06/07/2021

Quase Nada

 

Tina Modotti

Quando quero me lembrar de Tina Modotti tenho que fazer um esforço como se tratasse de recolher um punhado de névoa. Frágil, quase invisível, conheci-a ou não?
Era muito bonita ainda: um pálido rosto oval emoldurado por duas abas negras de cabelos presos, uns grandes olhos de veludo que continuam olhando através dos anos. Diego Rivera deixou sua figura num de seus murais, aureolada por coroamentos vegetais e espigas de milho.
Esta revolucionária italiana, grande artista da fotografia, chegou à União Soviética há tempo com o propósito de retratar multidões e monumentos. Mas ali, envolta pelo transbordante ritmo da criação socialista, atirou sua câmara ao rio Moscova e jurou a si mesma dedicar sua vida às mais humildes tarefas do partido comunista. Cumprindo este juramento, conheci-a no México e a senti morrer naquela noite.
Foi em 1941. Seu marido era Vittorio Vidale, o célebre Comandante Carlos do 52 Regimento. Tina Modotti morreu de um ataque do coração no táxi que a conduzia para casa. Ela sabia que seu coração andava mal mas não contava a ninguém para que não lhe limitassem o trabalho revolucionário. Estava sempre disposta para o que ninguém queria fazer: varrer os escritórios, ir a pé aos lugares mais afastados, passar as noites em claro escrevendo cartas ou traduzindo artigos. Na guerra espanhola foi enfermeira para os feridos da República.
Tinha tido um episódio trágico em sua vida quando era companheira do grande dirigente juvenil cubano, Julio Antonio Mella, exilado então no México. O tirano Gerardo Machado deu ordem de Havana para que uns pistoleiros matassem o líder revolucionário. Iam saindo do cinema certa tarde. Tina de braço dado com Mella, quando este caiu sob uma rajada de metralhadora. Rolaram juntos pelo chão, ela salpicada pelo sangue de seu companheiro morto enquanto os assassinos fugiam altamente protegidos. E para cúmulo os mesmos funcionários policiais que protegeram os criminosos pretenderam culpar Tina Modotti pelo assassinato.
Doze anos mais tarde se esgotaram silenciosamente as forças de Tina Modotti. A reação mexicana intentou reviver a infâmia cobrindo de escândalo sua própria morte como antes a tinham querido envolver na morte de Mella. Enquanto isso, Carlos e eu velávamos o pequeno cadáver. Ver sofrer um homem tão forte e tão valente não é um espetáculo agradável. Aquele leão sangrava ao receber na ferida o veneno corrosivo da infâmia que queria manchar Tina Modotti uma vez mais, já morta. O Comandante Carlos rugia com os olhos avermelhados, Tina estava como que de cera em seu pequeno ataúde de exilada e eu calava, impotente diante de toda a angústia humana reunida naquela sala.
Os jornais enchiam páginas inteiras de imundícies folhetinescas. Chamavam-na “a mulher misteriosa de Moscou”, acrescentando alguns: “Morreu porque sabia demais.” Impressionado pela furiosa dor de Carlos tomei uma decisão. Escrevi um poema desafiante contra os que ofendiam nossa morta, mandando-o a todos os jornais, sem esperança alguma de que o publicassem. Oh milagre! No dia seguinte, em vez das novas e fabulosas revelações prometidas na véspera, apareceu em todas as primeiras páginas meu indignado e desabrido poema.
O poema se intitulava “Tina Modotti matou”. Li-o naquela manhã no cemitério do México, onde deixamos seu corpo, que jaz para sempre sob uma pedra de granito mexicano. Sobre essa pedra estão gravadas minhas estrofes.
Nunca mais a imprensa voltou a escrever uma linha contra ela.

