03/12/2023

Laranja Mecânica | Capítulo 4


Na manhã seguinte eu acordei às oito em ponto, meus irmãos, e como eu ainda estava me sentindo cansado, chateado e de saco cheio, e meus glazes estavam grudados de remela muito horrorshow, eu resolvi que não ia à escola. Resolvi ficar um malenquinho mais na cama, digamos uma hora ou duas, e depois me vestir com calminha, talvez até dar um esploche no banheiro, depois preparar um bule de tchai horrorshow bem forte, fazer torradas pra mim e esluchar o rádio, ou ler a gazeta, muito no meu odinoque. E então, depois do café talvez eu itasse, se ainda estivesse com vontade, até o velho escoliuol, pra ver o que e que estavam varitando naquela grande sede do saber glupe e inútil, ó meus irmãos. Ouvi meu papapá resmungando e mexendo com os pés e depois itiando para a velha estamparia de tecidos onde ele rabitava, e aí minha mamãe entrou me chamando com uma voz muito respeitosa, como ela fazia agora que eu estava crescendo, grande e forte:
Já passa das oito, meu filho. Não vá se atrasar de novo.
Eu retruquei: – Tô com um pouco de dor de gúliver. Me deixa quieto que eu vou tentar dormir pra ver se passa e aí, de tarde, eu vou estar tinindo. Eu esluchei ela dar uma espécie de suspiro e aí falou:
Então eu vou botar a sua comida no forno, meu filho. Eu também já vou saindo. - O que era verdade, porque tinha aquela lei mandando que todo mundo que não fosse criança, nem com crianças, nem doente tinha que rabitar fora. A mãe trabalhava num dos Mercados Estatais, como eles chamavam, enchendo as prateleiras de sopa e feijão em lata e essa quel toda. Então eu esluchei o tlenque do prato no forno a gás e depois ela calçando os sapatos, depois apanhando o casaco atrás da porta, depois suspirando de novo, e ela falou: “Eu já vou, meu filho.” Mas eu procurei voltar pra sonolândia e aí peguei no sono muito horrorshow e, por alguma razão, tive um esnite esquisito e muito real, com o meu drugue Georgie. Nesse esnite ele já estava assim muito mais velho e muito severo e muito durão e estava govoritando sobre disciplina e obediência e dizendo que todos os maltchiques sob seu controle tinham que andar muito na linha e bater continência, como se estivessem no exército, e lá estava eu nas fileiras assim que nem os outros, dizendo sim senhor e não senhor, e videei claramente que Georgie estava com aquelas estrelas nos pletchos e era assim um general. E ai ele trouxe o Tapado com um chicote e o Tapado estava muito mais, estarre e grisalho e estava com alguns zubes faltando, o que eu pude ver quando ele deixou escapar um esmeque me videando, e aí o meu drugue Georgie disse assim apontando pra mim: “Esse homem aí está com as pletes cheias de sujeira e quel!”. e era verdade.
Aí eu critchei:
Não batam em mim não, por favor, não batam em mim, meus irmãos!”, e comecei a correr. E fiquei correndo assim em círculos, o Tapado atrás de mim esmecando à beça, estalando o chicote e, de cada vez que eu levava um toltchoque horrorshow do chicote dele, era como se fosse uma campainha elétrica tocando muito alto trrrintrrrintrrin, e essa campainha era unia espécie de dor também.
Ai, eu acordei escorre, meu coração taque taque taque. e, naturalmente, tinha mesnio uma campainha fazendo brrrr e era a da porta da frente. Eu fingi que não tinha ninguém emi casa, mas aquele brrrr continuou, e aí eu ouvi uma golosse gritando do outro lado da porta: “Anda, anda, deixa disso, eu sei que você está na cama!” Eu reconheci a golosse imediatamente. Era a golosse de P.R. Deltoid (esse aí era um naze muito glupe), que chamavam de meu consultor pós-correcional, um veque sobrecarregado de trabalho, com centenas de nomes nos seus caderninhos. Eu gritei certo, certo, certo, com uma voz assim de dor, e me levantei e fui me ataviar, ó meus irmãos num muito lindo chambre de seda assini com desenhos de grandes cidades. todos estampadas em cima desse chambre. Depois meti os meus nogas dentro de cômodas tuflas de lã, penteei a minha bela cabeleira e estava pronto para o Sr. P. R. Deltoid. Quando eu abri a porta, ele entrou arrastando os pés, desgrenhado um chilapa surrado no gúliver, a capa de chuva imunda. – Ah, menino Alex – disse-me ele. – Encontrei sua mãe, não é? Ela falou alguma coisa a respeito de uma dor. Daí, escola nada, não é?
Uma dor de cabeça insuportável, irmão, Sr. Deltoid – disse eu com a minha golosse de cavalheiro. – Acho que deverá ceder durante a tarde.
Ou certamente durante a noite, não é? - disse P. R. Deltoid. - A noite é a grande hora, não é, menino Alex?
Sente-se. “Senta, senta...” como se fosse a dome dele e eu a visita. E ele sentou naquela cadeira de balanço estarre do meu pai e começou a balançar, como se só tivesse vindo pra isso. Eu falei:
Uma xícara de tchai, Sr. Deltoid? Chá, quero dizer.
Não dá tempo – disse ele. E balançava, com aquele olhar faiscante debaixo das sobrancelhas cerradas, como se dispusesse de todo o tempo deste mundo. – Não dá tempo, não é? - disse ele. Aí eu botei a chaleira no fogo.
E falei:
A que devo o extremo prazer? Alguma coisa errada, Sr. Deltoid?
Errada? – disse ele muito escorre e astuto, olhando pra mim meio curvado mas ainda se balançando. Aí ele viu um anúncio na gazeta que estava em cima da mesa – uma linda ptitsa esmecante, com os grudes de fora anunciando, meus irmãos, as Glórias das Praias Iugoslavas. Então, depois de tê-la comido em duas deglutidas, ele falou: – Por que é que você está pensando em termos de haver alguma Coisa errada? Você andou fazendo alguma coisa que não devia, é?
É só maneira de falar – disse eu – Sr. Deltoid.
Pois bem – disse P. R. Deltoid – é só maneira de falar, de mim pra você, pra você tomar cuidado, Alexinho, porque a próxima vez, como você sabe muito bem, não vai mais ser a escola correcional. Da próxima vez vai ser nas grades, e todo o meu trabalho vai por água abaixo. Se você não tem consideração para com o seu próprio eu horrendo, pelo menos tenha alguma para comigo, que suei muito por sua causa. Uma grande mancha negra, digo-lhe confidencialmente, pra cada um de vocês que acaba atrás das grades.
Eu não andei fazendo nada que não devia, Sr. Deltoid – disse eu. – Os milicentes não têm nada contra mim, irmão, Sr. Deltoid, quero dizer.
Corta essa conversa de malandro a respeito de milicentes – disse P. R. Deltoid, muito cansado mas ainda se balançando na cadeira. – Só porque a polícia não pegou você ultimamente, isso não quer dizer, como você sabe muito bem, que você não tenha andado fazendo alguma safadeza. Teve uma briguinha ontem à noite, não teve? Teve uma dança com nojes e correntes de bicicleta e coisas assim. Um amigo de um certo rapaz gordo foi recolhido, não faz muito tempo, por uma ambulância, perto da Usina Elétrica, e hospitalizado, todo cheio de cortes muito desagradáveis, não é? O teu nome foi mencionado. A notícia me chegou pelos canais habituais. Certos amigos teus também foram mencionados. Aparentemente houve uma boa quantidade de safadezas sortidas, ontem à noite. Ah, ninguém pode provar nada contra ninguém, como sempre. Mas eu estou lhe prevenindo, Alexinho, porque sou seu amigo como sempre, e o único homem nesta comunidade dorida e doente que quer salvar você de você mesmo.
Eu agradeço muito, Sr. Deltoid disse eu –, muito sinceramente.
É, você agradece, não é? – zombou ele. – Tome cuidado, só isso, tá? Nós estamos mais por dentro do que você está pensando, Alexinho. – Aí, ele falou, com uma golosse de grande sofrimento, mais ainda se balançando:
O que é que vocês têm? Nós estudamos o problema e estamos estudando já há, puxa vida, quase um século, mas não progredimos nesse estudo. Vocês têm boas casas, bons pais, umas cabeças nada más... E algum demônio que baixa em vocês?
Ninguém tem nada contra mim, senhor – disse eu.
Eu já saí dos rúqueres dos milicentes há muito tempo.
É exatamente isso que me preocupa – suspirou P. R. Deltoid. – É tempo demais pra ser saudável. Você está pra chegar lá, pelos meus cálculos. É por isso que estou prevenindo você, Alexinho, pra tirar a sua bela trombazinha da lama, não é? Estou sendo claro?
Como um lago sem lodo, Sr. Deltoid – disse eu. – Claro como um céu azul do mais profundo verão. O senhor pode confiar em mim. – E lhe dei um belo sorriso cheio de zubes.
Mas quando ele ucaditou e eu estava fazendo aquele bule de tchai muito forte, eu sorri comigo mesmo dessa véssiche com a qual se preocupavam P. R. Deltoid e seus drugues. Tá bom, eu ajo errado com esse negócio de craste, de toltchoque e de rasgões a britva e o velho entra-sai-entra-sai, mas se eu for lovetado, pior pra mim, ó meus irmãos, que ninguém pode governar um país com todos os tcheloveques se comportando da maneira que eu me comporto à noite. Portanto, se eu for lovetado e forem três meses num méssito e depois seis meses noutro e aí, como adverte amavelmente o P. R. Deltoid, e a despeito da tenrura dos meus janeiros, irmãos, vai ser o jardim zoológico do outro mundo, eu digo: “Tá certo, mas é uma pena, meus senhores, porque não suporto ficar trancado. Meus esforços, no futuro que estende para mim os seus braços brancos como lírios, serão voltados para que, antes, a noje me alcance, ou que o sangue esguiche seu compasso final em metal retorcido e vidro estilhaçado na estrada, pra não ser lovetado de novo.” O que é um belo discurso. Mas, irmãos, eles ficarem roendo a unha do pé pra saber a causa da ruindade é que me deixa um bom maltchique ridente. Eles não procuram a causa da bondade, por que então ficar cavucando do outro lado? Se as líudes são boas é porque gostam, e eu nunca desmancharia os prazeres deles, e do outro lado a mesma coisa. E eu estava defendendo esse outro lado. Mais ainda, a ruindade faz parte do ser, do eu, tanto em mim quanto em vocês no odinoque, e este eu é feito por Bog, ou Deus, e é o seu grande orgulho e radoste. Mas o não-ser não pode aceitar o mal, quer dizer, os do governo, os juízes e os colégios não podem permitir o mal porque não podem permitir a individualidade. E não é a nossa História moderna, meus irmãos, a história de bravas individualidades malenques lutando contra essas máquinas enormes? Quanto a isto, meus irmãos, eu estou falando com toda a seriedade. Mas, o que faço, faço porque gosto.
