29/12/2017

Pelo simples prazer de viver

Em nenhuma atividade é bom sinal se, de início, existe o desejo de vencer - emulação, violência, ambição, etc. Deve começar-se por amar a técnica de cada atividade por si própria, como se ama a vida pelo simples prazer de viver.
Nisto consiste a verdadeira vocação e a promessa de êxito sério. Em seguida, poderão vir todas as paixões sociais imagináveis, para reanimar o puro amor da técnica - têm mesmo que vir -, mas começar por elas é indício de que se deseja perder tempo. Em suma, é preciso amar uma atividade, como se mais nada existisse no mundo, por si própria.
É por isso que o momento significativo é o do início: porque, então, é como se o mundo (paixões sociais) não existisse ainda no que diz respeito a essa atividade.
Também porque toda a gente é capaz de se interessar por um trabalho que se sabe quanto rende; o difícil é apaixonarmo-nos gratuitamente.
Cesare Pavese, in O ofício de viver

28/12/2017

Línguas que não sabemos que sabíamos (trecho)

O sociólogo indiano André Béteille escreveu: “Conhecer uma língua nos torna humanos; sentir-mo-nos à vontade em mais que uma língua nos torna civilizados”. Se isto é verdade, os africanos — secularmente apontados como os não-civilizados — poderão estar mais disponíveis para a modernidade do que eles próprios pensam. Grande parte dos africanos domina mais do que uma língua africana e, além disso, falam uma língua europeia. Aquilo que é geralmente tido como problemático pode ser, afinal, uma potencialidade para o futuro. Porque a nossa habilidade de poliglotas nos pode conferir, a nós africanos, um passaporte para algo que hoje se tornou perigosamente raro: a viagem entre identidades diversas e a possibilidade de visitar a intimidade dos outros.
De qualquer modo, um futuro civilizado passa por grandes e radicais mudanças neste mundo que poderia ser mais nosso. Implica acabar com a fome, a guerra, a miséria. Mas implica também estar disponível para lidar com os materiais do sonho. E isso tem a ver com a língua que fez adormecer a mulher doente no início desta minha intervenção. Esse homem futuro deveria ser, sim, uma espécie de nação bilingue. Falando um idioma arrumado, capaz de lidar com o quotidiano visível. Mas dominando também uma outra língua que dê conta daquilo que é da ordem do invisível e do onírico.
O que advogo é um homem plural, munido de um idioma plural. Ao lado de uma língua que nos faça ser mundo, deve coexistir uma outra que nos faça sair do mundo. De um lado, um idioma que nos crie raiz e lugar. Do outro, um idioma que nos faça ser asa e viagem.
Ao lado de uma língua que nos faça ser humanidade, deve existir uma outra que nos eleve à condição de divindade.
Mia Couto, in E se Obama fosse africano?

Não Maltrate um Cabra Assim - Guegué Medeiros e Mestrinho

Altares

Fui sabatinado por quatro jornalistas da Folha e por aqueles que estavam no teatro. Dos ouvintes veio-me uma pergunta: “Você acredita em Deus?”. Como a pergunta era vaga perguntei: “Qual Deus?”. A pessoa não entendeu. Expliquei então: “Há muitos deuses, cada um com a cara e o coração daquele que o tem dentro do peito. O Deus de são Francisco não era o Deus de Torquemada. São Francisco usava o fogo do seu Deus para aquecer a alma. Torquemada usava o fogo do seu Deus para churrasquear hereges em fogueiras que eram a diversão do povo”. Como a pessoa não soubesse me esclarecer o assunto, adiantei-me e confessei. “Não sei se acredito em Deus. Mas sei que sou um construtor de altares”. Construo os meus altares com poesia e música. Os altares têm de ser belos. Eu os construo diante de um abismo profundo, escuro e silencioso. Os fogos que neles acendo iluminam o meu rosto e me aquecem. Mas o abismo continua o mesmo: escuro, frio, silencioso.
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

Do contrário

A única maneira de conservar a saúde é comer o que não se quer, beber o que não se gosta e fazer aquilo que se preferiria não fazer.”
Mark Twain