Pablo Neruda, in Confesso que vivi

A unidade da vida

Se os vitorianos se ofenderam com a teoria da evolução de Darwin, que diz que somos descendentes de primatas, imagina se soubessem que nosso primeiro ancestral era muito mais primitivo do que isso, uma mera criatura unicelular, nada mais do que um micróbio. Sim, temos uma Eva microbial. Hoje, sabemos que todas as criaturas vivas dividem o mesmo ancestral, chamado LUCA, do inglês Last Universal Common Ancestor, último ancestral comum universal. Difícil imaginar uma visão mais unificada da vida: todas as criaturas vivas derivam diretamente de um ser unicelular, a raiz da complexa árvore da vida.
Se pudéssemos passar o filme da vida ao contrário, mergulhando gradativamente no passado distante, eventualmente encontraríamos esse ser peculiar na linha de partida, o protagonista individual de um drama que vem se desenrolando por aproximadamente 4 bilhões de anos. Muito possivelmente, existiram outras criaturas vivas antes do LUCA. Não sabemos exatamente quem eram ou quando existiram. Mas biólogos especializados no estudo de formas de vida primitiva conseguiram mapear a evolução de criaturas ancestrais em detalhe, um feito sensacional dadas as dificuldades de se encontrarem fósseis de criaturas que viveram no passado muito distante. No caso da vida muito primitiva, as pistas não vêm de ossos ou de fósseis impressos em rochas.
A evidência vem do DNA, o material genético encontrado nas células, responsável pela reprodução. Com isso, cientistas foram capazes de identificar o LUCA como um ser unicelular do tipo procariota (um micróbio com material genético sem uma membrana protetora), que viveu em torno de 3 bilhões de anos atrás. O organismo deve ter sido incrivelmente resistente, capaz de sobreviver em ambientes extremamente austeros. A árvore da vida é extremamente complexa. Se você examinar uma ilustração recente, publicada em um artigo do New York Times, descobrirá duas coisas surpreendentes: primeiro, que humanos e todos os outros animais são a minoria absoluta, um galhinho na parte direita inferior, parte dos eucariotas, os organismos cujas células têm o material genético protegido por uma membrana. (Os eucariotas incluem os animais, as plantas, os fungos e os protozoários.)
Segundo, que a maioria absoluta das criaturas vivas são bactérias. Perto dos eucariotas, você encontra as arqueias (do inglês, archaea), seres unicelulares capazes de sobreviver em ambientes extremos, como perto de ventas submarinas que jorram água fervendo, ou em pântanos praticamente sem oxigênio. A evidência acumulada até agora indica que o LUCA foi um tipo de arqueia. O biólogo evolucionário William Martin, da Universidade Heinrich Heine em Düsseldorf, na Alemanha, tentou achar sinais do LUCA escondidos nos genes de bactérias e arqueias. A tarefa não é nada fácil, pois organismos podem trocar genes ao evoluírem, tornando difícil distinguir genes que vieram de uma linhagem antiga daqueles que foram obtidos mais recentemente. (Pense numa família que tem um saco de dinheiro que vai passando de geração em geração, e que, de vez em quando, recebe uma nota nova.)
Para identificar os genes antigos, o cientista buscou genes que ocorrem em pelo menos dois tipos de bactérias e arqueias modernas. Com isso, poderia identificar os genes que foram de fato herdados de ancestrais distantes (notas velhas) e não adquiridos numa troca recente (nota nova). Depois de estudar 2 mil micróbios modernos, cujos genes foram sequenciados nas últimas duas décadas, o time de Martin descobriu 355 famílias de genes que aparecem frequentemente, sugerindo que têm uma origem comum. Analisando os genes em detalhe, Martin e seus colaboradores concluíram que o LUCA era uma criatura anaeróbica (que vive sem oxigênio) e termofílica (que gosta de ambientes quentes).
Em artigo da revista Nature, escreveram, LUCA habitava um ambiente geoquímico ativo, rico em gás de hidrogênio, dióxido de carbono e ferro. Os resultados são consistentes com a teoria de que os primeiros seres vivos eram autotróficos (capazes de se alimentar de compostos químicos inorgânicos) [...] habitando ventas hidrotermais. De acordo com esses resultados, o LUCA era uma criatura unicelular simples, que viveu onde a água do mar encontrava o magma que jorrava do interior da Terra, em ventas hidrotermais. Alguns cientistas criticaram os resultados de Martin, argumentando que a vida veio da terra firme e que apenas mais tarde migrou para ambientes submarinos para se proteger de condições austeras na superfície, como, por exemplo, impactos de meteoros, que eram muito frequentes até 3,9 bilhões de anos atrás.
Para resolver a disputa, seria necessário encontrar vestígios desse tipo de vida terrestre, uma tarefa muito difícil dada a idade das rochas e as transformações que passaram no decorrer de bilhões de anos. Sobra pouco, ou nada, da memória do passado distante. Mas ciência avança assim, de disputa em disputa, até que evidência conclusiva é acumulada a ponto de convencer a maioria dos membros da comunidade. No momento, a evidência que temos sugere que nossa Eva ancestral era um organismo unicelular extremamente resistente, que gostava de nadar em água muito quente e de comer compostos simples. Não poderíamos esperar menos do incrível organismo que evoluiu para se tornar todas as outras criaturas que já existiram. Isso sim é legado genético!

