24/02/2012

Charge, de Dálcio (Correio Popular)

Angkor Wat: a cidade templo

Em meio à floresta do Camboja o Império Khmer construiu na antiga capital Angkor sua mais preciosa joia: Angkor Wat. Abandonado e desconhecido, o templo de Angkor Wat permaneceu habitado durante séculos apenas pelos monges budistas e alguns aldeões que nada sabiam contar de sua história para os ocidentais que ali chegaram no século XIX. Hoje é um dos destinos mais visitados no mundo.

Angkor, Camboja, Império, Khmer, templo, Wat


Angkor Wat – ou "cidade templo", em sânscrito - é maior que qualquer catedral medieval e protegida por um fosso. O templo ergue-se nas regiões alagadiças no centro do Camboja. Sua altura é duas vezes maior que a da Torre de Londres, representando um dos maiores projetos de engenharia da história - não apenas pelo tamanho, mas por ter sido construído sobre água. Angkor Wat flutua sobre um pântano sustentado por diversas galerias subterrâneas. O local foi construído ao longo de 35 anos (muitas catedrais europeias levaram mais de 200 anos e são frequentes vezes menores que Angkor Wat).

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Angkor Wat – ou "cidade templo", em sânscrito - é maior que qualquer catedral medieval e protegida por um fosso. O templo ergue-se nas regiões alagadiças no centro do Camboja. Sua altura é duas vezes maior que a da Torre de Londres, representando um dos maiores projetos de engenharia da história - não apenas pelo tamanho, mas por ter sido construído sobre água. Angkor Wat flutua sobre um pântano sustentado por diversas galerias subterrâneas. O local foi construído ao longo de 35 anos (muitas catedrais europeias levaram mais de 200 anos e são frequentes vezes menores que Angkor Wat).
Sua primeira decisão foi a escolha de Vishu como padroeiro - deus hindu, sempre escolhido pelos reis em tempos de guerra. E em sua homenagem começou-se a erguer Angkor Wat. O material escolhido não foi a madeira – comum nas construções do povo Khmer – pois esta, assim como os homens, tem um fim. Para a tarefa trouxeram cerca de cinco mil operários de todos os lugares dos reinos, que buscaram pedras e matérias das regiões mais longínquas, revestiram o pântano e construíram um complexo sistema de engenharia para o templo não afundar.
Além do povo, o rei requisitou arquitetos, filósofos, poetas e profetas neste projeto, para que sua alma fosse direto para o paraíso com a construção do templo. Sua escala é divina, reproduzindo na terra o mundo dos deuses em ricos detalhes. A concepção do templo é baseada no Monte Meru, a morada dos deuses, que estaria localizada em um dos cinco montes ao norte do Himalaia. Por isso, no centro fica a torre principal, rodeada por cinco torres – com formato de flor de lótus - que se elevam a 65 metros dos pântanos.

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A construção é toda em laterita – um tipo de solo que, quando seco, se torna uma rocha resistente. Esta rocha não é muito bela e está cheia de buracos, o que impossibilitava o trabalho dos escultores para realização dos baixos-relevos e outros entalhes. A solução veio da vizinha Índia, que utilizava o arenito nas esculturas de suas construções. Assim, blocos gigantes de quatro toneladas foram transportados pelos canais.
Esses baixos-relevos ocupam toda a superfície do templo, seja em forma de adornos arquitetônicos, geométricos, florais, figuras femininas - presença onipresente - ou simplesmente imitando telhas, portas e janelas. Cenas do livro Mahabharata, Ramayana, Bhagavata-Purana – textos clássicos da literatura hindu - assim como um desfile do rei Suryavarman II com as suas tropas são retratados nessas obras.
Quinhentos acres de floresta tropical foram destruídos para a construção do templo. Uma tarefa árdua, dificultada pela falta de ferramentas adequadas, longe das fontes de pedras, com o tormento de insetos e animais, um calor escaldante e as monções. O local era o mais complexo possível (uma planície alagada), mas simbolicamente o mais perfeito, pois era o centro do império.

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A construção foi pensada primeiramente como túmulo do imperador, mas após sua morte os trabalhos foram interrompidos e o local tornou-se o centro político e religioso do império, abrigando o templo principal e o palácio real. Seu sucessor, Jayavarman VIII, que antes era monge budista, mandou remodelar o templo para adaptá-lo ao seu culto. Mas nesse período o Império Khmer já entrara em declínio.

