24/02/2012
Angkor Wat: a cidade templo
Em
meio à floresta do Camboja o Império Khmer construiu na antiga capital Angkor
sua mais preciosa joia: Angkor Wat. Abandonado e desconhecido, o templo de
Angkor Wat permaneceu habitado durante séculos apenas pelos monges budistas e
alguns aldeões que nada sabiam contar de sua história para os ocidentais que
ali chegaram no século XIX. Hoje é um dos destinos mais visitados no mundo.
Angkor
Wat – ou "cidade templo", em sânscrito - é maior que qualquer catedral
medieval e protegida por um fosso. O templo ergue-se nas regiões alagadiças no
centro do Camboja. Sua altura é duas vezes maior que a da Torre de Londres,
representando um dos maiores projetos de engenharia da história - não apenas
pelo tamanho, mas por ter sido construído sobre água. Angkor Wat flutua sobre
um pântano sustentado por diversas galerias subterrâneas. O local foi
construído ao longo de 35 anos (muitas catedrais europeias levaram mais de 200
anos e são frequentes vezes menores que Angkor Wat).
Angkor
Wat – ou "cidade templo", em sânscrito - é maior que qualquer
catedral medieval e protegida por um fosso. O templo ergue-se nas regiões
alagadiças no centro do Camboja. Sua altura é duas vezes maior que a da Torre
de Londres, representando um dos maiores projetos de engenharia da história -
não apenas pelo tamanho, mas por ter sido construído sobre água. Angkor Wat
flutua sobre um pântano sustentado por diversas galerias subterrâneas. O local
foi construído ao longo de 35 anos (muitas catedrais europeias levaram mais de
200 anos e são frequentes vezes menores que Angkor Wat).
Sua
primeira decisão foi a escolha de Vishu como padroeiro - deus hindu, sempre
escolhido pelos reis em tempos de guerra. E em sua homenagem começou-se a
erguer Angkor Wat. O material escolhido não foi a madeira – comum nas
construções do povo Khmer – pois esta, assim como os homens, tem um fim. Para a
tarefa trouxeram cerca de cinco mil operários de todos os lugares dos reinos,
que buscaram pedras e matérias das regiões mais longínquas, revestiram o
pântano e construíram um complexo sistema de engenharia para o templo não
afundar.
Além
do povo, o rei requisitou arquitetos, filósofos, poetas e profetas neste
projeto, para que sua alma fosse direto para o paraíso com a construção do
templo. Sua escala é divina, reproduzindo na terra o mundo dos deuses em ricos
detalhes. A concepção do templo é baseada no Monte Meru, a morada dos deuses,
que estaria localizada em um dos cinco montes ao norte do Himalaia. Por isso,
no centro fica a torre principal, rodeada por cinco torres – com formato de
flor de lótus - que se elevam a 65 metros dos pântanos.
A construção é
toda em laterita – um tipo de solo que, quando seco, se torna uma rocha
resistente. Esta rocha não é muito bela e está cheia de buracos, o que
impossibilitava o trabalho dos escultores para realização dos baixos-relevos e
outros entalhes. A solução veio da vizinha Índia, que utilizava o arenito nas
esculturas de suas construções. Assim, blocos gigantes de quatro toneladas
foram transportados pelos canais.
Esses baixos-relevos ocupam toda a superfície do
templo, seja em forma de adornos arquitetônicos, geométricos, florais, figuras
femininas - presença onipresente - ou simplesmente imitando telhas, portas e
janelas. Cenas do livro Mahabharata, Ramayana, Bhagavata-Purana – textos
clássicos da literatura hindu - assim como um desfile do rei Suryavarman II com
as suas tropas são retratados nessas obras.
Quinhentos acres de floresta tropical foram destruídos para a
construção do templo. Uma tarefa árdua, dificultada pela falta de ferramentas
adequadas, longe das fontes de pedras, com o tormento de insetos e animais, um
calor escaldante e as monções. O local era o mais complexo possível (uma
planície alagada), mas simbolicamente o mais perfeito, pois era o centro do
império.
A
construção foi pensada primeiramente como túmulo do imperador, mas após sua
morte os trabalhos foram interrompidos e o local tornou-se o centro político e
religioso do império, abrigando o templo principal e o palácio real. Seu
sucessor, Jayavarman VIII, que antes era monge budista, mandou remodelar o
templo para adaptá-lo ao seu culto. Mas nesse período o Império Khmer já
entrara em declínio.