Baleia

Arte: Aldemir Martins

A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pelo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida. Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de roscas, semelhante a uma cauda de cascavel.
Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.
Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:
Vão bulir com a Baleia?
Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo. Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.
Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinhá Vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia.
Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia. Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia. Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como Sinhá Vitória tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga: — Capeta excomungado.
Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.
Pouco a pouco a cólera diminuiu, e Sinhá Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa de mais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável.
Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinhá Vitória encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros às orelhas. Como isso era impossível, levantou os braços e, sem largar o filho, conseguiu ocultar um pedaço da cabeça.
Fabiano percorreu o alpendre, olhando a baraúna e as porteiras, açulando um cão invisível contra animais invisíveis:
Ecô! ecô!
Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pôs a latir desesperadamente.
Ouvindo o tiro e os latidos, Sinhá Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se. E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.
Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.
Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros.
Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas. Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis.
Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.
Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se.
Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade.
Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinham fugido.
Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.
O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido. Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera.
Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.
Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.
Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde Sinhá Vitória guardava o cachimbo.
Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.
Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto, e a viagem difícil do barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.
Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, Sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha.
A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.
Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.
Graciliano Ramos, in Vidas Secas

O Psicodelismo e o Construtivismo na Arte de Beatriz Milhazes





 

Linguagem fulgurada

Voar com os pés no chão
é um oxímoro
cair e não se arrebentar
é uma metonímia
atirar-se da janela
é uma ironia
bater a porta pra nunca mais
é uma elipse
ser estar ficar parecer permanecer andar
é uma enumeração caótica
soltar os nós sendo nossos
é uma silepse
e é só com figuras
que se faz a língua
a letra só fulgura
quando a imagem assina
vestir formas é a sina
do conteúdo que costura
o embaixo com o em cima.
Leilah Accioly

27/12/2017

Entregando-me às suas ondas

Meu corpo sentia-se à vontade sobre o calor da areia. Tinha os olhos fechados, os braços abertos, as pernas desdobradas para a brisa do mar. E o mar ali em frente, distante, deixando apenas restos de espuma em meus pés, quando a maré subia...”
Agora sim é ela falando, Juan Preciado. Não se esqueça de me dizer o que ela diz.
“… Era cedo. O mar corria e baixava em ondas. Soltava-se da sua espuma e ia embora, limpo, com sua água verde, em ondas caladas.
“— No mar só sei me banhar nua — disse a ele. E ele me seguiu no primeiro dia, nu também, fosforescente ao sair do mar. Não havia gaivotas; só esses pássaros que chamam de ‘bicos feios’, esses tucanos grunhem como se roncassem e que depois que o sol sai desaparecem. Ele me seguiu no primeiro dia e sentiu-se só, apesar de eu estar ali.
“— É como se você fosse um ‘bico feio’, um a mais entre todos — me disse. — Gosto mais de você nas noites, quando estamos os dois no mesmo travesseiro, debaixo dos lençóis, na escuridão.
E se foi.
Eu voltei. Voltaria sempre. O mar molha meus tornozelos e vai embora; molha meus joelhos, minhas coxas; rodeia minha cintura com seu braço suave, dá voltas sobre meus seios; se abraça ao meu pescoço; aperta meus ombros. Então me afundo nele, inteira. E me entrego a ele em seu bater forte, em seu suave possuir, sem deixar pedaço.
“— Gosto de tomar banho no mar — disse a ele.
Mas ele não entende.
E no outro dia estava outra vez no mar, me purificando. Entregando-me às suas ondas.”
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