Por isso, agora, nessa sorridente manhã de inverno, eu tomo meu tchai com moloco e colheres e colheres e colheres de açúcar, que eu tenho boa boca pra esládique, e pesquei no forno a refeição matinal que a coitada da mãe fez pra mim. Era um ovo frito, nada mais do que isso, mas eu fiz torrada e comi ovo com torrada e geleia, estalando a língua enquanto lia a gazeta. A gazeta era o trivial, sobre ultraviolência, assaltos a bancos, greves e jogadores de futebol deixando todo mundo paralítico de medo, ameaçando não jogar no sábado seguinte se não fossem aumentados, maltchiquezinhos travessos que eles eram. Também havia mais viagens espaciais e telas de TV estéreo maiores e ofertas de pacotes de sopa em flocos, grátis em troca de rótulos de latas de sopa, maravilhosa oferta só esta semana, o que me fez esmecar. E tinha um bolche artigo sobre Juventude Moderna (ou seja, de mim – eu fiz uma reverência, rindo que nem bezúmine), escrito por algum tcheloveque careca, muito competente. Isso eu li com atenção, meus irmãos, mamando o meu tchai, xícaras e canecas e tchachas, roendo os meus lontiques de torrada escura mergulhada em geleinha e ovinho. Esse veque, instruído dizia as véssiches habituais sobre falta de disciplina paterna, como ele chamava, e a carência de professores realmente horrorshow para tirar fora a vergastadas a sacanagem dos seus inocentes pupilos e fazê-los abrir o berreiro por demência. Tudo isso era glupe demais e me fez esmecar, mas era agradável continuar sabendo que a gente está fazendo as notícias sem parar, ó meus irmãos. Todo dia tinha alguma coisa sobre Juventude Moderna, mas a melhor véssiche que eles já tinham botado na gazeta foi um estarre dum padre de colarinho duro que disse que, na sua ponderada opinião, e ele estava govoritando como homem de Bog, ERA O DIABO QUE ESTAVA À SOLTA, e que estava predando o seu caminho através da carne inocente, e que o mundo adulto é que devia ser responsabilizado por isso, com suas guerras, suas bombas e seus absurdos. E isso estava certo. E ele sabia o que estava falando, sendo um homem de Deus. E nós, os maltchiques inocentes, não podíamos levar a culpa. Certo, certo, certo.
Depois de arrotar um par de razes, com meu estômago inocente cheio, comecei a tirar pletes de dia do meu guarda-roupas, ligando o rádio. Estava tocando música, um quarteto de cordas malenque muito bonito, meus irmãos de Claudius Birdman, um que eu conhecia bem. Mas eu tinha que dar um esmeque pensando no que tinha videado uma vez num desses artigos sobre Juventude Moderna e de como a Juventude Moderna poderia ser melhor se mia Viva Apreciação das Artes pudesse ser incrementada. A Grande Música, diziam, e a Grande Poesia, aquietariam a Juventude Moderna e fariam a Juventude Moderna mais civilizada. Civilizada, meus iarbos sifilíticos. A música sempre me deixava arrepiado, ó meus irmãos, e me fazia sentir como o próprio Bog, pronto a disparar raios e trovões e ter os veques e as ptitsas critchando sob o meu gargalhante poder. E, depois de tchistar um pouco o meu litso e rúqueres e me vestir (minhas pletes diurnas eram de estudante: as velhas pantalonas azuis e um suéter com um A, de Alex), eu pensei que agora, pelo menos, eu tinha tempo para itar até a discobutique (e cortador também, meus bolsos estavam cheios de tutu) pra ver o negócio da gravação, há tanto tempo prometida e há tanto tempo pedida, da Nona de Beethoven (isto é, a Sinfonia Coral), gravada na Masterstroke pela Esh Sham Sinfonia, sob a regência de L. Muhaiwir. Portanto, irmãos, saí.
O dia era muito diferente da noite. A noite pertencia a mim e a meus drugues e ao resto dos nadsats, e os estarres burgueses se entocavam dentro de casa, bebendo nos programas mundiais glupes de televisão, mas o dia era pros estarres e também apareciam sempre mais rodzes ou milicentes zanzando durante o dia. Tomei o ônibus na esquina e segui pro Centro, depois voltei até Taylor Place, e lá estava a discobutique que eu favorecia com o meu patrocínio, ó meus irmãos. Tinha o nome glupe de MELODIA, mas era um méssito realmente horrorshow e escorre na maioria das vezes, pra receber as gravações novas. Entrei, e as duas únicas freguesas eram duas ptitsas chupando Picolés (e estávamos, notem, num inverno frio de matar)remexendo os novos discos pop – Johnny Burnaway, Stash Kroh, The Mixers, Lay Quiet Awhile With Ed And ld Molotov, e o resto da quel toda. Essas duas ptitsas não podiam ter mais de dez anos e, evidentemente, parecia que elas também, que nem eu, tinham resolvido tirar manhã de folga do escoliuol. Via-se que elas achavam que já eram realmente devótchecas crescidas, requebrando os quadris quando viram o Vosso Fiel Narrador, irmãos, e grudes com enchimento vermelho plochado nos gúberes. Eu fui até o balcão, botando o sorriso cortês, cheio de zubes, para o velho Andy lá atrás (ele também sempre cortês, sempre útil, um tipo de veque realmente horrorshow, se bem que careca e muito magro). Ele disse:
Ah, eu acho que sei o que o senhor quer. Boas notícias, boas notícias. Chegou. – E com os rúqueres como os de um grande regente, marcando o compasso, ele foi buscar. As duas jovens ptitsas começaram a dar risadinhas, como elas fazem naquela idade, e eu lhes lancei um glazear frio. Andy voltou muito escorre, brandindo a grande capa branca reluzente da Nona que tinha impresso, ó irmãos, o litso carrancudo do próprio Ludwig van, como um trovão engarrafado. Aí está
disse Andy. - Vamos dar a rodada inaugural? – Mas eu queria ele de volta à casa, no meu estéreo, para esluchar no meu odinoque, numa secura danada. Remexi o dengue pra pagar e urna das ptitsazinhas disse:
Quem cê paganhou, brete? Que norme, só unzão?
Essas devótebecas muito garotas tinham a sua maneira própria de govoritar. “The Seaven Seventeen? Luke Sterne? Goggly Gogol?” E ambas deram risinhos balançando os quadris. Aí, me bateu uma idéia que me fez cambalear de angustia e êxtase, ó meus irmãos, tanto que não pude respirar durante quase dez segundos. Eu me refiz, botei meus zubes recém-limpos pra fora e disse:
O que é que vocês têm em casa, maninhas, pra tocar esses trinados convusos? Porque eu estava videando que os discos que elas estavam comprando eram essas véssiches pop de recém-adolescentes. - Aposto que vocês tem assim dessas vitrolinhas portáteis baratas de piquenique. – Com essa elas meio torceram o beiço inferior – Venham com o titio – disse eu – e ouçam como deve. Ouçam trompetes dos anjos e trombones do demônio.
Estão convidadas. – E fiz assim uma mesura. Elas tornaram a dar risinhos e uma delas disse:
Ih, mas a gente tá com tanta fome. Ih, .a gente bem que podia comer. – A outra disse: E, ela falou. Ela falou mesmo. – Aí, eu disse:
Venham comer com o titio. Digam o lugar.
Então elas se videaram entre elas como verdadeiras sofisticadas, o que era patético, e começaram a falar com golosse de grandes damas sobre o Ritz, o Bristol, o Hilton e o Ristorante Granturco. Mas eu acabei com aquilo com um “venham com o titio”, e levei elas para a Pasta Parlour, dobrando a esquina, e deixei que elas enchessem os inocentes litsozinhos de espaguete e salsichas e bombas de creme e banana-splits, e calda de chocolate quente, até que eu quase enjoei vendo aquilo, eu, irmãos, lanchando apenas frugalmente uma fatia de presunto frio e uma braba bombada de pimenta. Essas duas ptitsas eram muito parecidas, se bem que não fossem irmãs. Tinham as mesmas idéias, ou falta de, a mesma cor de cabelo, assim uma tintura cor de palha.
Bem, hoje elas iam crescer de verdade. Hoje eu ia dedicar o dia a isso. Nada de escola depois daquela merenda, mas instrução, garantida, com Alex de professor. Seus nomes, disseram, eram Marty e Sonietta, bastante bezúmines e no rigor da moda infantil. Então eu disse:
Certo, certo, Marty e Sonietta. Tá na hora da grande audição. Vamos. - Quando estávamos na rua fria, elas pensaram que não iam de ônibus, ah, não, mas de táxi, então eu fiz a vontade delas, se bem que com um sorriso interior horrorshow, e chamei um táxi da fila perto do Center. O motorista, um veque estarre que usava suíças, de pletes muito enodoadas, falou:
Nada de rasgar. Nada de bobagem com esses assentos. Acabaram de ser estofados de novo.
Eu acalmei os seus temores glupes e lá rodamos nós pro Edifício Municipal 18-A, as duas ptitsazinhas despachadas rindo e cochichando. Portanto, para encurtar a história, chegamos, ó meus irmãos, e eu fui subindo pra mostrar o caminho até o 10-8, e elas ofegaram e esmecaram até lá em cima e aí disseram que estavam com sede, então eu abri a arca dos tesouros no meu quarto e dei àquelas devótchecas de dez aninhos um escocês horrorshow pra cada, ainda que bem cheio de soda espirrando alfinetes e agulhas. Elas sentaram na minha cama (ainda por fazer) de pernas balançando, esmecando e pitando os uísques com soda enquanto eu tocava o seu patético disquinho malenque no meu estéreo. Aquilo era assim como pitar alguma perfumada bebida infantil em taças de ouro, belas e caras. Mas elas faziam ah ah ah e diziam “desmaico”, “montanho” e outros eslovos bizarros que eram a última moda dentro daquele grupo etário. Enquanto eu rodava aquela quel pra elas, eu ia dando força pra beber e tomar outro, e elas não estavam nada abominando, ó meus irmãos.
Portanto, quando os seus patéticos discos já tinham tocado duas vezes cada um (eram dois: Honey Nose, cantado por Ike Yard e Night Afier Day Afier Night, gemido por dois horrendos eunucos sem iarbos cujos nomes me esqueço agora), elas estavam chegando ao ponto de histeria de ptitsas jovens, dando pulos em cima da minha cama e eu no quarto com elas.
O que foi efetivamente feito naquela tarde não precisa ser descrito, irmãos, vocês bem podem adivinhar. Logo logo aquelas duas estavam despletadas e esmecando de arrebentar e achando a graça mais bolche do mundo videar o tio Alex ali, de pé, completamente nagói e de cabo-de-panela, espremendo a seringa hipodérmica que nem um médico pelado e depois me aplicando no rúquer o velho pico, de secreção de gato-do-mato. Então eu puxei a linda Nona de dentro da capa, de modo que Ludwig van agora também estava nagói e botei a agulha pra chiar no último movimento, que era pura beatitude. Lã estava ela, pois, os contrabaixos como que govoritando debaixo da minha cama com o resto da orquestra, e então a golosse humana masculina entrando e dizendo a eles todos que se alegrassem, e aí a melodia beatifica, linda, que diz que a Alegria é uma gloriosa centelha do céu, e aí eu senti os tigres pularem dentro de mim e pulei pra cima das duas jovens ptitsas.
Dessa vez elas não acharam nada engraçado e pararam de critchar com grande deleite e tiveram de se submeter aos estranhos e insólitos desejos de Alexandre o grande que, com a Nona e o pico, estavam chudésines, zamechates e muito exigentes, ó meus irmãos. Mas elas estavam muito bêbedas e não podiam sentir grande coisa.
Quando o segundo movimento tinha tocado pela segunda vez, ribombando e critchando Alegria Alegria Alegria Alegria, aí as duas ptitsas não estavam mais fazendo o gênero dama sofisticada. Estavam assim acordando para o que estava sendo feito com as suas malenques pessoas, e dizendo que queriam ir pra casa e que eu era assim uma besta selvagem. Pareciam que tinham estado em alguma bitva, como realmente tinham, e estavam todas machucadas e amuadas. Bom, mesmo que não quisessem ir à escola, tinham que receber alguma instrução. E instrução elas tinham recebido. Estavam critchando e fazendo ai ai ai enquanto botavam as pletes, e me davam soquinhos com os seus pulsinhos de gurias enquanto eu ficava na cama deitado, sujo e nu, cansado e chateado.
A jovem Sonietta estava critchando: “Besta de animal repelente! Porco horroroso!” Então eu deixei elas apanharem as coisas delas e saírem, o que fizeram dizendo que deviam chamar os rodzes pra me pegar e aquela quel toda. Aí, foram descendo as escadas e eu me deixei pegar no sono, ainda com a Alegria Alegria Alegria Alegria rachando e ululando.