Mesmo após a decadência do império, os monges e
alguns habitantes permaneceram no templo. Hoje, os esforços para restaurá-lo -
já foi vitima de saques do Khmer Vermelho na década de 1970 e de contrabandos –
envolvem pessoas de todo o mundo. Sua representatividade é tamanha que sua
silhueta aparece na bandeira do Camboja, tornando-se símbolo do país e seu principal
ponto turístico. Seja pela história ou magnitude, Angkor Wat é o maior entre
todos os templos.
Fonte: obviousmag.org
A Inveja não tem passado
“Ainda
não tendes advertido, que a inveja faz grande diferença dos mortos aos vivos, e
dos presentes aos passados? Os olhos da inveja são como os do Sacerdote Heli,
dos quais diz o Texto sagrado, que não podiam ver a luz do Templo, senão depois
que se apagava: Oculi ejus
caligaverant, nec poterat videre lucernam Dei, antequam extingueretur.
Enquanto as luzes são vivas, cada reflexo delas é um raio, que cega os olhos da
inveja: porém depois que elas se apagaram, e muito mais se se metem largos anos
em meio, então abre a inveja, como ave noturna, os olhos; então vê o que não
podia ver: então venera e celebra essas mesmas luzes, e levanta sobre as
Estrelas seus resplendores. Por isso disse com grande juízo S. Zeno Veronense,
que todo o invejoso é inimigo dos presentes, e amigo dos passados: In omnibus se inimicum praesentium servat,
amicum vero pereuntium. Os mesmos que agora amam, e veneram tanto a Santo
Antônio, se viveram em seu tempo, o haviam de aborrecer e perseguir; e as
mesmas maravilhas, que tanto celebram e encarecem, se foram obradas na sua
Pátria, as haviam de escurecer e aniquilar”.
Padre
Antônio Vieira, in Sermões
Amou daquela vez como se fosse a última*
Combinaram
assim: falar-se-iam diariamente, por volta das seis da tarde, a fim de conferir
(ele, o filho), checar, assegurar que ele estivesse vivo e passando bem (ele, o
pai). Fizeram o acordo sem disfarçarem o profundo embaraço, com os olhos
liquefeitos em lágrimas e o coração pelejando em ritmo desembestado.
Abraçaram-se
besta e dramaticamente, como se fosse pela última vez. O pai concedeu a benção
ao filho e tocou para a chácara onde residia, nos arredores da cidade. “Esta
gleba aqui a Prefeitura não vai lotear nem a pau!”, gaba-se, redondamente
enganado a respeito do apetite avassalador da especulação imobiliária que
domina as metrópoles e os seus dirigentes.
Há
cinco anos, o velho enviuvara. No começo, o choque da separação compulsória
remeteu-o a pensamentos destrutivos, anti-crísticos, conforme ele mesmo dizia
numa linguagem empolada. De tal forma que não firmou o propósito de se
autoaniquilar. Perdeu a mulher, alguns quilos, mas não perdeu a fé.
Homem
vivido e experimentado nas ene tragédias desta e de outras vidas (ele cria
piamente em antibióticos e reencarnações), sabia que o tempo cicatrizava quase
todo tipo de ferida. Então esperou. Enquanto isso, mergulhava nos livros,
devorava-os como se fossem os comprimidos de vitaminas e de rivotril. O que era
pior naquela idade: osteoporose, insônia ou uma saúde de ferro?
Apesar
de acorrentado à oitava década de vida, gozava de razoável saúde. Animava-se
com a suposição que, ao tomar um cálice de vinho tinto ao dia, estaria
protegendo as veias e as artérias da ação maléfica do tempo, do colesterol, do
estresse e das tristezas acumuladas. Então secava uma taça de vinho chileno
antes do almoço, religiosamente. Se Jesus transformara água em vinho é porque
havia mesmo certo poder medicinal naquele líquido inebriante. Um santo remédio,
não restava dúvida: além de desentupir as veias, entorpecia o dia.
Ultimamente,
por causa das incursões nos temas esotéricos, andava melancólico, flutuando
entre as aflições do presente e as lembranças da mocidade. Não podia mais
negar: tinha medo da morte, sim. Afinal, ali estava ela, pisando em seus
calcanhares, implacável, bafejando um hálito indesejável na sua nuca.