Ivan Lins | Iluminados/ Vitoriosa/ Meu País/ Madalena

A tradutora belga

O escritor ficou surpreso quando soube que seu livro seria traduzido na Bélgica, e preocupadíssimo quando soube que a tradutora do livro iria procurá-lo. Como, procurá-lo? Ela viria ao Brasil, era isso? Quando? Por quê?
A partir do dia em que se confirmou que a tradutora iria procurá-lo o escritor não falou em outra coisa. Dizia aos amigos que não conseguia dormir, pensando na chegada da belga.
O que essa mulher quer comigo?
E por que vir ao Brasil? Se tinha alguma dúvida sobre o livro, por que não usar o e-mail? Ela usara o e-mail para anunciar que viria. Por que não usar para dizer o que queria?
Aos poucos o escritor foi ficando com raiva. Da tradutora belga, da editora belga, do seu próprio livro. Pra que traduzir aquilo? Era um romancezinho de nada. No Brasil ninguém lera. E ninguém conhecia a tal editora. Por que não o deixavam em paz?
Os amigos argumentavam que era uma boa ser traduzido. Ele passaria a ser conhecido internacionalmente.
Eu não quero ser conhecido!
E que língua se falava na Bélgica, afinal?
Francês, no sul. No norte é uma espécie de holandês.
Aquilo só aumentou a irritação do escritor. Ele não sabia nem em que língua seria traduzido. Francês ou uma espécie de holandês? Os e-mails da tradutora eram em inglês. Ela se referira ao livro como “your marvelous book”. O que seu livro tinha de maravilhoso? Ela não o entendera, era isso. Ela o interpretara erradamente. Vira símbolos onde não havia símbolos. Mensagens cifradas onde não havia nenhuma. E vinha para descobrir o que ele “realmente” queria dizer com seu livro de nada. Era isso. Olhos nos seus olhos.
A belga vinha para olhar dentro da sua alma. E ele não queria ninguém olhando dentro da sua alma.
O escritor pensou em mandar um e-mail dizendo: “Epidemia de malária. Estou de cama, sem poder receber ninguém. Não venha.” Mas desistiu. E resolveu apelar para o seu amigo Romualdo. O Romualdo era dentista e, ao contrário dele, tinha pinta de intelectual. Usava cachecol no inverno e no verão. Fumava cachimbo. Receberia a belga como se fosse o escritor. Desnudaria a sua alma para a belga. E concordaria com todas as suas interpretações.
Romualdo topou. Só pediu que o escritor fizesse um rápido resumo do livro, que ele não lera.
Eu sei — disse o escritor. — Ninguém leu.
Romualdo e a belga encontraram-se durante uma semana. No apartamento dele, onde a belga estranhou a ausência de livros.
Não leio nada — explicou Romualdo, no pouco inglês que o cachimbo deixava passar — para não ser mal influenciado.
Quando voltou para casa a belga mandou um e-mail dizendo que adquirira uma perspectiva completamente nova do livro depois de conversar com o autor, principalmente das alusões dentárias, que ela não pegara na primeira leitura. Até hoje o Romualdo se recusa a contar ao escritor o que disse para a tradutora e o escritor só saberá o resultado da conversa dos dois quando ler a tradução belga.
Se não for numa espécie de holandês, claro.
Luís Fernando Veríssimo, in Diálogos impossíveis

Indulgente

É tão indulgente o homem para consigo mesmo, que nunca julga ter-se aproveitado bastante da liberdade de se portar mal.”
Juvenal

A linguagem da guerra

Ilustração: Gonza Rodriguez

A linguagem da guerra Mediante uma hábil variante tática da estratégia prevista, nossa esquadra se lançou à carga surpreendendo o rival desprevenido. Foi um ataque demolidor. Quando as hostes locais invadiram o território inimigo, nosso aríete abriu uma brecha no flanco mais vulnerável da muralha defensiva e se infiltrou até a zona de perigo. O artilheiro recebeu o projétil, com uma manobra hábil colocou-se em posição de tiro, preparou o arremate e culminou a ofensiva disparando o canhonaço que aniquilou o guardião. Então o guardião vencido, custódio do bastião que parecia inexpugnável, caiu de joelhos com a cara entre as mãos, enquanto o verdugo que o havia fuzilado levantava os braços perante a multidão que o ovacionava.
O inimigo não bateu em retirada, mas seus ataques não conseguiam semear o pânico nas trincheiras locais e se despedaçavam uma e outra vez contra nossa bem encouraçada retaguarda. Seus homens disparavam com pólvora molhada, reduzidos à impotência pela galhardia de nossos gladiadores, que se batiam como leões. E então, desesperados ante a rendição inevitável, os rivais lançaram mão do arsenal da violência, ensanguentando o campo de jogo como se se tratasse de um campo de batalha. Quando dois dos nossos ficaram fora de combate, o público exigiu em vão o castigo máximo, mas impunemente continuaram as atrocidades próprias de um confronto bélico e indignas das regras cavalheirescas do nobre esporte do futebol.
Finalmente, quando o árbitro surdo e cego deu por concluída a contenda, uma merecida vaia despediu a esquadra vencida. E então o povo vitorioso invadiu o reduto e carregou nos braços os onze heróis desta épica vitória, esta façanha, esta epopeia que tanto sangue, suor e lágrimas nos custaram. E nosso capitão, envolto na bandeira pátria que nunca mais será maculada pela derrota, levantou o troféu e beijou a grande taça de prata. Era o beijo da glória!
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra

Jardim fechado

Atrás de grade — os varões sumidos pela roseira-branca da qual os galhos, de lenho, em jeito espesso se torciam e trançavam — começava outro espaço. Dele, a primeira presença dando-se no cheiro, mistura de muitos. De maior lembrança, quando se juntavam: o das rosas-chá; o da flor-do-imperador, de todos o mais grato; o do manacá, que fragra vago a limão; o dos guaimbés, apenas de tardinha saído a evolar-se; e, maravilha, delas só, o das dracenas. Era um grande jardim abandonado. Seu fundo vinha com as árvores. Seu fim, o muro, musgoengo.
Sem gente, virara-se em matagalzinho, sílvula, pequena brenha. À expansa, nos canteiros, surgiam bruscas espécies, viajadas no ar: a daninha formosa, a meiga praga, a rastejante viçosíssima, os capins que entrementes pululam. As próprias nobres plantas, de antes, desdormiam e deslavavam-se, ameaçadas em sua fresca debilidade. Afolham, regredidas, desmedidas, fecham-se em tufos. Do verde-mais-verde ou do verde-negro, adivinham-se obscuras clareiras, recessos onde as borboletas vão-se. Murcha-se muito, lá. Mesmo as rosas demoradas, que em seus ramos mofam ou enferrujam, enroladas às vezes em teias de aranhas. No liso, nas alamedas, empilham-se as folhas ressecas. Há flores prósperas, as que ensaiam voo: o ouro faisão, traje o roxo e azul, a amiga alvura, o vermelho de doer na cor; lambe-as a desenhadora lesma. Há-as poentas de açúcar. Ou as amarelinhas que abrolham à tona do chão, florinhas questiúnculas. Sempre passeiam, ao rés-da-terra ou em relva, uns pequeninos entes: o tatuzinho que se embola, a escolopendra, os mínimos caramujos de casca tão frágil — o caracolzinho quadricórnio. A abelha faz e passa. E — o besouro — pronto. Ver a vespa, aventureira. Sobe, dos entreverdes, uma lenda sem lábios. Tudo fogoso e ruiniforme: do que nas ruínas é repouso, mas sem seu selo de alguma morte. Antes a vida, ávida. A vida — o verde. Verdeja e vive até o ar, que o colibri chamusca. O mais é a mágica tranquilação, mansão de mistério. Estância de doçura e de desordem.
O menino se escondia lá, fugido da escola. Subia a uma árvore: no alto, os pensamentos passavam como o vento. Aprendia a durar quieto, ia ficando sonâmbulo. O jardim — quase um oceano. A verdidão arregalava olhos e aves. As outras árvores no enorme crescer: o inconscienciocioso. Aí, um passarinho principiava. Cantava a cigarra Zizi. As cigarras do meio-dia. A borboleta ia passando manteiga no ar. A borboleta — de upa, upa, flor. E... tililique... um pássaro, vindo dos voos. O passarinho, que perto pousava, levava no bico um fio de cabelo, o de uma menininha, muito loura.