Anthony Burgess, in Laranja Mecânica

02/12/2023

Chico Buarque | Bancarrota Blues

Amazônia, tucunarés e literatura

Costumo aceitar qualquer tipo de convite para participar de uma feira de livro de uma cidade da Amazônia. No início, ia por curiosidade e por uma neurótica obsessão de querer conhecer tudo e todos. Já passei por Paraopeba, Carajás, Altamira, São Félix do Xingu, Tucuruí, entre outras. Cheguei a escrever para a Folha, há mais de dois anos, sobre o encontro dos índios de Altamira, na condição de um suposto “especialista”. Lógico que tantas viagens acabaram resultando num livro: Ua:brari.
Sou doente pela Amazônia. Consumidor voraz de tucunarés, filhotes, cupuaçus etc. É o cenário ideal para grandes épicos. Extremo, o povo mais primitivo das Américas convive com as rotas dos vícios modernos: da cocaína aos computadores. A natureza luta em pé de igualdade com o homem. Ganhou das empreiteiras, erodindo a Transamazônica e a Perimetral Norte. Perdeu feio dos garimpeiros e dos projetos das mineradoras. Uma pena que a mídia brasileira tenha transformado o tema em suco. A floresta merecia mais respeito. Paciência.
Quando chegou o convite para participar da IV Feira de Livros de Marabá, nem hesitei. Fui correndo, mesmo ciente de que nove pessoas ouviram falar de mim nesse fim de mundo, e que dessas nove, seis, no máximo, leram meus livros; por vezes, tenho este ataque de humildade e vou ao encontro de leitores que não me conhecem, o que sugere meu fracasso profissional.
Sentei-me numa mesa, rodeado de livros, disposto a autografar minha “vasta obra”, mesmo sabendo que ninguém apareceria. Mentira. Meus seis leitores estavam a postos, me esperando no galpão da feira. Dei os autógrafos lentamente, para que os visitantes vissem a fila e se interessassem. Torci para que meus leitores não desaparecessem. Puxei assunto. Contei piadas. Inúteis. Assim que eu assinava, sumiam. Não demorou muito, fiquei jogado no canto, a sós, cercado pela minha “obra”. Muitos pensavam que eu fazia parte da organização ou que eu pertencia ao balcão de informações. Me perguntavam onde era o banheiro, onde estava exposto o livro do “fulano de tal”. Eu apontava para um lugar qualquer: “É lá!” Outros me perguntavam o preço do livro do “sicrano de tal”. Eu respondia qualquer preço. Já houve uma época em que eu me dedicava às complexas leis do mercado literário e, como um bom vendedor, respondia: “Não sei onde está o livro do ‘fulano’, mas sei onde está o do grande escritor Marcelo Paiva.” “Ele é bom?”, me perguntavam. “Lógico.” E fazia uma centena de elogios literários ao dito autor, analisando o foco narrativo, personagens esféricos etc. Hoje, não tenho mais saco para esse tipo de coisa; talvez por isso, empobreço vertiginosamente.

Marcelo Rubens Paiva, in Crônicas para ler na Escola

Calvin

O último crime da mala

Na mala que nem o Anjo da Guarda, nem o Delegado do Distrito, nem eu mesmo consigo encontrar, está a minha imagem única, fechada a chave — e a chave caída no fundo do mar!
Não adianta chamar escafandro, nem homens-rãs, nem a sereia mais querida, nem os atenciosos hipocampos, nada adianta.
E, por falar em querida, jamais se viu um crime tão perfeito:
Não existem vestígios de mim.

Mário Quintana, in Caderno H

A levantadora de bundas e o minotauro


Pelo amor de Deus! Acorda, caralho!
Enquanto Penny entra em cena, Clay começa a se retirar, bem lentamente.
No primeiro dia depois do meu ultimato na varanda, ele seguiu seu caminho até o saco de pão e o café frio. Mais tarde, secou o rosto no banheiro e ficou me ouvindo sair para trabalhar. Já com o uniforme velho e encardido, parei perto da cama de Rory. Ele ainda estava meio adormecido, meio morto, resultado da noite anterior.
Ei, Rory! — Dei uma chacoalhada nele. — Rory!
Ele tentou se mexer, mas não conseguiu.
Porra, Matthew, que foi?
Porra digo eu! Não se faz de desentendido! Tem uma caixa de correio lá fora, de novo.
Ah, é isso? Mas quem disse que fui eu?
Vou fingir que não ouvi isso. Só coloca essa merda de volta no lugar!
Não sei nem onde arrumei esse troço.
É só ver a porra do número!
O problema é que não sei a rua.
Agora, o momento pelo qual Clay ansiava:
Je-sus Cristo! — Mesmo em outro cômodo, ele percebeu o tamanho da minha fúria, mas me ative à praticidade. — Tô pouco me lixando pro que você vai fazer, mas quando eu chegar não quero nem sinal disso aqui. Entendeu?
Logo depois, Clay entrou no quarto, notando que a conversa toda se dera com Heitor atracado ao pescoço de Rory. O gato ficou ali deitado, soltando pelo e ronronando. Os ronrons alcançavam o tom agudo do pombo.
Ao reparar em uma nova presença na porta, Rory perguntou, com a voz abafada:
Clay? É você? Faz o favor de tirar essa porra desse gato de cima de mim. — Então esperou o gato soltar as duas últimas garras teimosas e: — Ahhhhhh!
Ele soltou um longo suspiro de alívio, envolto na tempestade de pelo de gato. O despertador do celular de Rory já estava apitando fazia um bom tempo — estava deitado em cima do aparelho, imobilizado por Heitor.
Você ouviu o Matthew? Aquele resmungão do caralho! — Apesar da dor de cabeça lancinante, Rory esboçou um sorriso cansado. — Pode jogar a caixa nas Cercanias pra mim?
Clay assentiu.
Valeu, moleque. E me ajuda aqui, tô atrasado pro trabalho. — Mas uma coisa de cada vez. Primeiro ele deu um tapão na cabeça de Tommy. — E você... Já falei pra deixar esse gato... — ele reuniu forças — LONGE DA MINHA CAMA, PORRA!