Tinha
uma saudade doída da mulher, uma dor que até parecia palpável nalgum lugar do
abdômen. Vivos restavam poucos companheiros. Quase todos com a saúde no guimba,
em “péssimo estado de conservação”, como ele mesmo costumava brincar.
No
íntimo, torcia muito para morrer subitamente. Se pudesse escolher, preferia
morrer dormindo, sem asfixia, é claro. Morrer rapidinho, como se fora uma manga
podre caindo do pé. Uma bala perdida cravada no peito não seria de todo ruim. E
havia tantas delas, ultimamente. Precisava se encontrar.
Todas
as doutrinas lidas, relidas e esmiuçadas no decorrer de tantos anos,
miseravelmente, não lhe davam suficiente guarida para suportar o epílogo. Temia
a morte, como temia uma cólica de rins. Como seria possível a um ser humano
produzir pedras dentro do próprio corpo? Eram dúvidas concretas de se amolecer
qualquer sujeito.
Uma
vez que morava sozinho no casebre, a possibilidade iminente de ser encontrado
sem vida, já em avançado estado de decomposição, vinha arruinando as suas
noites de sono desde que a mulher desencarnara (ele jamais desencanava destes
dilemas da carne e da alma). Procurou então o filho único para externar o
pavor, para dividir o drama e selarem um pacto que pusesse fim àquela agonia.
Que
se falassem todos os dias, às seis. Que o rapaz tivesse paciência com ele e
procurasse compreender a sua situação (afinal, um dia ficaria velho também e
coisa e tal). Que verificasse pessoalmente estaria ele vivo ou não (ele, o
pai). Nem precisava gastar tempo ou gasolina. Bastava discar o telefone.
Requisitou a máxima atenção do filho. Olhou no miolo dos seus olhos, como se
quisesse entrar dentro deles: “Estamos combinados?!”, implorou, e o seu estado
era mesmo de fazer dó.
Ainda
que desejasse chorar, o moço sorriu. Embora se sentisse meio arrasado com a
fraqueza do pai (e dele próprio), buscou consolar. “Você viu? O Governo
concedeu um abono aos aposentados...”, comentou qualquer assunto, tentando
desfazer o rumo da prosa, esforçando-se para dizer algo agradável que os
resgatasse daquele nevoeiro de sentimentos.
O
rapaz tentou fazer graça da situação, mas o pai não riu. Na verdade, ele
percebeu que as proeminentes rugas na fronte do velhote pulavam freneticamente,
como se fossem um frango com o pescoço quebrado saltitando no terreiro,
suplicando por um “sim”.
Sim.
Tudo bem. Garantiu ao velho pai que telefonaria todos os dias, às seis. “Pode
ligar a cobrar...”, recomendou o ancião, utilizando um atrativo dos mais
mixurucas, uma recompensa bisonha, como se oferecesse uma guloseima a uma
criancinha. Parecia mesmo uma criatura pra lá de descontrolada.
O
velhote recostou na poltrona e expirou demoradamente, retirando o peso do mundo
das suas costas. Relaxou, enfim. Nutria uma admiração profunda e verdadeira
pelo filho. Teve vontade de confessar que o amava, mas este era um daqueles
verbos complicados que não conseguia conjugar nem fodendo.
Conforme
o pacto, falaram-se diariamente durante algumas semanas. Até que um dia, o
telefone tocou, e nem ao menos eram seis da tarde. Do outro lado da linha, uma
moça de voz delicada quis saber se ele era o senhor fulano de tal, pai do
beltrano de tal, que tinha embarcado no voo de ontem à noite para Pasárgada. Ela
e a empresa aérea lamentavam profundamente (“Por favor, o senhor procure ficar
tranquilo...”), mas havia fortíssimos indícios que a aeronave desaparecera
nalgum ponto indeterminado sobre o Oceano Pacífico. As buscas já haviam
começado. Ele buscou, mas não encontrou o chão.
Eberth Vêncio, in www.revistabula.com
*Verso de Construção, de Chico Buarque
23/02/2012
O encontro entre Sertão e cidade
Este poderia ter sido o título do
desfile da Unidos da Tijuca. O sertão de Luiz Gonzaga, com sua sanfona e sua
Asa Branca, e a cidade do samba com suas luzes e suas curvas.
Anotei duas considerações sobre o desfile deste ano:
1. A presença cultural do Nordeste. Seis escolas o apresentaram.
Desde o cordel ao Maranhão. Passando por Gonzaga. Não é trivial. Nem é por
acaso. Porque o Nordeste é invenção. É sonho. O Nordeste é o Brasil de dentro
pra fora. Saindo das entranhas sertanejas. Enquanto o Sudeste é o Brasil de
fora pra dentro. Vindo da migração de japoneses, alemães, espanhóis,
portugueses, italianos.
O Nordeste é cravo e canela de Jorge Amado. É a angústia alagoana de
Graciliano. É o cultivo folclórico de Cascudo. É o romantismo de Alencar. É a
força mineral de Cabral. É a delicadeza urbana de Bandeira.
2. Há um processo de continuada renovação na organização da arte nas
escolas. Que não é fácil de obter. Porque se trata de mais de uma dezena de
escolas que anualmente desfilam. Apesar desse número e frequência, ano a ano a
inovação surge no talento dos carnavalescos. Penso que existem dois movimentos
fluviais na sua criatividade: o primeiro, veio com Joãozinho Trinta. Sua
característica principal era a visão social. Apoiada na argila da pobreza e na
energia da fé. O segundo movimento vem com Paulo Barros. Seu traço mais
aparente é a transformação do real no imaginário popular. E do imaginário
popular no colorido da realidade. Ele alça o presente às nuvens do eterno.
O Brasil risonho e musical, mais uma vez, deu seu recado. Que o Brasil
sisudo aprenda com ele.
Luiz Otávio Cavalcanti, in Besta Fubana
A Lua Vem da Ásia (18º capítulo)
Chuva, chuva, chuva.
É a primeira chuva a
que assisto da minha janela de hóspede - neste verão que bem pode ser a
primavera, pois não tenho noção do tempo nem disponho de bússola para me guiar
entre as horas do dia e da noite. Ontem o deputado que se senta ao meu lado na
mesa garantiu-me que estávamos em agosto, e até fez o sinal da cruz sobre o
peito para demonstrar que não estava mentindo; mas eu tenho minhas dúvidas a
respeito e continuo acreditando que não estamos sequer em janeiro ou em março,
pois o rio que ouço a distância continua a caminhar para a direita e só com a chegada
da primavera é que ele se volta para a esquerda e se torna realmente belo.
Presumo que aqui me
encontro aproximadamente há uns vinte anos, ou uns cinco pelo menos, pois já me habituei com a
cama, as cadeiras e a mesinha de cabeceira, e não sou de me habituar muito
depressa com as coisas. Eu poderia, bem sei, perguntar ao criado ou à criada
que me servem todos os dias, ou mesmo ao próprio gerente do hotel, ou ainda à
sua jovem esposa tão louçã e já tão vesga, o tempo exato em que aqui me
encontro e o mês e o ano em que porventura estamos vivendo nesta fria noite de
chuva; mas tenho receio de que eles me tomem por um maníaco que está sempre a
querer saber as coisas, eu que tenho fama de tão discreto e de tão educado, e
prefiro morrer sem saber o dia da minha morte a ter que causar-lhes tamanha
decepção.
De resto, a noite não
é tão triste assim, e eu bem posso, querendo, sentar-me à beira da cama,
colocar as duas mãos na fronte como o faria qualquer sujeito de bom senso, e distrair-me assim com o
espetáculo da parede sempre branca e sempre imóvel, a dois palmos do meu nariz.
Livros eu não tenho para ler no momento, nem eles dão coisa que preste e que me
faça mais sábio do que sou, pelas amostras que já tive nestes últimos tempos (A
Bíblia que me deram a ler era exatamente igual a todas as Bíblias que eu já conhecia
antes de vir para cá, e o romance policial que de certa feita me emprestou a
empregada trazia uma história ingênua e fácil de ser desvendada, como pude
verificar logo pelas últimas páginas.) Violão também não tenho, nem piano, nem
saxofone, de maneira que a chuva ainda é a melhor coisa que me poderia
acontecer nesta noite sem mês e sem ano, já que as paredes brancas e iguais já
não me oferecem segredo nenhum, à força de eu me postar diante delas como
diante de um espelho. Exatamente: a noite foi feita
para os galos dormirem e os insones roerem a sua insônia. Roerem - não
disse bem?
Assombra-me (sempre
me assombrou) ver a facilidade com que certas criaturas se recostam num
travesseiro e caem logo num sono profundo, como se se houvessem suicidado
inteiramente, sem problema nenhum a resolver no dia seguinte. Parecem bonecos
de corda a que de repente faltasse a corda, e a sua consciência é também uma
simples questão de corda a mais ou a menos, como o é também a sua voz, em tudo
igual à de um boneco que fala mamãe. Em mim, o superlúcido, o sono foi sempre
uma conquista muito difícil, e sua escalada através dos anos sempre me pareceu
mais penosa e meritória do que a do Himalaia ou mesmo a do monte Everest.
Agora a chuva baila
em torno da minha cabeça, e no hotel todos dormem ou fingem que dormem pelo
menos, num silêncio que marca com exatidão o barulho da chuva sobre o telhado.
Seu eu gritasse é possível que a chuva continuasse caindo, mas o silêncio pelo
menos deixaria de existir dentro do meu quarto e dentro dos quartos vizinhos, e
a chuva já não teria a marcá-la o compasso unânime do sono de todos os imbecis
da terra. Vou gritar, espera!... - Não, é melhor eu deixar para gritar amanhã,
ou num domingo, que é dia de júbilo universal e é quando todos gritam sem motivo
ou pelos motivos mais tolos. Agora vou pentear o cabelo com a água da chuva, olhar
um pouco mais o céu indevassável através das grades da janela (por causa dos ladrões)
e depois recolher-me ao leito, como uma criança de dois anos. Nos meus bons
tempos esta era a hora exatamente de eu sair à rua, de guarda-chuva aberto e a alma
escancarada, até que encontrasse um bar simpático que me acolhesse e ao guarda-chuva
e nos deixasse ficar a sós até alta madrugada. (Neste hotel, não sei por que, o
regime é mais severo do que nos outros, e o hóspede não tem direito de pôr o pé
na rua sem falar com o gerente ou com o subgerente, que geralmente lhe negam autorização.
Coisas da nova democracia, parece-me.)
Outra coisa que a
chuva me faz lembrar sempre são os mortos. Tive um amigo que de certa feita
escreveu esta frase lapidar: A chuva dá de beber aos mortos, e talvez
por isso eu não possa sentir a chuva sem sentir a presença dos mortos ao meu lado, e até mesmo dentro de mim. Por
outro lado, não é verdade que os mortos hão de sentir-se apavorados dentro da
terra encharcada e gotejante, sobretudo os mortos recentes e que ainda não
estão acostumados com a sua solidão? Eu, depois de morto, tanto se me dá que
chova ou que deixe de chover, mas aquela frase do meu amigo não deixa de ser
bela e profundamente inspiradora. Não acredito que a sede seja o que mais
importune os mortos no seu silêncio, mas a poesia é sempre necessária e é bom
que os poetas estejam lembrando-se dos mortos nos dias de chuva, como uma mãe
dos seus filhos.
Agora que já olhei a
chuva mais uma vez, e que o silêncio persiste dentro deste hotel mal-assombrado
(mudar-me-ei amanhã) - o que me resta a fazer é não fazer nada, como sempre, e
esperar que as horas escoem lentamente e que o meu corpo durma antes de mim, ao
peso do cansaço e da mais absoluta monotonia. Deitar-me-ei como um faquir sobre
os espinhos do meu leito - bela imagem, sem dúvida – apagarei a luz, rezarei um
padre-nosso (eu que não creio em Deus nem creio que ele possa crer em mim) e
fingirei de morto por algum tempo, só respirando e deixando que me bata o coração,
por via das dúvidas. No escuro a noite é completamente escura, como o podem
atestar todos os insones da terra, e o jeito que resta é a gente esperar que, mesmo
com chuva, a alvorada volte a raiar no vidro da janela, e com ela de novo as
esperanças e as ideias felizes, que são sempre as mesmas sempre, apesar de
todas as decepções ou talvez por isso mesmo.
O jornal é o fole incansável que assopra a vaidade humana
“Pelo
jornal, e pela reportagem que será a sua função e a sua força, tu
desenvolverás, no teu tempo e na tua terra, todos os males da Vaidade! (...)