Marcelo Gleiser, in O caldeirão azul

Marisa Monte | Portas

A esfinge

Na volta da esquina encontrei a Esfinge. Petrifiquei-me. Ela me disse então, olhando-me nos olhos:
Devora-me ou decifro-te!

Mário Quintana, in Caderno H

Robert Louis Stevenson, "O pavilhão das dunas"

The pavillion on the links” é antes de mais nada a história de uma misantropia: uma misantropia juvenil, feita de autossuficiência e selvageria, misantropia que num jovem quer dizer sobretudo misoginia e que conduz o protagonista a cavalgar sozinho pelos brejos da Escócia, dormindo sob a tenda e nutrindo-se de porridge. Mas a solidão de um misantropo não abre muitas possibilidades narrativas: o conto nasce do fato de que os jovens misantropos ou misóginos são dois, e ambos se escondem, um espionando o outro, numa paisagem que por si só evoca a solidão e a selvageria.
Podemos dizer então que “The pavilion on the links” é a história da relação entre dois homens que se assemelham, quase dois irmãos, ligados por uma misantropia e misoginia comuns, e de como a amizade deles se transforma, por razões que permanecem misteriosas, em inimizade e luta. Mas nas tradições romanescas a rivalidade entre dois homens pressupõe uma mulher. E uma mulher que abra caminho no coração de dois misóginos deve ser objeto de um amor exclusivo e sem condições, a ponto de levar os dois a rivalizar em cavalheirismo e altruísmo. Será então uma mulher ameaçada por um perigo, por inimigos perante os quais os dois ex-amigos tornados rivais se vejam solidários e aliados mesmo na rivalidade amorosa.
Diremos então que “The pavilion on the links” é um grande jogo de esconde-esconde jogado por adultos: ocultam-se e vigiam-se os dois amigos, e o jogo deles tem a mulher como prêmio; e ocultam-se e vigiam-se os dois amigos e a mulher, por um lado, e os misteriosos inimigos por outro, num jogo em que se aposta a vida de uma quarta personagem que não tem outro papel além de esconder-se, numa paisagem que parece feita de propósito para esconder-se e vigiar-se.
Portanto, “The pavilion on the links” é a história que resulta de uma paisagem. Das dunas desoladas das costas escocesas não poderia nascer outra história senão de gente que se esconde e se vigia. Mas para pôr em evidência uma paisagem não existe sistema melhor que introduzir nela um elemento estranho e incongruente. E eis que Stevenson, para ameaçar suas personagens, faz aparecer entre os brejos e as areias em movimento da Escócia nada menos que a tenebrosa sociedade secreta italiana dos carbonários, com seus chapéus negros em forma de pão de açúcar.
Por aproximações e alternativas tratei de identificar não tanto o núcleo secreto desse conto — que, como acontece muitas vezes, tem mais de um — quanto mecanismo que assegura a sua “mordida” no leitor, seu fascínio que não diminui apesar da justaposição aproximativa de projetos e contos diferentes que Stevenson empreende e deixa cair. O mais forte deles é certamente o primeiro, o conto psicológico da relação entre os dois amigos-inimigos, quem sabe o primeiro esboço da história dos irmãos-inimigos em The master of Ballantrae, e que aqui só se insinua em definir-se numa contraposição ideológica: Northmour byroniano livre-pensador e Cassilis campeão das virtudes vitorianas. A segunda é uma narrativa sentimental, e é a mais fraca, com o peso de duas personagens convencionais a serem levadas adiante: a donzela modelo de todas a virtudes e o pai bancarroteiro fraudulento sordidamente avaro.
Acaba triunfando o terceiro motivo, o do romanesco puro, com o tema que desde o século XIX não sai de moda, da conspiração incontrolável que estende os tentáculos por todos os lados. Triunfa por vários motivos: porque a mão do Stevenson que representa com poucos traços a presença ameaçadora dos carbonários — do dedo que arranha no vidro molhado ao chapéu negro que esvoaça sobre as areias em movimento — é a mesma que (mais ou menos no mesmo período) representava a chegada dos piratas à estalagem Admiral Benbow da Ilha do tesouro. Depois, porque o fato de os carbonários, embora hostis e temíveis, desfrutarem da simpatia do autor, segundo a tradição romântica inglesa, e terem claramente razão contra o banqueiro odiado por todos introduz na complexa partida que está sendo jogada um contraste a mais, e mais convincente e eficaz que os outros: os dois amigos-rivais, aliados na defesa de Huddlestone por dever de honra, têm contudo a consciência do lado dos inimigos carbonários. E enfim porque estamos mais que nunca no espírito do jogo infantil, entre assédios, investidas, assaltos de bandos rivais.