Surpreendeu-se, com um de repente companheiro. O gato. Chegara-se, em sua grossa maciez. Pulara de galho a galho, com o desvencilho de todo peso. O gato, rajado, grande: o mesmo, da casa do Avô. Seguira-o, ou costumava vir, por si? O gato era à parte, legítimo da casa, pegador de ratos, talvez; em horas quietas, subia à pia da cozinha, e sabia abrir ele mesmo a torneira, para beber sua sede de água. Respeitavam-no. Mas ninguém atentava nele, não se importavam com sua grave existência. Agora, parava ali: com o ato de correr os olhos sobre outros olhos. A gente tinha de sabê-lo. Era preciso pôr-lhe um nome qualquer? Chamasse-o de: Rigoletto. Mas o gato resistiu, o nome caiu no chão, não pegado, como um papel.
Com o que, ouviu uma voz, a vozinha de detrás da orelha: — “Psiu! Não lhe dê nome. Sem nome, você poderá sentir, sempre mais, quem ele é...” E o menino se assombrou, aquela só voz rompera a película de sossego. Olhou: viu nada. Tanto o gato, lhe em frente, a cofiar-se, calmo, sem fazer fu, sem espirrar contra o demônio. A voz — vozinha firme e velha — ninguém a tinha falado? O menino desquis de pensar. Aquele jardim tinha recatos. Sim, não ia botar nome, nenhum. Gostava do gato, que, sussurronando — suas pupilas em quarto minguante — olhava-o, exato. Lembrou-se, só então — como podia ter esquecido o ponto? — de que fora ele, o gato, próprio, quem lhe ensinara por primeira vez o caminho e a entrada do jardim. Seguindo o seguir do gato, fora que ele dera com o estado do lugar. O gato era forte amigo. Mas, quisesse, não quisesse, o menino se estava debaixo do pensamento: ali, no jardim, faziam-se espantos. O mexer de um misterioso. Ali, havia alguém! E o menino tinha de se propor agora as lembranças todas juntas, de coisas, de em diversos dias, sem explicação de acontecer.
Primeiro, ele tinha perdido o argolão pequeno, dourado, de que gostava tanto, o que dava para chorar; procurava, não achava, perder o argolão era a desgraça. Mas, aí, quando já estava considerado desistido, avistara: na alameda, um comprido rastro marcado, todo de sementes de magnólia, e ia dando voltas, do jeito de alguém estar querendo ensinar um caminho — feito o pingado de pedrinhas na estória de Joãozinho e Maria. Veio acompanhando aquilo e, no fim, deu com o argolão, ao pé das bocas-de-lobo. Depois, a vez em que ia pondo mão em galho, quando, em cima de lá, se pulou um clarãozinho, alumiado com estalo, de aviso, feito o se acender de um isqueiro. Foi, cauteloso, então, espiou: justo ali rojava uma tatarana, a ruiva lagarta, horripilífera, que sapeca feito fogo, só de nela ao de leve se tocar. Depois, dia outro, se admirara, de ver: os bichinhos todos para um canto revoarem — borboletas, besouros, marimbondos, moscardões, libélulas — que em roda se ajuntavam, em ar, em folhagens ou no chão: pareciam obedecendo, reunidos, ao ensino de algum chamamento. Agora, a voz, que aconselhava.