***

Quinta-feira, Clay foi para a escola.
Na sexta, abandonou o lugar para sempre.
Naquela segunda manhã, ele se dirigiu à sala dos professores, que tinha cartazes fixados à parede e um quadro cheio de anotações. Eram cartazes bem engraçados. Jane Austen em um vestido de babados, segurando bem alto uma barra de pesos. A legenda dizia LITERATURA É PARA OS FORTES. O outro era só texto: MINERVA MCGONAGALL É DEUS.
Ela estava com vinte e três anos, a professora.
Seu nome era Cláudia Kirkby.
Clay gostava dela porque, quando conversavam, ela conseguia manter com ele uma relação informal mesmo sendo sua professora.
Quando o sinal tocava, ela olhava para ele.
Vai, moleque, circulando... Levanta essa bunda daí e vai pra aula.
Cláudia Kirkby entendia de poesia.
Era morena, de cabelo castanho-escuro e olhos castanho-claros e uma única sarda no meio da bochecha. Estava sempre com um sorriso paciente, e panturrilhas, belas panturrilhas, e salto alto, era bem alta, e sempre bem-vestida. Por alguma razão, simpatizou com a gente de cara; até com o Rory, que era um pesadelo.
Quando Clay entrou na sala antes do horário naquela sexta-feira, ela estava debruçada na mesa.
Bom dia, sr. Clay.
Estava corrigindo redações.
Tô indo embora.
Ela parou abruptamente e olhou para ele.
Nada de levanta-a-bunda naquele dia.
Ela se sentou, ficou séria e disse:
Hummm.

***

Às três, eu estava na escola, sentado na sala da sra. Holland, e não era minha primeira vez ali — foi um longo caminho até a expulsão de Rory (em águas por vir). A diretora da escola era uma dessas mulheres estilosas de cabelo curto, com mechas grisalhas e brancas, e olheiras que mais pareciam pintadas com giz de cera.
Como vai o Rory?
Arrumou um emprego, mas não mudou nada.
Hum, mande lembranças nossas.
Pode deixar. Ele vai ficar contente.
Até parece, aquele imbecil.
Cláudia Kirkby também estava presente, em seu salto decoroso, saia preta, camisa creme. Sorriu para mim como sempre sorria, e eu sabia que deveria falar — bom te ver —, mas não conseguia. Afinal, era uma tragédia. Clay estava abandonando a escola.
Sra. Holland:
Então... Hum, como eu disse ao telefone, hum... — Nunca vi alguém tão cheio de hums. Conheci pedreiros que faziam menos hums que ela. — Hum, estamos com o jovem Clay aqui, ahh, prestes a nos deixar.
Minha nossa, ela disparou um ahh; a coisa estava feia.
Olhei de relance para Clay, sentado ao meu lado.
Ele ergueu o rosto, mas não disse nada.
É um bom aluno — disse ela.
Eu sei — falei.
Assim como você era.
Não reagi.
Ela prosseguiu.
Mas está com dezesseis anos. Por lei, hum, não podemos fazer nada.
Ele quer ir morar com nosso pai — contei.
Pensei em acrescentar por um tempo, mas as palavras não saíram.
Entendi. Bom, hum, podemos ver qual é a escola mais próxima da casa do seu pai…
De repente bateu: fui acometido por uma tristeza paralisante na sala da diretora, à luz meio apagada, meio fluorescente. Não haveria outra escola, não haveria qualquer outra coisa. Era o fim da linha, e todos nós sabíamos.
Eu me afastei, passei por Cláudia Kirkby, e ela também parecia triste, de um jeito tão respeitoso, tão vorazmente doce.
Depois, quando Clay e eu entramos no carro, ela gritou nosso nome e correu até nós. Eram pés silenciosos, rápidos. Tinha deixado os sapatos na porta da sala.
Aqui — disse ela, com uma pequena pilha de livros. — Pode ir, mas tem que ler esses livros.
Clay concordou e se dirigiu a ela com gratidão.
Obrigado, srta. Kirkby.
Apertamos as mãos e nos despedimos.
Boa sorte, Clay.
E que mãos bonitas, pálidas, porém mornas, e o brilho de um sorriso triste em seu olhar.
No carro, Clay voltou-se para a janela e falou como quem não quer nada, embora decidido.
Sabe, ela gosta de você.
Disse isso enquanto nos afastávamos da escola.
É curioso pensar que, um dia, eu acabaria me casando com aquela mulher.

***

Mais tarde, Clay foi à biblioteca.
Chegou às quatro e meia, e às cinco estava sentado entre duas grandes pilhas de livros. Tudo que conseguiu encontrar sobre pontes. Milhares de páginas, centenas de técnicas. Cada tipo, cada medida. Os jargões todos. Clay folheou os volumes e não entendeu nada. Mas ele gostava de ver as pontes: os arcos, as suspensões, os cantilévers.
Rapaz... — Ele ergueu o rosto. — Quer pegar algum desses emprestado? São nove horas. Vai fechar.
Em casa, ele cambaleou pela porta, sem acender as luzes. A bolsa azul abarrotada de livros. Disse ao bibliotecário que passaria muito tempo fora e conseguiu estender o prazo de devolução.
O acaso não deixa barato, e, quando ele entrou, fui o primeiro que encontrou, rondando o corredor tal qual o Minotauro.
Paramos, ambos olhamos para o chão.
Uma bolsa pesada daquele jeito falava por si.
À penumbra, meu corpo parecia indiferente, mas meus olhos estavam acesos. Eu estava cansado naquela noite, com muito mais que vinte anos; era um ancião, lânguido e grisalho.
Pode passar.
No caminho, ele viu que eu segurava uma chave inglesa; estava consertando a torneira do banheiro. Eu não era nenhum Minotauro, era a merda de um faz-tudo. Ficamos os dois encarando a bolsa de livros, e o corredor parecia se fechar, prestes a nos esmagar.

***

Então sábado, e a espera por Carey.
De manhã, Clay deu umas voltas de carro com Henry, para acompanhá-lo com os livros e discos nas vendas de garagem; ele assistia à pechincha. Em uma calçada sinuosa havia uma coletânea de contos chamada Pináculo infinito; um belo exemplar de bolso, com um atleta saltando obstáculos em relevo na capa. Ele pagou um dólar e presenteou Henry, que pegou o livro, abriu e sorriu.
Garoto — disse ele —, você é um lorde.
A partir dali, caiu a noite.
Mas eles precisavam de conquistas.
À tarde, Clay foi até o Bernborough dar voltas na pista. Leu os livros na arquibancada e começou a entender. Termos como compressão, treliça e pegão aos poucos ganhavam sentido.
A certa altura, ele correu pelo canal de escadarias entre os bancos farpados. Ele se lembrou da garota de Starkey ali e sorriu por causa dos lábios dela. Uma brisa sacolejava o campo interno, enquanto ele disparava na reta final.
Faltava pouco.
Ele logo estaria nas cercanias.

Markus Zusak, in O construtor de pontes

01/12/2023

Liniker | Baby 95

Abelha

زنبور عسل
مردد میماند
در میان هزاران شکوفه ی گیلاس.

A abelha
permanece indecisa
entre milhares de flores de cereja.

Abbas Kiarostami, in Nuvens de algodão

Um sinal no espaço

 


Situado na zona externa da Via Láctea, o Sol leva cerca de duzentos milhões de anos para realizar uma revolução completa da Galáxia.

Exatamente, este é o tempo que leva, nada menos, disse Qfwfq; eu uma vez passando fiz um sinal num ponto do espaço, de propósito, para poder vir a reencontrá-lo duzentos milhões de anos depois, quando viéssemos a passar por ali na volta seguinte. Um sinal como? É difícil dizer porque, quando lhes digo sinal, pensarão imediatamente em alguma coisa que se distinga de outra, e ali não havia nada que pudesse distinguir-se de nada; pensarão logo num sinal marcado com um utensílio qualquer ou mesmo com as mãos; em seguida, que os utensílios e as mãos se vão mas que o sinal permanece; porém, naquele tempo ainda não havia utensílios, nem mesmo as mãos, ou dentes, ou narizes, tudo isso que veio em seguida, só que muito tempo depois. Quanto à forma que se dá ao sinal, acharão não ser problema porque, seja qual for a forma que tenha, basta que um sinal sirva de sinal, quer dizer, que seja diverso ou mesmo igual aos outros sinais: também aqui estarão a falar depressa demais, pois naquela época não havia exemplos aos quais referir-me para saber se o fazia igual ou diverso de outro, não havia coisas que se pudessem copiar, nem mesmo uma linha reta ou curva que fosse, não se sabia o que era, nem um ponto, uma saliência ou reentrância. Tinha a intenção de fazer um sinal, isto sim, ou seja, tinha a intenção de considerar sinal uma coisa qualquer que me ocorresse fazer, donde tendo eu, naquele ponto do espaço e não em outro, feito algo com a intenção de fazer um sinal, resultou em verdade que acabei fazendo um sinal.
Em suma, por ter sido o primeiro sinal que se fazia no universo, ou pelo menos no circuito da Via Láctea, devo dizer que resultou muito bem. Visível? Sim, ora essa!, e quem tinha olhos para ver naqueles tempos? Nada havia jamais sido visto por alguém, isso nem se discutia. Que fosse reconhecível sem o risco de engano, isso sim; pelo fato de que todos os outros pontos do espaço eram iguais e indistinguíveis, ao passo que aquele tinha o sinal.
Assim, os planetas prosseguindo em seu giro, e o sistema solar no seu, bem logo deixei o sinal para trás, separado de mim por campos intermináveis de espaço. E já não conseguia impedir-me de pensar em quando voltaria a encontrá-lo, e como o reconheceria, e no prazer que me proporcionaria, naquela imensidão anônima, após cem mil anos-luz percorridos sem me confrontar com algo que me fosse familiar, nada ao longo de centenas de séculos, por milhares de milênios, voltar e encontrá-lo ali em seu lugar, tal como o havia deixado, nu e cru, mas com aquela marca — digamos — inconfundível que nele eu imprimira.
Lentamente a Via Láctea girava em redor de si mesma com suas franjas de constelações e planetas e nuvens, e o Sol com todo o resto, em direção ao bordo. Em todo aquele carrossel, só o sinal estava firme, num ponto qualquer, ao resguardo de todas as órbitas (para fazê-lo havia me inclinado para fora das margens da Galáxia, a fim de que ele ficasse ao largo e a rotação de todos aqueles mundos não lhe passasse por cima),num ponto qualquer que já não era qualquer a partir do momento em que era o único ponto a respeito do qual estávamos seguros de que se encontrava ali, e em relação ao qual se poderiam definir todos os outros pontos.
Pensava nisso dia e noite; mais ainda, não podia pensar em outra coisa, ou seja, era a primeira ocasião que tinha de pensar em alguma coisa; ou melhor, pensar em algo jamais havia sido possível, primeiro porque faltavam coisas em que se pudesse pensar, e segundo porque faltavam os sinais para pensá-las, mas, do momento em que havia o sinal, decorria a possibilidade de que ao pensar pensava-se num sinal, e portanto naquele, no sentido de que o sinal era a coisa em que se podia pensar e também o sinal da coisa pensada, ou seja, de si mesmo.
A situação era, portanto, esta: o sinal servia para assinalar um ponto, mas ao mesmo tempo assinalava que ali havia um sinal, algo ainda mais importante porquanto pontos havia muitos enquanto sinal só havia aquele, e ao mesmo tempo o sinal era o meu sinal, o sinal de mim, porque era o único sinal que eu já havia feito e eu o único desde sempre a fazer sinais. Era como um nome, o nome daquele ponto, e também o meu nome o que eu havia assinalado naquele ponto, enfim, era o único nome disponível por tudo quanto reclamasse um nome.
Transportado nos flancos da Galáxia, nosso mundo navegava além dos espaços longínquos, e o sinal lá estava onde o havia deixado para assinalar aquele ponto, e ao mesmo tempo assinalava a mim mesmo, trazia-o comigo, habitava-me, possuía-me inteiramente, intrometia-se entre mim e todas as coisas com as quais pudesse tentar relacionar-me. À espera de voltar a encontrá-lo, podia tentar dele extrair outros sinais ou combinações de sinais, séries de sinais iguais e contraposições de sinais diversos. Mas já haviam se passado dezenas e dezenas de milhares de milênios a partir do momento em que o havia traçado (ou antes: a partir dos poucos segundos em que o havia atirado ao contínuo movimento da Via Láctea) e exatamente agora, quando tinha necessidade de tê-lo presente em todos os seus particulares (a mínima incerteza sobre sua forma tornava incertas as possíveis distinções quanto a outros sinais eventuais), me dei conta de que, não obstante o tivesse em mente em seus contornos sumários, em sua aparência genérica, algo me escapava; em suma, se buscasse decompô-lo em seus vários elementos, já não me recordava se entre um elemento e outro era assim ou assado. Era preciso tê-lo ali na frente, estudá-lo, consultá-lo, mas em vez disso estava ainda não sabia quão longe, porque o fizera exatamente para saber o tempo que levaria para reencontrá-lo, e enquanto não o tivesse reencontrado não poderia saber. Além disso, todavia, não era o motivo por que o havia feito que me importava, mas como fora feito, e me pus a figurar hipóteses sobre esse como, e teorias segundo as quais um determinado sinal devia ser feito necessariamente de determinada maneira, ou procedendo por exclusões procurava eliminar todos os tipos de sinais menos prováveis para chegar àquele legítimo; no entanto, todos aqueles sinais imaginários desfaziam-se com uma facilidade inapreensível porque não havia aquele primitivo sinal a lhes servir de termo de comparação. Nesse atormentar-me (enquanto a Galáxia continuava a se revolver insone em seu leito de vácuo macio, como tomada pelo prurido de todos os mundos e átomos que se acendiam e irradiavam), compreendi que já havia perdido até aquela confusa noção do meu sinal e só conseguia conceber fragmentos de sinais intercambiáveis entre si, ou seja, sinais interiores ao sinal, e todas as mudanças desses sinais no interior do sinal transformavam o sinal num sinal completamente diverso, quer dizer, havia simplesmente esquecido como era o meu sinal e não havia modo de fazê-lo voltar-me à mente,
Desesperava-me? Não, o esquecimento era importuno, mas não irremediável. Fosse como fosse, sabia que o sinal estava lá a esperar-me, imóvel e silencioso. Quando chegasse, iria encontrá-lo e poderia retomar o fio dos meus raciocínios. Assim por alto, já devíamos ter chegado à metade do percurso de nossa revolução galáctica; tendo-se paciência, a segunda metade dá sempre a impressão de passar mais depressa. Agora não devia pensar em outra coisa senão em que o sinal existia e que eu iria passar por ele.
Um dia após outro, já agora devia estar próximo. Fremia de impaciência porque podia chocar-me com o sinal a cada instante. Era aqui, não, um pouco mais à frente, e agora conto até cem…E se não estivesse? Se já o tivesse passado? Nada. Meu sinal permanecia sabe-se lá onde, para trás, completamente fora de mão relativamente à órbita de revolução do nosso sistema. Não havia contado com as oscilações a que, mormente naqueles tempos, eram sujeitas as forças de gravidade dos corpos celestes e que os levavam a desenhar órbitas irregulares e recortadas como flores de dália. Por uma centena de milênios atormentei-me a refazer meus cálculos; decorreu que nosso percurso atingia aquele ponto não a cada ano galáctico, e sim apenas a cada três, ou seja, a cada seiscentos milhões de anos solares. Quem havia esperado duzentos milhões de anos bem podia esperar mais seiscentos; e esperei; o caminho era longo, mas enfim não o devia fazer a pé; na garupa da Galáxia percorria os anos-luz corcoveando sobre órbitas planetárias e estelares como na sela de um cavalo cujos cascos esguichassem centelhas; encontrava-me num estado de exaltação cada vez mais crescente; parecia avançar para a conquista da única coisa que contava para mim, sinal e reino e nome…
Fiz a segunda volta, a terceira. Lá estava eu. Lancei um grito. Num ponto que devia ser exatamente aquele ponto, em lugar de meu sinal havia um esfregaço informe, uma abrasão do espaço, deteriorada e carcomida. Perdera tudo: o sinal, o ponto, aquilo que fazia com que eu — sendo o autor daquele sinal naquele ponto — fosse de fato eu. O espaço, sem sinal, tornara-se uma voragem de vácuo sem princípio nem fim, nauseante, na qual tudo — eu inclusive — se perdia. (E não me venham dizer que, para assinalar um ponto, o meu sinal ou a obliteração de meu sinal davam na mesma: a obliteração era a negativa do sinal e, portanto, nada assinalava, ou seja, não servia para distinguir um ponto dos pontos precedentes ou subsequentes.)
O desalento tomou conta de mim e deixei-me arrastar durante muitos anos-luz como que privado de sentidos. Quando finalmente ergui os olhos (nesse ínterim, o sentido da visão havia começado em nosso mundo, e consequentemente também a vida), quando ergui os olhos vi ali algo que jamais esperava ver. Vi-o, o sinal, mas não aquele, um sinal semelhante, um sinal sem dúvida copiado do meu, mas que logo se percebia não poderia ser o meu, tosco que era, impreciso e absurdamente pretensioso, uma contrafação abjeta daquilo que eu havia pretendido assinalar com aquele sinal e cuja indizível pureza só agora conseguia — por contraste — revocar. Quem havia me pregado aquela peça? Não conseguia atinar com quem fosse. Por fim, uma corrente de vários milhões de induções levou-me à conclusão: num outro sistema planetário que realizava sua revolução galáctica em torno de nós, havia um certo sr. Kgwgk (o nome foi deduzido posteriormente, na época mais tardia dos nomes), tipo despeitado e roído pela inveja, que num impulso vandálico havia apagado meu sinal e depois tentara com grosseiro artifício fazer outro em seu lugar.
Estava claro que aquele sinal não assinalava outra coisa senão a intenção de Kgwgk de imitar o meu sinal, com o qual já não podia sequer compará-lo. Mas, naquele momento, o desejo de não admitir a vitória de meu rival prevaleceu em mim acima de qualquer outra consideração: quis logo traçar um novo sinal no espaço que representasse um verdadeiro sinal e fizesse Kgwgk morrer de inveja. Havia cerca de setecentos milhões de anos que já não experimentava mais fazer um sinal, desde aquele primeiro; voltei-me a isso com todo o afã. Mas já as coisas eram diversas, porque o mundo, como lhes havia mencionado, estava começando a dar uma imagem de si, e em cada coisa uma forma começava a corresponder a uma função, e acreditava-se que as tais formas teriam um longo futuro à sua frente (o que não era, no entanto, verdade: vejam — por exemplo, para citar um caso relativamente recente — os dinossauros),e, portanto, naquele meu novo sinal estavam sensíveis as influências de como eram vistas as coisas então, chamemo-lo o estilo, aquela maneira especial que cada coisa tinha de estar ali a seu modo. Devo dizer que me sentia satisfeito com isso, e já não me ocorria lamentar aquele primeiro sinal apagado, pois o novo me parecia imensamente mais belo.
Mas, já no decurso daquele ano galáctico, chegamos à compreensão de que até então as formas do mundo tinham sido provisórias e que iriam mudar uma por uma. E a esse entendimento seguiu-se um fastio pelas velhas imagens, de tal modo que não se podia nem mesmo suportar sua lembrança. E comecei a ser atormentado por um pensamento: tinha deixado aquele sinal no espaço, sinal que me parecera tão belo e original e adaptado à sua função, e que agora se me afigurava na memória em toda a sua pretensão despropositada, como sinal antes de mais nada de um modo antiquado de conceber os sinais, e de minha tola cumplicidade com uma ordem de coisas da qual deveria saber afastar-me a tempo. Em suma, envergonhava-me daquele sinal que continuava a ser abordado pelos mundos em vôo, dando um ridículo espetáculo de si e de mim e daquela maneira provisória de ver as coisas. Quando me recordava dele (e me recordava continuamente), ondas de rubor me subiam ao rosto durante eras geológicas inteiras; para esconder minha vergonha, mergulhava nas crateras dos vulcões, afundava dentes de remorso nas calotas das glaciações que cobriam os continentes. Era invadido pela ideia de que Kgwgk, precedendo-me sempre no périplo da Via Láctea, tivesse visto o sinal antes que eu o pudesse apagar, e grosseirão como era me poria em ridículo e me arremedaria, repetindo para depreciá-lo o sinal em caricaturas toscas por todos os ângulos da esfera circungaláctica.
Desta vez, entretanto, a complexa relojoaria astral saiu-me favorável. A constelação de Kgwgk não encontrou o sinal, ao passo que nosso sistema solar a ele retornou pontualmente ao cabo da primeira volta, tão em cima que tive meios de apagar tudo com o máximo cuidado.
Agora não havia nem um sinal sequer dos meus no espaço. Podia pôr-me a traçar outro, mas a partir de então percebi que os sinais servem também para que se possam julgar aqueles que os traçam, e que no espaço de um ano galáctico os gostos e as idéias têm tempo de mudar, e a maneira de considerar aquilo que vem antes depende do que vem depois; em suma, tinha medo de que isto que ora me podia parecer um sinal perfeito, daqui a duzentos ou seiscentos milhões de anos viesse a fazer uma péssima figura. Ao contrário, para meu desespero, o primeiro sinal, vandalicamente apagado por Kgwgk, continuava insensível às mutações dos tempos, pois havia nascido antes do início de todas as formas e devia conter algo que sobreviveria a todas elas, ou seja, o fato de ser um sinal e pronto.
Fazer sinais que não fossem aquele sinal já não tinha interesse para mim; e aquele sinal, já o tinha esquecido havia milhares de anos. Assim, não podendo fazer sinais verdadeiros mas querendo de qualquer forma escarnecer de Kgwgk, pus-me a fazer falsos sinais, marcas no espaço, buracos, manchas, ardis que só um incompetente como Kgwgk poderia tomar como sinais. Contudo, ele se empenhava em fazê-los desaparecer sob suas rasuras (como observei nas voltas subsequentes),com uma determinação que lhe seria cansativa.(Eu então espalhava aqueles falsos sinais pelo espaço, para ver até que ponto chegava a sua patetice.)
Ora, observando aquelas rasuras uma volta após outra (as revoluções da Galáxia haviam se tornado para mim um navegar preguiçoso e aborrecido, sem objetivo nem expectativas), dei-me conta de uma coisa: com o passar dos anos galácticos as rasuras tendiam a desbotar-se no espaço, e sob elas reflorescia o que eu traçara naquele exato ponto, o meu — como dizia — pseudo-sinal. A descoberta, longe de me desgostar, reacendeu-me a esperança. Se as rasuras de Kgwgk também se obliteravam, a primeira que ele fizera, lá naquele ponto, devia ter desaparecido e o meu sinal voltado à sua primitiva evidência!
Assim a espera voltou a encher de ânsia os meus dias. A Galáxia revirava-se como uma omelete em sua panela abrasada, ela própria uma panela fervente e dourada fritura; e eu frigia com ela de impaciência.
Mas com o passar dos anos galácticos o espaço já não era aquela extensão uniformemente árida e pálida. A ideia de marcar com sinais os pontos por onde se passava, assim como tinha vindo a mim e a Kgwgk, viera a muitos outros, espalhados por milhares de planetas de outros sistemas solares, e continuamente me defrontava com um desses tais, ou um par deles, ou sem mais nem menos com uma dúzia, simples garatujas bidimensionais, ou às vezes sólidos em três dimensões (por exemplo, poliedros), e também até com coisas feitas com mais capricho, em quatro dimensões e tudo. A verdade é que chego ao lugar do meu sinal e ali encontro cinco, todos juntos. E não me vejo em condições de reconhecer o meu. É este, não, é aquele outro, qual!, este tem um ar demasiadamente moderno e, no entanto, poderia ser o mais antigo, aqui não reconheço a minha mão, imaginem se me viria à mente fazê-lo dessa forma… E enquanto isso a Galáxia corria pelo espaço deixando atrás de si os velhos sinais e os sinais novos, e eu ficava sem encontrar o meu.
Não exagero se disser que os anos galácticos que se seguiram foram os piores que já vivi. Avançava a buscar, e no espaço acumulavam-se sinais que vinham de todos os mundos, pois quem quer que tivesse agora a possibilidade não deixava de marcar seu traço no espaço de um modo ou de outro, e o nosso mundo, cada vez que retornava a ele, encontrava-o cada vez mais repleto, tanto que o mundo e o espaço pareciam ser o espelho um do outro, um e outro minuciosamente historiados de hieróglifos e ideogramas, cada qual podendo ser um sinal ou não: uma concreção calcária no basalto, uma crista erguida pelo vento na areia coagulada do deserto, a disposição dos olhos nas plumas do pavão (aos poucos o viver entre sinais nos levava a tomar por sinais as inumeráveis coisas que antes lá estavam sem assinalar senão sua própria presença, e as havia transformado no sinal de si mesmas e as ajuntara à série de sinais feitos de propósito por quem queria fazer um sinal), as estrias do fogo contra uma parede de rocha xistosa, a quadringentésima vigésima sétima canelura — um pouco de viés — da cornija do frontão de um mausoléu, uma sequência de estrias num vídeo durante uma tempestade magnética (a série de sinais se multiplicava na série de sinais dos sinais, de sinais repetidos inumeráveis vezes sempre iguais e sempre de certo modo diferentes porque ao sinal feito de propósito se somava outro sinal ali chegado por acaso), a perna mal estampada de um R que num exemplar de um jornal da tarde se encontrava com uma escória filamentosa do papel, uma entre as oitocentas mil escoriações de um paredão alcatroado num interstício das docas de Melbourne, a curva de uma estatística, uma freada no asfalto, um cromossomo… De vez em quando, um sobressalto: é aquele ali!,e por um segundo estava seguro de haver reencontrado meu sinal, na Terra ou no espaço, tanto fazia, porque através dos sinais se havia estabelecido uma continuidade já desprovida de contornos nítidos.
No universo já não havia um continente e um conteúdo, mas apenas uma espessura geral de sinais sobrepostos e aglutinados que ocupava todo o volume do espaço, um salpicado contínuo, extremamente minucioso, uma retícula de linhas, arranhões, relevos e incisões; o universo estava garatujado em todas as suas partes e em todas as suas dimensões. Não havia mais como fixar um ponto de referência: a Galáxia continuava a girar, mas eu não conseguia mais contar seus giros, e qualquer ponto podia ser o de partida, qualquer sinal acavalado nos outros podia ser o meu, porém de nada me serviria descobri-lo, tão claro estava que independentemente dos sinais o espaço não existia e talvez nunca tivesse existido.

Italo Calvino, in Todas as Cosmicômicas

O prisma mágico de Peticov

Geomatrix 2 (2008), de Antonio Peticov

Capítulo 99 | Na Plateia

Na plateia achei o Lobo Neves, de conversa com alguns amigos; falamos por alto, a frio, constrangidos um e outro. Mas no intervalo seguinte, prestes a levantar o pano, encontramo-nos num dos corredores, em que não havia ninguém. Ele veio a mim, com muita afabilidade e riso, puxou-me a um dos óculos do teatro, e falamos muito, principalmente ele, que parecia o mais tranquilo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe pela mulher; respondeu que estava boa, mas torceu logo a conversação para assuntos gerais, expansivo, quase risonho. Adivinhe quem quiser a causa da diferença; eu fujo ao Damasceno que me espreita ali da porta do camarote.
Não ouvi nada do seguinte ato, nem as palavras dos atores, nem as palmas do público. Reclinado na cadeira, apanhava de memória os retalhos da conversação do Lobo Neves, refazia as maneiras dele, e concluía que era muito melhor a nova situação. Bastava-nos a Gamboa. A frequência da outra casa aguçaria as invejas. E rigorosamente podíamos dispensar-nos de falar todos os dias; era até melhor, metia a saudade de permeio nos amores. Ao demais, eu galgara os quarenta anos, e não era nada, nem simples eleitor de paróquia. Urgia fazer alguma coisa, ainda por amor de Virgília, que havia de ufanar-se quando visse luzir o meu nome... Creio que nessa ocasião houve grandes aplausos, mas não juro; eu pensava em outra coisa.
Multidão, cujo amor cobicei até à morte, era assim que eu me vingava às vezes de ti; deixava burburinhar em volta do meu corpo a gente humana, sem a ouvir, como o Prometeu de Esquilo fazia aos seus verdugos. Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua indiferença, ou da tua agitação? Frágeis cadeias, amiga minha; eu rompia-as de um gesto de Gulliver. Vulgar coisa é ir considerar no ermo.
O voluptuoso, o esquisito, é insular-se o homem no meio de um mar de gestos e palavras, de nervos e paixões, decretar-se alheado, inacessível, ausente. O mais que podem dizer, quando ele tomar a si, – isto é, quando toma aos outros, – é que baixa do mundo da lua; mas o mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cérebro, que outra coisa é senão a afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual? Vive Deus! eis um bom fecho de capítulo.