A grande vantagem das crianças é saber retirar todas as sugestões e emoções do terreno que têm à disposição para seus jogos. Stevenson conservou esse dom: começa com a sugestão daquele pavilhão refinado que surge na natureza selvagem (em “estilo italiano”: já seria um anúncio da irrupção próxima de um elemento exótico e desconcertante?), depois a entrada clandestina na casa vazia, a descoberta da mesa pronta, o fogo aceso, as camas arrumadas, enquanto não se vê vivalma… um motivo de fábula transferido para o romance de aventuras.
Stevenson publicou “The pavilion on the links” no Cornhill Magazine, nos números de setembro e outubro de 1880; dois anos depois, em 1882, inseriu-o no volume New Arabian nights. Entre as duas edições existe uma diferença notável: na primeira, o conto figura como uma carta-testamento que um velho pai, sentindo aproximar-se a morte, deixa aos filhos para revelar-lhes um segredo de família: o modo pelo qual conheceu a mãe deles, já desaparecida; ao longo do texto, o narrador se dirige aos leitores com o vocativo “meus caros filhos”, chama a heroína de “vossa mãe”, “a vossa cara mamãe”, “a mãe de meus filhos”, e chama de “vosso avô” aquela sinistra personagem que era o pai dela. A segunda versão, aquela do livro, entra no calor da narração desde a primeira frase: “Quando jovem fui um grande solitário”; a heroína ali é indicada como “minha mulher” ou então com seu nome, Clara, e o velho como “seu pai” ou Huddlestone. Deveria ser uma daquelas mudanças que implicam todo um estilo diferente, ou melhor, uma natureza diferente do conto; ao contrário, as correções são mínimas: o corte do preâmbulo, das apóstrofes aos filhos, das expressões mais compungidas referindo-se à mãe; todo o restante permanece tal e qual. (Outras correções e cortes concernem ao velho Huddlestone, cuja infâmia na primeira versão, em vez de ser atenuada pela pietas familiar como seria de esperar, vinha acentuada. Talvez porque as convenções teatrais e romanescas tornavam bem natural que uma heroína angélica tivesse um pai sordidamente avarento, ao passo que o verdadeiro problema era o de fazer aceitar o fim atroz e não confortado por sepultura cristã de um parente, o que se justificava moralmente se o parente fosse um canalha de primeira.)
Segundo o organizador de uma edição recente na “Everyman’s Library”, M. R. Ridley, “The pavilion on the links” deve ser considerado um conto falido, as personagens não suscitam nenhum interesse no leitor: só a primeira versão, fazendo nascer a narrativa do âmago de um segredo familiar, consegue comunicar certo calor e tensão. Por isso, contrariamente à regra que pretende se considere definitiva a última edição corrigida pelo autor, M. R. Ridley recupera o texto na versão do Cornhill. Não nos sentimos obrigados a segui-lo. Em primeiro lugar não concordo com o juízo de valor: considero este conto um dos mais belos de Stevenson, e justamente na versão das New Arabian nights. Em segundo lugar, não estaria tão seguro da ordem de sequência entre as versões: penso antes em estratos diversos que acompanham as incertezas do jovem Stevenson. A abertura que o autor escolherá como definitiva é tão direta e dotada de força que imagino mais facilmente Stevenson começando a escrever com aquele estilo, seco e objetivo, como convém a uma história de aventuras. Indo adiante percebe que as relações entre Cassilis e Northmour são de uma complexidade que exige uma análise psicológica muito mais profunda do que aquela que ele pretende adotar e que por outro lado a história de amor com Clara lhe resulta fria e convencional; aí retrocede e recomeça a história, envolvendo-a numa cortina de fumaça de efeitos familiares; publica nessa versão o conto na revista; depois, insatisfeito com tais sobreposições afetadas, decide cortá-las, mas se deu conta de que para manter à distância a personagem feminina o melhor sistema é apresentá-la como conhecida e envolvê-la num respeito reverencial; por isso, adota a fórmula “minha mulher” ao invés de “vossa mãe” (exceto num ponto em que se esquece de corrigir e comete um pequeno deslize). São conjecturas minhas, que só uma pesquisa nos manuscritos poderia confirmar ou desmentir: do confronto entre as duas versões publicadas o único dado seguro que emerge é a incerteza do autor. Incerteza de algum modo conexa com o jogo de esconder-se consigo mesmo deste conto de uma infância que gostaria de prolongar-se mesmo bem ciente de que terminou.