O menino espaireceu o medo. Saía para tirar o segredo. Ia remexer o jardim todo. Veio-se andando, revistando. O grande gato o acompanhava. Sete vezes. Nada achado! Nem em tronco e nem em fronde, nem na sombra sibilando, em moita nem desmoitado. Mesmo nem em cova de grilo, buraco de escaravelho. Não havia o quem que fosse, mas havia o por se achar. O jardim se encapuzava. Os bichinhos distraídos e as flores em o pendurar-se. A rosa intrêmula, doidivana a dália, em má-arte a aranha, o quente cravo; borboletas muito a amarem-se; bobazinhas violetas, os lírios desnatados. Ninguém soubesse de nada. Só a soledade. O menino se deitou com a cabeça. Quieto, também, o gato. Um para o outro olhavam. Oscilavam os amores-perfeitos, com seus bonequinhos pintados. O menino, já de novo, se ensimesmitava. O gato, às suas barbas. E, nisso, o menino, pasmo: via o quê, no olho do gato. Um homem! — seu retrato, pupilado. O menino se voltou: nada de nada. Então, porém, um bem-te-vi cantou, ípsis-vérbis. E havia o homem, num ramo de jasmim-do-cabo... Do tamanhinho de um dedo, o homenzinho de nada. O assombro. O menino se arregalava. Era um Pequeno-Mindinho? Tinha barba. Tinha roupa? Vestido à mágica. No meio do estupefazer, todinho ele se alumiava.
— “Tulipas! Este pássaro delator...” — curvando-se, petulou, saudava. O gato, nem passo. O menino disse: — “Como você chama?” — gago. — “Te disse: não me dê nome...” — retrucou o fantasmago. — “Ou, então, dê-me os muitos nomes: Mirlygus, Mestrim, Mistryl, Mirilygus. Sou o teu amigo.” O menino estendeu a mão. — “Não me toque, cidadão, que há que eu sou do outro lado...” — avisou o ente duende. E: — “Tulipas!” — de novo exclamou. — “O senhor é daqui?” — o menino fez pergunta. — “Não há lugares: há um só, eu venho de toda a parte. Venho das ab-origens. Você também...” — e parecia com um alto-falante, pois tão claro vozeava. O gato agora com todo o rosto mirava, se acentuando seu leonino.
O menino sacudiu a cabeça, em alguma muita coisa ele nem acreditava. — “Que é que o senhor faz?” — Ele mesmo assim quis saber. Mirilygus, fulgifronte, sorriu em centro de sua luz: — “Eu vivo de poesia.” O menino também sorriu. — Isto é: “de sabedoria...” — o tico de homem completou; só siso. — “O senhor é velho?” — quis mais saber o menino. — “Sou. Também você. Agora, você já é, o que vai ser no número de anos. Não há tempo, nenhum: só o futuro, perfeitíssimo...” ele disse, Mestrim, tão enxuto. Então o menino se encorajou: — “Meu senhor homúnculo... — falou (claro que com outras palavras) — ... este jardim é o meu?” E o figurim respondeu: — “Não. O seu virá, quando amar.” E o menino: — “Hem? Eu?” E o outro: — “Há flor sem amor?”
Daí, longo, disse e falou:
— “São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu — constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim de Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer de Fada... Um dia, você terá saudades, dos dentinhos, que nunca viu, que ela jogou no telhado. Vocês, então, saberão... Agora, me desapareço. Tanto já fui avistado! Nenhuma mal-me-querença? Mas, de outra vez, parlamenta-se. O resto, em dia mais bonito, contarei, depois e depois...”
Já aí se evanescia, aéreo como o roxo das glicínias, o mindinho Mirilygus.
O menino suspirou, viu-se triste, no após-paz. O gato deu um miado ao nada. Juntos, voltavam para casa.
Guimarães Rosa, in Ave, palavra