Como a reportagem hoje se exerce, menos sobre os que influem nos negócios do
Mundo, ou nas direções do pensamento, do que, como diz a Bíblia, sobre toda a sorte e condições de gente vã, desde os
jóqueis até aos assassinos, a sua indiscriminada publicidade concorre pouco
para a documentação da história, e muito, prodigiosamente, escandalosamente,
para a propagação das vaidades! O jornal é com efeito o fole incansável que
assopra a vaidade humana, lhe irrita e lhe espalha a chama. De todos os tempos
é ela, a vaidade do homem!
Já sobre ela gemeu o gemebundo Salomão, e por ela se perdeu Alcibíades, talvez
o maior dos Gregos. Incontestavelmente, porém, meu Bento, nunca a vaidade foi,
como no nosso danado século XIX, o motor ofegante do pensamento e da conduta.
Nestes estados de civilização, ruidosos e ocos, tudo deriva da vaidade, tudo
tende à vaidade. E a forma nova da vaidade para o civilizado consiste em ter o
seu rico nome impresso no jornal, a sua rica pessoa comentada no jornal! Vir no
jornal! Eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema! Nos regimes
aristocráticos o esforço era obter, senão já o favor, ao menos o sorriso do
Príncipe. Nas nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em
sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas,
os homens praticam todas as ações—mesmo as boas”.
Eça de
Queirós, in A Correspondência
de Fradique Mendes
22/02/2012
Mossoró, Pau dos Ferros, Caicó, Teresina, é quente? as 5 cidades mais quentes do mundo
5.
Timbuktu, Mali — 54,5°C
Timbuktu,
conhecida por ser a cidade localizada no meio do nada, é também um lugar muito
quente. Ela fica no extremo sul do deserto do Saara, alguns quilômetros ao
norte do rio Níger. Com uma alta registrada de 54,5 graus Celsius, Timbuktu é a
5ª cidade mais quente do mundo.
4. Kebili, Tunísia — 55°C
Embora
seja muito quente, Kebili é realmente um oásis no deserto. A população enfrenta
ondas de calor com temperaturas superiores a 55 graus Celsius. Os habitantes
estocam água e se esforçam para manter uma temperatura corporal relativamente
constante.
3. Ghadames, Líbia — 55°C
Ghadames
é outro oásis no meio de um deserto. A população de cerca de 7.000 habitantes
vive em casas feitas com paredes grossas de lama, cal, e troncos de árvores que
ajudam a protegê-los do calor demasiado, especialmente no verão. Os telhados
das casas são interligados, e muitas das ruas são cobertas, permitindo uma
sombrinha, privacidade e segurança.
2. Death Valle (Vale da morte), Estados
Unidos — 56,6°C
Death
Valley é o vale mais seco e mais baixo dos Estados Unidos, condições que
favorecem a obtenção do calor extremo. Em 10 de julho de 1913, os termômetros
registraram 56,6 graus Celsius, a temperatura mais alta já medida nos Estados
Unidos. Durante aquela semana, cinco dias seguidos marcaram 53 graus Celsius ou
mais.
1. El Aziza, Líbia — 58°C
A
temperatura mais quente já registrada na Terra foi em El Azizia, na Líbia, onde
um calor de 58 graus Celsius entrou para os livros de história em 13 de
setembro de 1922. Dois dias de ventos quentes precederam o recorde.
Fonte: br.omg.yahoo.com
Há muitas religiões, mas o Espírito é único
- Que
religião é a tua? - perguntou um homem de certa idade, que estava num extremo
da balsa, junto do seu carro.
- Não
tenho nenhuma religião. Porque não creio em ninguém mais do que em mim mesmo -
replicou o velho com ar resoluto.
- Como
pode uma pessoa crer em si mesma? Pode enganar-se - objetou Nekliudov,
intervindo na conversa.
-
Nunca! - exclamou o velho abanando a cabeça.
-
Porque há então diferentes religiões ?- interrogou Nekliudov.
Porque as pessoas creem precisamente nessas
religiões e não creem em si mesmas. Também eu acreditei nos outros e perdi-me
como numa floresta. Estava tão confuso que julguei não poder mais encontrar o
caminho. Conheci múltiplas religiões diferentes. Todas se louvam a si mesmas.
Todas se foram propagando, tal como uns carneiros cegos arrastam outros
consigo. Há muitas religiões, mas o espírito é único. É o mesmo em ti, em vós e
em mim. Assim, pois, cada um de nós tem de acreditar no seu espírito, e deste
modo todos estamos unidos.
Leon
Tolstoi, in Ressurreição
18/02/2012
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