Italo Calvino, in Por que ler os clássicos

05/07/2021

Explicação de poesia sem ninguém pedir

Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.

Adélia Prado

Street Art da dupla brasileira do Bicicleta Sem Freio, no Festival Estau, em Estarreja, Portugal

 

Sofrimento

Só aqui o sofrimento é sofrimento. Não como se aqueles que aqui sofrem devam ascender a outro lugar em função desse sofrimento, mas no sentido de que aquilo que neste mundo se chama sofrimento, em outro mundo, inalterado e tão-somente libertado do seu oposto, é êxtase.

Franz Kafka, in Aforismos reunidos

Capítulo VIII – Festa

 

Frame do filme Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos


Fabiano, Sinha Vitória e os meninos iam à festa de Natal na cidade. Eram três horas, fazia grande calor, redemoinhos espalhavam por cima das árvores amarelas nuvens de poeira e folhas secas.
Tinham fechado a casa, atravessado o pátio, descido a ladeira, e pezunhavam nos seixos como bois doentes dos cascos. Fabiano, apertado na roupa de brim branco feita por Sinha Terta, com chapéu de beata, colarinho, gravata, botinas de vaqueta e elástico, procurava erguer o espinhaço, o que ordinariamente não fazia. Sinha Vitória, enfronhada no vestido vermelho de ramagens, equilibrava-se mal nos sapatos de salto enorme. Teimava em calçar-se como as moças da rua – e dava topadas no caminho. Os meninos estreavam calça e paletó. Em casa sempre usavam camisinhas de riscado ou andavam nus. Mas Fabiano tinha comprado dez varas de pano branco na loja e incumbira Sinha Terta de arranjar farpelas para ele e para os filhos. Sinha Terta achara pouca a fazenda, e Fabiano se mostrara desentendido, certo de que a velha pretendia furtar-lhe os retalhos. Em consequência as roupas tinham saído curtas, estreitas e cheias de emendas.
Fabiano tentava não perceber essas desvantagens. Marchava direito, a barriga para fora, as costas aprumadas, olhando a serra distante. De ordinário olhava o chão, evitando as pedras, os tocos, os buracos e as cobras. A posição forçada cansou-o. E ao pisar a areia do rio, notou que assim não poderia vencer as três léguas que o separavam da cidade. Descalçou-se, meteu as meias no bolso, tirou o paletó, a gravata e o colarinho, roncou aliviado. Sinha Vitória decidiu imitá-lo: arrancou os sapatos e as meias, que amarrou no lenço. Os meninos puseram as chinelinhas debaixo do braço e sentiram-se à vontade.
A cachorra Baleia, que vinha atrás, incorporou-se ao grupo. Se ela tivesse chegado antes provavelmente Fabiano a teria enxotado. E Baleia passaria a festa junto às cabras que sujavam o copiar. Mas com a gravata e o colarinho machucados no bolso, o paletó no ombro e as botinas enfiadas num pau, o vaqueiro achou-se perto dela e acolheu-a.
Retomou a posição natural: andou cambaio, a cabeça inclinada. Sinha Vitória, os dois meninos e Baleia acompanharam-no. A tarde foi comida facilmente e ao cair da noite estavam na beira do riacho, à entrada da rua.