26/12/2017

Política perversa

A política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano.”
Voltaire

A minha ausência de ti

Foi tal e qual o inverno a minha ausência
de ti, prazer dum ano fugitivo:
dias noturnos, gelos, inclemência;
que nudez de dezembro o frio vivo.
E esse tempo de exílio era o do verão;
era a excessiva gravidez do outono
com a volúpia de maio em cada grão:
um seio viúvo, sem senhor nem dono.
Essa posteridade em seu esplendor
uma esperança de órfãos me parecia:
contigo ausente, o verão teu servidor
emudeceu as aves todo o dia.
Ou tanto as deprimiu, que a folha arfava
e no temor do inverno desmaiava.
William Shakespeare, Tradução de Carlos de Oliveira

Cabidela - Seu Pereira e Coletivo 401

O socorro

Ele foi cavando, foi cavando, cavando, pois sua profissão - coveiro - era cavar. Mas, de repente, na distração do ofício que amava, percebeu que cavara de mais. Tentou sair da cova e não conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que, sozinho, não conseguiria sair. Gritou. Ninguém atendeu. Gritou mais forte. Ninguém veio. Enlouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado. A noite chegou, subiu, fez-se o silêncio das horas tardas. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, não se ouvia mais um som humano, embora o cemitério estivesse cheio dos pipilos e coaxares naturais dos matos.
Só pouco depois da meia-noite é que lá vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabeça ébria apareceu lá em cima, perguntou o que havia: “O que é que há?”
O coveiro então gritou, desesperado: “Tire-me daqui, por favor. Estou com um frio terrível!”.
Mas coitado!” - condoeu-se o bêbado. - “Tem toda razão de estar com frio.
Alguém tirou a terra toda de cima de você, meu pobre mortinho!”. E, pegando a pá, encheu-a de terra e pôs-se a cobri-lo cuidadosamente.
Moral: Nos momentos graves é preciso verificar muito bem para quem se apela
Millôr Fernandes, in Fábulas fabulosas

Intérpretes

Mas, afinal, para que interpretar um poema? Um poema já é uma interpretação.
Mário Quintana

21/09/91 21:27

Fui à estreia de um filme ontem à noite. Tapete vermelho. Lâmpadas de flash. Festa depois. Duas festas depois. Pouco ouvi do que foi dito. Gente demais. Quente demais. Na primeira festa, fui encurralado no bar por um cara jovem com olhos muito redondos que nunca piscavam. Não sei o que ele tinha tomado. Ou não tinha tomado. Muitas pessoas estavam assim por ali. O cara estava com três garotas bem bonitas e ele ficava me falando o tempo todo como elas gostavam de chupar pau. As garotas apenas sorriam e diziam: “É sim!”. E toda a conversa continuou desse jeito. Sem parar. Eu tentava adivinhar se era verdade ou se estavam me enganando. Mas depois de um tempo me cansei daquilo. Mas o cara continuava me pressionando, falando de como as garotas gostavam de chupar pau. Seu rosto ia ficando cada vez mais perto e ele continuava falando. Finalmente, estendi o braço, agarrei-o pela camisa, com força, e o segurei assim e disse: “Escute, não ficaria bem um cara de 71 anos tirar o seu couro na frente de toda essa gente, ficaria?”. Daí, eu o larguei. Foi para outro lado do bar, seguido por suas garotas. Não consegui entender nada.

Ilustração: Robert Crumb 

Acho que estou acostumado a me sentar num quartinho e fazer com que as palavras tenha algum sentido. Já vejo o suficiente da humanidade nos hipódromos, nos supermercados, nos postos de gasolina, nas estradas, nos cafés etc. Não se pode evitar. Mas tenho vontade de me dar um chute na bunda quando vou a festas, mesmo que a bebida seja de graça. Nunca funciona comigo. Já tenho argila suficiente para brincar. As pessoas me esvaziam. Preciso sair para me reabastecer. Sou o que é melhor para mim, sentado aqui atirado, fumando um baseadinho e vendo as palavras brilharem na tela. Raramente encontro uma pessoa rara ou interessante. É mais que perturbador, é um choque constante. Está me tornando um maldito mal-humorado. Qualquer um pode ser um maldito mal-humorado, e a maioria é. Socorro!
Só preciso de uma boa noite de sono. Mas antes, nunca uma maldita coisa para ler. Depois que você lê uma certa quantidade de literatura decente, simplesmente não há mais nada. Nós mesmos temos que escrever. Não há entusiasmo. Mas espero acordar de manhã. E na manhã em que eu não acordar, tudo bem. Não precisarei mais de persianas, lâminas de barbear, programas dos páreos ou secretárias eletrônicas. De qualquer forma, o telefone é, em geral, para minha mulher. Os Sinos Não Dobram por Mim.
Dormir, dormir. Durmo de barriga para baixo. Velho hábito. Vivi com mulheres loucas demais. Tinha que proteger as partes privadas. Pena que o cara da festa não me enfrentou. Estava a fim de chutar um traseiro. Teria me alegrado imensamente. Boa noite.
Charles Bukowski, in O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio