor da pátria, falso mártir, e minha tia era espiã do Partido Nacionalista, noiva de um desertor e amante de um seguidor do capitalismo. Para me vingar dele, peguei um cocô de cachorro, embrulhei bem com folhas e escondi na palma da mão. Cheguei na frente dele e disse: “Lábio Inferior, o que aconteceu com sua língua, que ficou preta?”. Sem saber que era uma armadilha, ele escancarou a boca. Enfiei o cocô de cachorro na boca dele, dei meia-volta e saí correndo. Ele não conseguiu me alcançar. Ninguém da nossa escola, com exceção do professor Chen, conseguia me pegar.
Ao vê-lo assim exibido com os sapatos do professor Chen nos pés, o dardo na mão e a pistola na cintura, como um canalha realizado, senti inveja e ódio e decidi dar uma lição. Eu sabia que ele tinha pavor de cobras, mas já era fim de outono e elas somem nessa época. Foi então que achei, embaixo de uma amoreira na beira do rio, um pedaço de corda podre. Enrolei-a e escondi atrás do corpo. Aproximei-me dele sem ser notado, coloquei a corda em volta do seu pescoço e gritei: “Olha a cobra!”.
Xiao Lábio Inferior deu um grito esquisito, largou o dardo no chão e apressou-se em retirar a corda do pescoço. Só voltou a si, aos poucos, depois de perceber que o que tinha diante dos olhos era um pedaço de corda podre.
Ele pegou o dardo do chão e rosnou: “Corre Corre, seu contrarrevolucionário!”.
Apontou o dardo em minha direção: “Vou te matar!”.
Saí correndo.
Ele veio atrás.
Correndo sobre o gelo era difícil aproveitar toda minha técnica. Sentia nas costas um bafo gelado, ameaçador, e temia ser atravessado pelo dardo. Eu sabia que o rapaz tinha afiado bem aquele dardo, sabia também que o cara era frio e traiçoeiro, e, desde que pusera as mãos numa arma branca, andava ainda mais agressivo. Ele não raro espetava árvores sem o menor motivo, transpassava alvos de palha em forma de gente e, pouco tempo antes, havia matado um porco que estava cruzando com uma porca. Olhei para trás enquanto corria e o vi de cabelos eriçados, os dois olhos redondos de tão arregalados. Se ele me alcançasse, minha vidinha muito provavelmente estaria acabada.
Eu corria, corria contornando as pessoas, corria me enfiando no meio das pessoas. Caí, rolei no chão e rastejei, o dardo na mão de Xiao Lábio Inferior quase me acertou. O dardo fincou-se no chão, voaram lascas de gelo. Ele também caiu. Levantei-me e continuei a correr. Ele se levantou e continuou a me perseguir. Eu trombava nas pessoas, mulheres e homens. “Para que tanta pressa, moleque!” “Ah! Socorro! Ele vai me matar.” Trombei com um grupo que marchava tocando gongos e tambores e atrapalhei o ritmo da bateria — o cone de papel que alguns maus elementos usavam na cabeça caiu no chão —, driblei Chen Testa e Ai Lian, pais de Chen Nariz — e Yuan Rosto, pai de Yuan Bochecha, que também tinha virado “seguidor do capitalismo” —, passei disparado por Wang Pé. Vi o rosto da minha mãe, ouvi o grito assustado da minha mãe, vi meu amigo Wang Fígado, ouvi um som abafado atrás de mim, e em seguida o grito de Lábio Inferior — depois fiquei sabendo que Wang Fígado discretamente estendeu uma perna e derrubou Lábio Inferior, que caiu de cara no chão, bateu a boca no gelo e feriu os lábios. Sorte dele não ter quebrado os dentes da frente. Lábio Inferior se levantou e tentou se vingar de Wang Fígado, mas Wang Pé o intimidou dizendo: “Xiao Lábio Inferior, seu imprestável, se se atrever a tocar num dedo de Fígado, eu arranco seus olhos! Na minha família somos peões de lavoura há três gerações”, continuou ele, “outros até podem ter medo de você, mas eu não!”.
O local da assembleia já estava tomado de gente. Sobre a barragem, um tablado imponente fora montado com tábuas e esteiras. Naqueles anos, a comuna contava com uma equipe especializada em montar tablados ou quadros de avisos, tinham técnica apurada e uma habilidade extraordinária. O tablado era decorado com dezenas de bandeiras vermelhas e uma faixa vermelha com letras brancas. Nos dois postes nos cantos do tablado estavam pendurados quatro enormes alto-falantes que tocavam a “Canção das citações” no momento em que chegamos: “A teoria marxista, em sua infinidade de ideias, se resume em uma única frase: é justo rebelar-se! É justo rebelar-se!”.
[...]

Mo Yan, in As rãs

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