16/10/2023

1520 – Teocalhueyacan | “A Noite Triste”

Hernán Cortez passa em revista os poucos sobreviventes de seu exército, enquanto a Malinche costura as bandeiras rotas.
Tenochtitlán ficou para trás. Atrás ficou a coluna de fumaça que jorrou pela boca do vulcão Popocatépetl, como dizendo adeus, e não havia vento que pudesse torcê-la.
Os astecas recuperaram sua cidade. Os tetos se eriçaram de arcos e lanças e a lagoa se cobriu de canoas em luta. Os conquistadores fugiram em debandada perseguidos por uma tempestade de flechas e pedras, enquanto atordoavam a noite os tambores de guerra, os alaridos e as maldições.
Estes feridos, estes mutilados, estes moribundos que Cortez está contando agora se salvaram passando por cima dos cadáveres que serviam de ponte: cruzaram para a outra margem pisando cavalos que tinham escorregado e afundado e soldados mortos a flechadas e pedradas ou afogados pelo peso dos alforjes cheios de ouro que não se resignavam a abandonar.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

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