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Mesmo após a decadência do império, os monges e alguns habitantes permaneceram no templo. Hoje, os esforços para restaurá-lo - já foi vitima de saques do Khmer Vermelho na década de 1970 e de contrabandos – envolvem pessoas de todo o mundo. Sua representatividade é tamanha que sua silhueta aparece na bandeira do Camboja, tornando-se símbolo do país e seu principal ponto turístico. Seja pela história ou magnitude, Angkor Wat é o maior entre todos os templos.
Fonte: obviousmag.org

A Inveja não tem passado

“Ainda não tendes advertido, que a inveja faz grande diferença dos mortos aos vivos, e dos presentes aos passados? Os olhos da inveja são como os do Sacerdote Heli, dos quais diz o Texto sagrado, que não podiam ver a luz do Templo, senão depois que se apagava: Oculi ejus caligaverant, nec poterat videre lucernam Dei, antequam extingueretur. Enquanto as luzes são vivas, cada reflexo delas é um raio, que cega os olhos da inveja: porém depois que elas se apagaram, e muito mais se se metem largos anos em meio, então abre a inveja, como ave noturna, os olhos; então vê o que não podia ver: então venera e celebra essas mesmas luzes, e levanta sobre as Estrelas seus resplendores. Por isso disse com grande juízo S. Zeno Veronense, que todo o invejoso é inimigo dos presentes, e amigo dos passados: In omnibus se inimicum praesentium servat, amicum vero pereuntium. Os mesmos que agora amam, e veneram tanto a Santo Antônio, se viveram em seu tempo, o haviam de aborrecer e perseguir; e as mesmas maravilhas, que tanto celebram e encarecem, se foram obradas na sua Pátria, as haviam de escurecer e aniquilar”.
Padre Antônio Vieira, in Sermões

"Se você pegar no mais ardente dos revolucionários, e der poder absoluto a ele, dentro de um ano ele será pior do que o próprio czar."
Mikhail Bakunin