Machado de Assis, in Memórias Póstumas de Brás Cubas

O espelho


Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência, a que me induziram, alternadamente, séries de raciocínios e intuições. Tomou-me tempo, desânimos, esforços. Dela me prezo, sem vangloriar-me. Surpreendo-me, porém, um tanto à-parte de todos, penetrando conhecimento que os outros ainda ignoram. O senhor, por exemplo, que sabe e estuda, suponho nem tenha idéia do que seja na verdade — um espelho? Demais, decerto, das noções de física, com que se familiarizou, as leis da óptica. Reporto-me ao transcendente. Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.
Fixemo-nos no concreto. O espelho, são muitos, captando-lhe as feições; todos refletem-lhe o rosto, e o senhor crê-se com o aspecto próprio e praticamente imudado, do qual lhe dão imagem fiel. Mas — que espelho? Há-os “bons” e “maus”, os que favorecem e os que detraem; e os que são apenas honestos, pois não. E onde situar o nível e ponto dessa honestidade ou fidedignidade? Como é que o senhor, eu, os restantes próximos, somos, no visível? O senhor dirá: as fotografias o comprovam. Respondo: que, além de prevalecerem para as lentes das máquinas objeções análogas, seus resultados apóiam antes que desmentem a minha tese, tanto revelam superporem-se aos dados iconográficos os índices do misterioso. Ainda que tirados de imediato um após outro, os retratos sempre serão entre si muito diferentes. Se nunca atentou nisso, é porque vivemos, de modo incorrigível, distraídos das coisas mais importantes. E as máscaras, moldadas nos rostos? Valem, grosso modo, para o falquejo das formas, não para o explodir da expressão, o dinamismo fisionômico. Não se esqueça, é de fenômenos sutis que estamos tratando.
Resta-lhe argumento: qualquer pessoa pode, a um tempo, ver o rosto de outra e sua reflexão no espelho. Sem sofisma, refuto-o. O experimento, por sinal ainda não realizado com rigor, careceria de valor científico, em vista das irredutíveis deformações, de ordem psicológica. Tente, aliás, fazê-lo, e terá notáveis surpresas. Além de que a simultaneidade torna-se impossível, no fluir de valores instantâneos. Ah, o tempo é o mágico de todas as traições... E os próprios olhos, de cada um de nós, padecem viciação de origem, defeitos com que cresceram e a que se afizeram, mais e mais. Por começo, a criancinha vê os objetos invertidos, daí seu desajeitado tactear; só a pouco e pouco é que consegue retificar, sobre a postura dos volumes externos, uma precária visão. Subsistem, porém, outras pechas, e mais graves. Os olhos, por enquanto, são a porta do engano; duvide deles, dos seus, não de mim. Ah, meu amigo, a espécie humana peleja para impor ao latejante mundo um pouco de rotina e lógica, mas algo ou alguém de tudo faz frincha para rir-se da gente... E então?
Note que meus reparos limitam-se ao capítulo dos espelhos planos, de uso comum. E os demais — côncavos, convexos, parabólicos — além da possibilidade de outros, não descobertos, apenas, ainda? Um espelho, por exemplo, tetra ou quadridimensional? Parece-me não absurda, a hipótese. Matemáticos especializados, depois de mental adestramento, vieram a construir objetos a quatro dimensões, para isso utilizando pequenos cubos, de várias cores, como esses com que os meninos brincam. Duvida?
Vejo que começa a descontar um pouco de sua inicial desconfiança, quanto ao meu são juízo. Fiquemos, porém, no terra-a-terra. Rimo-nos, nas barracas de diversões, daqueles caricatos espelhos, que nos reduzem a mostrengos, esticados ou globosos. Mas, se só usamos os planos — e nas curvas de um bule tem-se sofrível espelho convexo, e numa colher brunida um concavo razoável — deve-se a que primeiro a humanidade mirou-se nas superfícies de água quieta, lagoas, lameiros, fontes, delas aprendendo a fazer tais utensílios de metal ou cristal. Tirésias, contudo, já havia predito ao belo Narciso que ele viveria apenas enquanto a si mesmo não se visse... Sim, são para se ter medo, os espelhos.
Temi-os, desde menino, por instintiva suspeita. Também os animais negam-se a encará-los, salvo as críveis excepções. Sou do interior, o senhor também; na nossa terra, diz-se que nunca se deve olhar em espelho às horas mortas da noite, estando-se sozinho. Porque, neles, às vezes, em lugar de nossa imagem, assombra-nos alguma outra e medonha visão. Sou, porém, positivo, um racional, piso o chão a pés e patas. Satisfazer-me com fantásticas não-explicações? — jamais. Que amedrontadora visão seria então aquela? Quem o Monstro?
Sendo talvez meu medo a revivescência de impressões atávicas? O espelho inspirava receio supersticioso aos primitivos, aqueles povos com a ideia de que o reflexo de uma pessoa fosse a alma. Via de regra, sabe-o o senhor, é a superstição fecundo ponto de partida para a pesquisa. A alma do espelho — anote-a — esplêndida metáfora. Outros, aliás, identificavam a alma com a sombra do corpo; e não lhe terá escapado a polarização: luz — treva. Não se costumava tapar os espelhos, ou voltá-los contra a parede, quando morria alguém da casa? Se, além de os utilizarem nos manejos da magia, imitativa ou simpática, videntes serviam-se deles, como da bola de cristal, vislumbrando em seu campo esboços de futuros fatos, não será porque, através dos espelhos, parece que o tempo muda de direção e de velocidade? Alongo-me, porém. Contava-lhe...
Foi num lavatório de edifício público, por acaso. Eu era moço, comigo contente, vaidoso. Descuidado, avistei... Explico-lhe: dois espelhos — um de parede, o outro de porta lateral, aberta em ângulo propício — faziam jogo. E o que enxerguei, por instante, foi uma figura, perfil humano, desagradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo. Deu-me náusea, aquele homem, causava-me ódio e susto, eriçamento, espavor. E era — logo descobri... era eu, mesmo! O senhor acha que eu algum dia ia esquecer essa revelação?
Desde aí, comecei a procurar-me — ao eu por detrás de mim — à tona dos espelhos, em sua lisa, funda lâmina, em seu lume frio. Isso, que se saiba, antes ninguém tentara. Quem se olha em espelho, o faz partindo de preconceito afetivo, de um mais ou menos falaz pressuposto: ninguém se acha na verdade feio: quando muito, em certos momentos, desgostamo-nos por provisoriamente discrepantes de um ideal estético já aceito. Sou claro? O que se busca, então, é verificar, acertar, trabalhar um modelo subjetivo, preexistente; enfim, ampliar o ilusório, mediante sucessivas novas capas de ilusão. Eu, porém, era um perquiridor imparcial, neutro absolutamente. O caçador de meu próprio aspecto formal, movido por curiosidade, quando não impessoal, desinteressada; para não dizer o urgir científico. Levei meses.
Sim, instrutivos. Operava com toda a sorte de astúcias: o rapidíssimo relance, os golpes de esguelha, a longa obliquidade apurada, as contra-surpresas, a finta de pálpebras, a tocaia com a luz de-repente acesa, os ângulos variados incessantemente. Sobretudo, uma inembotável paciência. Mirava-me, também, em marcados momentos — de ira, medo, orgulho abatido ou dilatado, extrema alegria ou tristeza. Sobreabriram-se-me enigmas. Se, por exemplo, em estado de ódio, o senhor enfrenta objetivamente a sua imagem, o ódio reflui e recrudesce, em tremendas multiplicações: e o senhor vê, então, que, de fato, só se odeia é a si mesmo. Olhos contra os olhos. Soube-o: os olhos da gente não têm fim. Só eles paravam imutáveis, no centro do segredo. Se é que de mim não zombassem, para lá de uma máscara. Porque, o resto, o rosto, mudava permanentemente. O senhor, como os demais, não vê que seu rosto é apenas um movimento deceptivo, constante. Não vê, porque mal advertido, avezado; diria eu: ainda adormecido, sem desenvolver sequer as mais necessárias novas percepções. Não vê, como também não se veem, no comum, os movimentos translativo e rotatório deste planeta Terra, sobre que os seus e os meus pés assentam. Se quiser, não me desculpe; mas o senhor me compreende.
Sendo assim, necessitava eu de transverberar o embuço, a travisagem daquela máscara, a fito de devassar o núcleo dessa nebulosa — a minha vera forma. Tinha de haver um jeito. Meditei-o. Assistiram-me seguras inspirações.
Concluí que, interpenetrando-se no disfarce do rosto externo diversas componentes, meu problema seria o de submetê-las a um bloqueio “visual” ou anulamento perceptivo, a suspensão de uma por uma, desde as mais rudimentares, grosseiras, ou de inferior significado. Tomei o elemento animal, para começo.
Parecer-se cada um de nós com determinado bicho, relembrar seu facies, é fato. Constato-o, apenas; longe de mim puxar à bimbalha temas de metempsicose ou teorias biogenéticas. De um mestre, aliás, na ciência de Lavater, eu me inteirara no assunto. Que acha? Com caras e cabeças ovinas ou equinas, por exemplo, basta-lhe relancear a multidão ou atentar nos conhecidos, para reconhecer que os há, muitos. Meu sósia inferior na escala era, porém — a onça. Confirmei-me disso. E, então, eu teria que, após dissociá-los meticulosamente, aprender a não ver, no espelho, os traços que em mim recordavam o grande felino. Atirei-me a tanto.
Releve-me não detalhar o método ou métodos de que me vali, e que revezavam a mais buscante análise e o estrênuo vigor de abstração. Mesmo as etapas preparatórias dariam para aterrar a quem menos pronto ao árduo. Como todo homem culto, o senhor não desconhece a Ioga, e já a terá praticado, quando não seja, em suas mais elementares técnicas. E, os “exercícios espirituais” dos jesuítas, sei de filósofos e pensadores incréus que os cultivam, para aprofundarem-se na capacidade de concentração, de par com a imaginação criadora... Enfim, não lhe oculto haver recorrido a meios um tanto empíricos: gradações de luzes, lâmpadas coloridas, pomadas fosforescentes na obscuridade. Só a uma expediência me recusei, por medíocre senão falseadora, a de empregar outras substâncias no aço e estanhagem dos espelhos. Mas, era principalmente no modus de focar, na visão parcialmente alheada, que eu tinha de agilitar-me: olhar não-vendo. Sem ver o que, em “meu” rosto, não passava de reliquat bestial. Ia-o conseguindo?
Saiba que eu perseguia uma realidade experimental, não uma hipótese imaginária. E digo-lhe que nessa operação fazia reais progressos. Pouco a pouco, no campo-de-vista do espelho, minha figura reproduzia-se-me lacunar, com atenuadas, quase apagadas de todo, aquelas partes excrescentes. Prossegui. Já aí, porém, decidindo-me a tratar simultaneamente as outras componentes, contingentes e ilusivas. Assim, o elemento hereditário — as parecenças com os pais e avós — que são também, nos nossos rostos, um lastro evolutivo residual. Ah, meu amigo, nem no ovo o pinto está intacto. E, em seguida, o que se deveria ao contágio das paixões, manifestadas ou latentes, o que ressaltava das desordenadas pressões psicológicas transitórias. E, ainda, o que, em nossas caras, materializa ideias e sugestões de outrem; e os efêmeros interesses, sem sequência nem antecedência, sem conexões nem fundura. Careceríamos de dias, para explicar-lhe. Prefiro que tome minhas afirmações por seu valor nominal.
À medida que trabalhava com maior mestria, no excluir, abstrair e abstrar, meu esquema perspectivo clivava-se, em forma meândrica, a modos de couve-flor ou bucho de boi, e em mosaicos, e francamente cavernoso, com uma esponja. E escurecia-se. Por aí, não obstante os cuidados com a saúde, comecei a sofrer dores de cabeça. Será que me acovardei, sem menos? Perdoe-me, o senhor, o constrangimento, ao ter de mudar de tom para confidência tão humana, em nota de fraqueza inesperada e indigna. Lembre-se, porém, de Terêncio. Sim, os antigos; acudiu-me que representavam justamente com um espelho, rodeado de uma serpente, a Prudência, como divindade alegórica. De golpe, abandonei a investigação. Deixei, mesmo, por meses, de me olhar em qualquer espelho.
Mas, com o comum correr quotidiano, a gente se aquieta, esquece-se de muito. O tempo, em longo trecho, é sempre tranquilo. E pode ser, não menos, que encoberta curiosidade me picasse. Um dia... Desculpe-me, não viso a efeitos de ficcionista, inflectindo de propósito, em agudo, as situações. Simplesmente lhe digo que me olhei num espelho e não me vi. Não vi nada. Só o campo, liso, às vácuas, aberto como o sol, água limpíssima, à dispersão da luz, tapadamente tudo. Eu não tinha formas, rosto? Apalpei-me, em muito. Mas, o invisto. O ficto. O sem evidência física. Eu era — o transparente contemplador?... Tirei-me. Aturdi-me, a ponto de me deixar cair numa poltrona.
Com que, então, durante aqueles meses de repouso, a faculdade, antes buscada, por si em mim se exercitara! Para sempre? Voltei a querer encarar-me. Nada. E, o que tomadamente me estarreceu: eu não via os meus olhos. No brilhante e polido nada, não se me espelhavam nem eles!
Tanto dito que, partindo para uma figura gradualmente simplificada, despojara-me, ao termo, até à total desfigura. E a terrível conclusão: não haveria em mim uma existência central, pessoal, autônoma? Seria eu um... des-almado? Então, o que se me fingia de um suposto eu, não era mais que, sobre a persistência do animal, um pouco de herança, de soltos instintos, energia passional estranha, um entrecruzar-se de influências, e tudo o mais que na impermanência se indefine? Diziam-me isso os raios luminosos e a face vazia do espelho — com rigorosa infidelidade. E, seria assim, com todos? Seríamos não muito mais que as crianças — o espírito do viver não passando de ímpetos espasmódicos, relampejados entre miragens: a esperança e a memória.
Mas, o senhor estará achando que desvario e desoriento-me, confundindo o físico, o hiperfísico e o transfísico, fora do menor equilíbrio de raciocínio ou alinhamento lógico — na conta agora caio. Estará pensando que, do que eu disse, nada se acerta, nada prova nada. Mesmo que tudo fosse verdade, não seria mais que reles obsessão auto-sugestiva, e o despropósito de pretender que psiquismo ou alma se retratassem em espelho...
Dou-lhe razão. Há, porém, que sou um mau contador, precipitando-me às ilações antes dos fatos, e, pois: pondo os bois atrás do carro e os chifres depois dos bois. Releve-me. E deixe que o final de meu capítulo traga luzes ao até agora aventado, canhestra e antecipadamente.
São sucessos muito de ordem íntima, de caráter assaz esquisito. Narro-os, sob palavra, sob segredo. Pejo-me. Tenho de demais resumi-los.
Pois foi que, mais tarde, anos, ao fim de uma ocasião de sofrimentos grandes, de novo me defrontei — não rosto a rosto. O espelho mostrou-me. Ouça. Por um certo tempo, nada enxerguei. Só então, só depois: o tênue começo de um quanto como uma luz, que se nublava, aos poucos tentando-se em débil cintilação, radiância. Seu mínimo ondear comovia-me, ou já estaria contido em minha emoção? Que luzinha, aquela, que de mim se emitia, para deter-se acolá, refletida, surpresa? Se quiser, infira o senhor mesmo.
São coisas que se não devem entrever; pelo menos, além de um tanto. São outras coisas, conforme pude distinguir, muito mais tarde — por último — num espelho. Por aí, perdoe-me o detalhe, eu já amava — já aprendendo, isto seja, a conformidade e a alegria. E... Sim, vi, a mim mesmo, de novo, meu rosto, um rosto; não este, que o senhor razoavelmente me atribui. Mas o ainda-nem-rosto — quase delineado, apenas — mal emergindo, qual uma flor pelágica, de nascimento abissal... E era não mais que: rostinho de menino, de menos-que-menino, só. Só. Será que o senhor nunca compreenderá?
Devia ou não devia contar-lhe, por motivos de talvez. Do que digo, descubro, deduzo. Será, se? Apalpo o evidente? Tresbusco. Será este nosso desengonço e mundo o plano — intersecção de planos — onde se completam de fazer as almas?
Se sim, a “vida” consiste em experiência extrema e séria; sua técnica — ou pelo menos parte — exigindo o consciente alijamento, o despojamento, de tudo o que obstrui o crescer da alma, o que a atulha e soterra? Depois, o “salto mortale”... — digo-o, do jeito, não porque os acrobatas italianos o aviventaram, mas por precisarem de toque e timbre novos as comuns expressões, amortecidas... E o julgamento-problema, podendo sobrevir com a simples pergunta: — “Você chegou a existir?”
Sim? Mas, então, está irremediavelmente destruída a concepção de vivermos em agradável acaso, sem razão nenhuma, num vale de bobagens? Disse. Se me permite, espero, agora, sua opinião, mesma, do senhor, sobre tanto assunto. Solicito os reparos que se digne dar-me, a mim, servo do senhor, recente amigo, mas companheiro no amor da ciência, de seus transviados acertos e de seus esbarros titubeados. Sim?

Guimarães Rosa, in Primeiras estórias