Amou daquela vez como se fosse a última*


Combinaram assim: falar-se-iam diariamente, por volta das seis da tarde, a fim de conferir (ele, o filho), checar, assegurar que ele estivesse vivo e passando bem (ele, o pai). Fizeram o acordo sem disfarçarem o profundo embaraço, com os olhos liquefeitos em lágrimas e o coração pelejando em ritmo desembestado.
Abraçaram-se besta e dramaticamente, como se fosse pela última vez. O pai concedeu a benção ao filho e tocou para a chácara onde residia, nos arredores da cidade. “Esta gleba aqui a Prefeitura não vai lotear nem a pau!”, gaba-se, redondamente enganado a respeito do apetite avassalador da especulação imobiliária que domina as metrópoles e os seus dirigentes.
Há cinco anos, o velho enviuvara. No começo, o choque da separação compulsória remeteu-o a pensamentos destrutivos, anti-crísticos, conforme ele mesmo dizia numa linguagem empolada. De tal forma que não firmou o propósito de se autoaniquilar. Perdeu a mulher, alguns quilos, mas não perdeu a fé.
Homem vivido e experimentado nas ene tragédias desta e de outras vidas (ele cria piamente em antibióticos e reencarnações), sabia que o tempo cicatrizava quase todo tipo de ferida. Então esperou. Enquanto isso, mergulhava nos livros, devorava-os como se fossem os comprimidos de vitaminas e de rivotril. O que era pior naquela idade: osteoporose, insônia ou uma saúde de ferro?
Apesar de acorrentado à oitava década de vida, gozava de razoável saúde. Animava-se com a suposição que, ao tomar um cálice de vinho tinto ao dia, estaria protegendo as veias e as artérias da ação maléfica do tempo, do colesterol, do estresse e das tristezas acumuladas. Então secava uma taça de vinho chileno antes do almoço, religiosamente. Se Jesus transformara água em vinho é porque havia mesmo certo poder medicinal naquele líquido inebriante. Um santo remédio, não restava dúvida: além de desentupir as veias, entorpecia o dia.
Ultimamente, por causa das incursões nos temas esotéricos, andava melancólico, flutuando entre as aflições do presente e as lembranças da mocidade. Não podia mais negar: tinha medo da morte, sim. Afinal, ali estava ela, pisando em seus calcanhares, implacável, bafejando um hálito indesejável na sua nuca.
Tinha uma saudade doída da mulher, uma dor que até parecia palpável nalgum lugar do abdômen. Vivos restavam poucos companheiros. Quase todos com a saúde no guimba, em “péssimo estado de conservação”, como ele mesmo costumava brincar.
No íntimo, torcia muito para morrer subitamente. Se pudesse escolher, preferia morrer dormindo, sem asfixia, é claro. Morrer rapidinho, como se fora uma manga podre caindo do pé. Uma bala perdida cravada no peito não seria de todo ruim. E havia tantas delas, ultimamente. Precisava se encontrar.
Todas as doutrinas lidas, relidas e esmiuçadas no decorrer de tantos anos, miseravelmente, não lhe davam suficiente guarida para suportar o epílogo. Temia a morte, como temia uma cólica de rins. Como seria possível a um ser humano produzir pedras dentro do próprio corpo? Eram dúvidas concretas de se amolecer qualquer sujeito.
Uma vez que morava sozinho no casebre, a possibilidade iminente de ser encontrado sem vida, já em avançado estado de decomposição, vinha arruinando as suas noites de sono desde que a mulher desencarnara (ele jamais desencanava destes dilemas da carne e da alma). Procurou então o filho único para externar o pavor, para dividir o drama e selarem um pacto que pusesse fim àquela agonia.
Que se falassem todos os dias, às seis. Que o rapaz tivesse paciência com ele e procurasse compreender a sua situação (afinal, um dia ficaria velho também e coisa e tal). Que verificasse pessoalmente estaria ele vivo ou não (ele, o pai). Nem precisava gastar tempo ou gasolina. Bastava discar o telefone. Requisitou a máxima atenção do filho. Olhou no miolo dos seus olhos, como se quisesse entrar dentro deles: “Estamos combinados?!”, implorou, e o seu estado era mesmo de fazer dó.
Ainda que desejasse chorar, o moço sorriu. Embora se sentisse meio arrasado com a fraqueza do pai (e dele próprio), buscou consolar. “Você viu? O Governo concedeu um abono aos aposentados...”, comentou qualquer assunto, tentando desfazer o rumo da prosa, esforçando-se para dizer algo agradável que os resgatasse daquele nevoeiro de sentimentos.
O rapaz tentou fazer graça da situação, mas o pai não riu. Na verdade, ele percebeu que as proeminentes rugas na fronte do velhote pulavam freneticamente, como se fossem um frango com o pescoço quebrado saltitando no terreiro, suplicando por um “sim”.
Sim. Tudo bem. Garantiu ao velho pai que telefonaria todos os dias, às seis. “Pode ligar a cobrar...”, recomendou o ancião, utilizando um atrativo dos mais mixurucas, uma recompensa bisonha, como se oferecesse uma guloseima a uma criancinha. Parecia mesmo uma criatura pra lá de descontrolada.
O velhote recostou na poltrona e expirou demoradamente, retirando o peso do mundo das suas costas. Relaxou, enfim. Nutria uma admiração profunda e verdadeira pelo filho. Teve vontade de confessar que o amava, mas este era um daqueles verbos complicados que não conseguia conjugar nem fodendo.
Conforme o pacto, falaram-se diariamente durante algumas semanas. Até que um dia, o telefone tocou, e nem ao menos eram seis da tarde. Do outro lado da linha, uma moça de voz delicada quis saber se ele era o senhor fulano de tal, pai do beltrano de tal, que tinha embarcado no voo de ontem à noite para Pasárgada. Ela e a empresa aérea lamentavam profundamente (“Por favor, o senhor procure ficar tranquilo...”), mas havia fortíssimos indícios que a aeronave desaparecera nalgum ponto indeterminado sobre o Oceano Pacífico. As buscas já haviam começado. Ele buscou, mas não encontrou o chão. 

Eberth Vêncio, in www.revistabula.com
*Verso de Construção, de Chico Buarque 

23/02/2012

Charge, de Humberto (Jornal do Commercio)

O encontro entre Sertão e cidade

Este poderia ter sido o título do desfile da Unidos da Tijuca. O sertão de Luiz Gonzaga, com sua sanfona e sua Asa Branca, e a cidade do samba com suas luzes e suas curvas.
Anotei duas considerações sobre o desfile deste ano:
1. A presença cultural do Nordeste. Seis escolas o apresentaram. Desde o cordel ao Maranhão. Passando por Gonzaga. Não é trivial. Nem é por acaso. Porque o Nordeste é invenção. É sonho. O Nordeste é o Brasil de dentro pra fora. Saindo das entranhas sertanejas. Enquanto o Sudeste é o Brasil de fora pra dentro. Vindo da migração de japoneses, alemães, espanhóis, portugueses, italianos.
O Nordeste é cravo e canela de Jorge Amado. É a angústia alagoana de Graciliano. É o cultivo folclórico de Cascudo. É o romantismo de Alencar. É a força mineral de Cabral. É a delicadeza urbana de Bandeira.
2. Há um processo de continuada renovação na organização da arte nas escolas. Que não é fácil de obter. Porque se trata de mais de uma dezena de escolas que anualmente desfilam. Apesar desse número e frequência, ano a ano a inovação surge no talento dos carnavalescos. Penso que existem dois movimentos fluviais na sua criatividade: o primeiro, veio com Joãozinho Trinta. Sua característica principal era a visão social. Apoiada na argila da pobreza e na energia da fé. O segundo movimento vem com Paulo Barros. Seu traço mais aparente é a transformação do real no imaginário popular. E do imaginário popular no colorido da realidade. Ele alça o presente às nuvens do eterno.
O Brasil risonho e musical, mais uma vez, deu seu recado. Que o Brasil sisudo aprenda com ele.
Luiz Otávio Cavalcanti, in Besta Fubana

Charge, de Tiago Recchia (Gazeta do Povo)


"O mais corrupto dos Estados tem o maior número de leis."
Tácito

A Arte de Sérgio Gomes: Angelina Jolie

www.sergiobgomes.wordpress.com

A Lua Vem da Ásia (18º capítulo)


Chuva, chuva, chuva.
É a primeira chuva a que assisto da minha janela de hóspede - neste verão que bem pode ser a primavera, pois não tenho noção do tempo nem disponho de bússola para me guiar entre as horas do dia e da noite. Ontem o deputado que se senta ao meu lado na mesa garantiu-me que estávamos em agosto, e até fez o sinal da cruz sobre o peito para demonstrar que não estava mentindo; mas eu tenho minhas dúvidas a respeito e continuo acreditando que não estamos sequer em janeiro ou em março, pois o rio que ouço a distância continua a caminhar para a direita e só com a chegada da primavera é que ele se volta para a esquerda e se torna realmente belo.
Presumo que aqui me encontro aproximadamente há uns vinte anos, ou uns  cinco pelo menos, pois já me habituei com a cama, as cadeiras e a mesinha de cabeceira, e não sou de me habituar muito depressa com as coisas. Eu poderia, bem sei, perguntar ao criado ou à criada que me servem todos os dias, ou mesmo ao próprio gerente do hotel, ou ainda à sua jovem esposa tão louçã e já tão vesga, o tempo exato em que aqui me encontro e o mês e o ano em que porventura estamos vivendo nesta fria noite de chuva; mas tenho receio de que eles me tomem por um maníaco que está sempre a querer saber as coisas, eu que tenho fama de tão discreto e de tão educado, e prefiro morrer sem saber o dia da minha morte a ter que causar-lhes tamanha decepção.
De resto, a noite não é tão triste assim, e eu bem posso, querendo, sentar-me à beira da cama, colocar as duas mãos na fronte como o faria qualquer sujeito de bom senso, e distrair-me assim com o espetáculo da parede sempre branca e sempre imóvel, a dois palmos do meu nariz. Livros eu não tenho para ler no momento, nem eles dão coisa que preste e que me faça mais sábio do que sou, pelas amostras que já tive nestes últimos tempos (A Bíblia que me deram a ler era exatamente igual a todas as Bíblias que eu já conhecia antes de vir para cá, e o romance policial que de certa feita me emprestou a empregada trazia uma história ingênua e fácil de ser desvendada, como pude verificar logo pelas últimas páginas.) Violão também não tenho, nem piano, nem saxofone, de maneira que a chuva ainda é a melhor coisa que me poderia acontecer nesta noite sem mês e sem ano, já que as paredes brancas e iguais já não me oferecem segredo nenhum, à força de eu me postar diante delas como diante de um espelho. Exatamente: a noite foi feita para os galos dormirem e os insones roerem a sua insônia. Roerem - não disse bem?
Assombra-me (sempre me assombrou) ver a facilidade com que certas criaturas se recostam num travesseiro e caem logo num sono profundo, como se se houvessem suicidado inteiramente, sem problema nenhum a resolver no dia seguinte. Parecem bonecos de corda a que de repente faltasse a corda, e a sua consciência é também uma simples questão de corda a mais ou a menos, como o é também a sua voz, em tudo igual à de um boneco que fala mamãe. Em mim, o superlúcido, o sono foi sempre uma conquista muito difícil, e sua escalada através dos anos sempre me pareceu mais penosa e meritória do que a do Himalaia ou mesmo a do monte Everest.
Agora a chuva baila em torno da minha cabeça, e no hotel todos dormem ou fingem que dormem pelo menos, num silêncio que marca com exatidão o barulho da chuva sobre o telhado. Seu eu gritasse é possível que a chuva continuasse caindo, mas o silêncio pelo menos deixaria de existir dentro do meu quarto e dentro dos quartos vizinhos, e a chuva já não teria a marcá-la o compasso unânime do sono de todos os imbecis da terra. Vou gritar, espera!... - Não, é melhor eu deixar para gritar amanhã, ou num domingo, que é dia de júbilo universal e é quando todos gritam sem motivo ou pelos motivos mais tolos. Agora vou pentear o cabelo com a água da chuva, olhar um pouco mais o céu indevassável através das grades da janela (por causa dos ladrões) e depois recolher-me ao leito, como uma criança de dois anos. Nos meus bons tempos esta era a hora exatamente de eu sair à rua, de guarda-chuva aberto e a alma escancarada, até que encontrasse um bar simpático que me acolhesse e ao guarda-chuva e nos deixasse ficar a sós até alta madrugada. (Neste hotel, não sei por que, o regime é mais severo do que nos outros, e o hóspede não tem direito de pôr o pé na rua sem falar com o gerente ou com o subgerente, que geralmente lhe negam autorização. Coisas da nova democracia, parece-me.)
Outra coisa que a chuva me faz lembrar sempre são os mortos. Tive um amigo que de certa feita escreveu esta frase lapidar: A chuva dá de beber aos mortos, e talvez por isso eu não possa sentir a chuva sem sentir a presença dos mortos ao meu lado, e até mesmo dentro de mim. Por outro lado, não é verdade que os mortos hão de sentir-se apavorados dentro da terra encharcada e gotejante, sobretudo os mortos recentes e que ainda não estão acostumados com a sua solidão? Eu, depois de morto, tanto se me dá que chova ou que deixe de chover, mas aquela frase do meu amigo não deixa de ser bela e profundamente inspiradora. Não acredito que a sede seja o que mais importune os mortos no seu silêncio, mas a poesia é sempre necessária e é bom que os poetas estejam lembrando-se dos mortos nos dias de chuva, como uma mãe dos seus filhos.
Agora que já olhei a chuva mais uma vez, e que o silêncio persiste dentro deste hotel mal-assombrado (mudar-me-ei amanhã) - o que me resta a fazer é não fazer nada, como sempre, e esperar que as horas escoem lentamente e que o meu corpo durma antes de mim, ao peso do cansaço e da mais absoluta monotonia. Deitar-me-ei como um faquir sobre os espinhos do meu leito - bela imagem, sem dúvida – apagarei a luz, rezarei um padre-nosso (eu que não creio em Deus nem creio que ele possa crer em mim) e fingirei de morto por algum tempo, só respirando e deixando que me bata o coração, por via das dúvidas. No escuro a noite é completamente escura, como o podem atestar todos os insones da terra, e o jeito que resta é a gente esperar que, mesmo com chuva, a alvorada volte a raiar no vidro da janela, e com ela de novo as esperanças e as ideias felizes, que são sempre as mesmas sempre, apesar de todas as decepções ou talvez por isso mesmo.

Intradução: asa de akhmátova (1997)

Augusto de Campos

O jornal é o fole incansável que assopra a vaidade humana

“Pelo jornal, e pela reportagem que será a sua função e a sua força, tu desenvolverás, no teu tempo e na tua terra, todos os males da Vaidade! (...) Como a reportagem hoje se exerce, menos sobre os que influem nos negócios do Mundo, ou nas direções do pensamento, do que, como diz a Bíblia, sobre toda a sorte e condições de gente vã, desde os jóqueis até aos assassinos, a sua indiscriminada publicidade concorre pouco para a documentação da história, e muito, prodigiosamente, escandalosamente, para a propagação das vaidades! O jornal é com efeito o fole incansável que assopra a vaidade humana, lhe irrita e lhe espalha a chama. De todos os tempos é ela, a vaidade do homem! Já sobre ela gemeu o gemebundo Salomão, e por ela se perdeu Alcibíades, talvez o maior dos Gregos. Incontestavelmente, porém, meu Bento, nunca a vaidade foi, como no nosso danado século XIX, o motor ofegante do pensamento e da conduta. Nestes estados de civilização, ruidosos e ocos, tudo deriva da vaidade, tudo tende à vaidade. E a forma nova da vaidade para o civilizado consiste em ter o seu rico nome impresso no jornal, a sua rica pessoa comentada no jornal! Vir no jornal! Eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema! Nos regimes aristocráticos o esforço era obter, senão já o favor, ao menos o sorriso do Príncipe. Nas nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os homens praticam todas as ações—mesmo as boas”.
Eça de Queirós, in A Correspondência de Fradique Mendes

22/02/2012

Mossoró, Pau dos Ferros, Caicó, Teresina, é quente? as 5 cidades mais quentes do mundo


5. Timbuktu, Mali — 54,5°C
Timbuktu, conhecida por ser a cidade localizada no meio do nada, é também um lugar muito quente. Ela fica no extremo sul do deserto do Saara, alguns quilômetros ao norte do rio Níger. Com uma alta registrada de 54,5 graus Celsius, Timbuktu é a 5ª cidade mais quente do mundo.


4. Kebili, Tunísia — 55°C
Embora seja muito quente, Kebili é realmente um oásis no deserto. A população enfrenta ondas de calor com temperaturas superiores a 55 graus Celsius. Os habitantes estocam água e se esforçam para manter uma temperatura corporal relativamente constante.


3. Ghadames, Líbia — 55°C
Ghadames é outro oásis no meio de um deserto. A população de cerca de 7.000 habitantes vive em casas feitas com paredes grossas de lama, cal, e troncos de árvores que ajudam a protegê-los do calor demasiado, especialmente no verão. Os telhados das casas são interligados, e muitas das ruas são cobertas, permitindo uma sombrinha, privacidade e segurança.


2. Death Valle (Vale da morte), Estados Unidos — 56,6°C
Death Valley é o vale mais seco e mais baixo dos Estados Unidos, condições que favorecem a obtenção do calor extremo. Em 10 de julho de 1913, os termômetros registraram 56,6 graus Celsius, a temperatura mais alta já medida nos Estados Unidos. Durante aquela semana, cinco dias seguidos marcaram 53 graus Celsius ou mais.


1. El Aziza, Líbia — 58°C
A temperatura mais quente já registrada na Terra foi em El Azizia, na Líbia, onde um calor de 58 graus Celsius entrou para os livros de história em 13 de setembro de 1922. Dois dias de ventos quentes precederam o recorde.
Fonte: br.omg.yahoo.com


"O medo do perigo é mil vezes pior do que o perigo real."
Daniel Defoe

Charge, de Newton Silva

Orgulho*


*Teresa Cristina e sua mãe, D. Hilda, extra do DVD Melhor Assim


"O mundo não será feliz a não ser quando todos os homens tiverem alma de artista, isto é, quando todos tirarem prazer do seu trabalho."
Auguste Rodin

Há muitas religiões, mas o Espírito é único

- Que religião é a tua? - perguntou um homem de certa idade, que estava num extremo da balsa, junto do seu carro.
- Não tenho nenhuma religião. Porque não creio em ninguém mais do que em mim mesmo - replicou o velho com ar resoluto.
- Como pode uma pessoa crer em si mesma? Pode enganar-se - objetou Nekliudov, intervindo na conversa.
- Nunca! - exclamou o velho abanando a cabeça.
- Porque há então diferentes religiões ?- interrogou Nekliudov.
 Porque as pessoas creem precisamente nessas religiões e não creem em si mesmas. Também eu acreditei nos outros e perdi-me como numa floresta. Estava tão confuso que julguei não poder mais encontrar o caminho. Conheci múltiplas religiões diferentes. Todas se louvam a si mesmas. Todas se foram propagando, tal como uns carneiros cegos arrastam outros consigo. Há muitas religiões, mas o espírito é único. É o mesmo em ti, em vós e em mim. Assim, pois, cada um de nós tem de acreditar no seu espírito, e deste modo todos estamos unidos.
Leon Tolstoi, in Ressurreição