Aí Fabiano parou, sentou-se, lavou os pés duros, procurando retirar das gretas fundas o barro que lá havia. Sem se enxugar, tentou calçar-se – e foi uma dificuldade: os calcanhares das meias de algodão formaram bolos nos peitos dos pés e as botinas de vaqueta resistiram como virgens. Sinha Vitória levantou a saia, sentou-se no chão e limpou-se também. Os dois meninos entraram no riacho, esfregaram os pés, saíram, calçaram as chinelinhas e ficaram espiando os movimentos dos pais. Sinha Vitória aprontava-se e erguia-se, mas Fabiano soprava arreliado. Tinha vencido a obstinação de uma daquelas amaldiçoadas botinas; a outra emperrava, e ele, com os dedos nas alças, fazia esforços inúteis. Sinha Vitória dava palpites que irritavam o marido. Não havia meio de introduzir o diabo do calcanhar no tacão. A um arranco mais forte, a alça de trás rebentou-se, e o vaqueiro meteu as mãos pela borracha, energicamente. Nada conseguindo, levantou-se resolvido a entrar na rua assim mesmo, coxeando, uma perna mais comprida que a outra. Com raiva excessiva, a que se misturava alguma esperança, deu uma patada violenta no chão. A carne comprimiu-se, os ossos estalaram, a meia molhada rasgou-se e o pé amarrotado se encaixou entre as paredes de vaqueta. Fabiano soltou um suspiro largo de satisfação e dor. Em seguida tentou prender o colarinho duro ao pescoço, mas os dedos trêmulos não realizaram a tarefa. Sinha Vitória auxiliou-o: o botão entrou na casa estreita e a gravata amarrou-se. As mãos sujas, suadas, deixaram no colarinho manchas escuras.
Está certo, grunhiu Fabiano.
Atravessaram a pinguela e alcançaram a vila. Sinha Vitória caminhava aos tombos, por causa dos saltos dos sapatos, e conservava o guarda-chuva suspenso, com o castão para baixo e a biqueira para cima, enrolada no lenço. Impossível dizer porque Sinha Vitória levava o guarda-chuva com biqueira para cima e o castão para baixo. Ela própria não saberia explicar-se, mas sempre vira as outras matutas procederem assim e adotava o costume.
Fabiano marchava teso. Os dois meninos espiavam os lampiões e adivinhavam casos extraordinários. Não sentiam curiosidade, sentiam medo, e por isso pisavam devagar, receando chamar a atenção das pessoas. Supunham que existiam mundos diferentes da fazenda, mundos maravilhosos na serra azulada. Aquilo, porém, era esquisito. Como podia haver tantas casas e tanta gente? Com certeza os, homens iriam brigar. Seria que o povo ali era brabo e não consentia que eles andassem entre as barracas? Estavam acostumados a aguentar cascudos e puxões de orelhas. Talvez as criaturas desconhecidas não se comportassem como Sinha Vitória, mas os pequenos retraíam-se, encostavam-se às paredes, meio encandeados, os ouvidos cheios de rumores estranhos.
Chegaram à igreja, entraram. Baleia ficou passeando na calçada, olhando a rua, inquieta. Na opinião dela, tudo devia estar no escuro, porque era noite, e a gente que andava no quadro precisava deitar-se. Levantou o focinho, sentiu um cheiro que lhe deu vontade de tossir. Gritavam demais ali perto e havia luzes em abundância, mas o que a incomodava era aquele cheiro de fumaça.
Os meninos também se espantavam. No mundo, subitamente alargado, viam Fabiano e Sinha Vitória muito reduzidos, menores que as figuras dos altares. Não conheciam altares, mas presumiam que aqueles objetos deviam ser preciosos. As luzes e os cantos extasiavam-nos. De luz havia, na fazenda, o fogo entre as pedras da cozinha e o candeeiro de querosene pendurado pela asa numa vara que saía da taipa; de canto, o bendito de Sinha Vitória e o aboio de Fabiano. O aboio era triste, uma cantiga monótona e sem palavras que entorpecia o gado. Fabiano estava silencioso, olhando as imagens e as velas acesas, constrangido na roupa nova, o pescoço esticado, pisando, em brasas. A multidão apertava-o mais que a roupa, embaraçava-o. De perneiras, gibão e guarda-peito, andava metido numa caixa, como tatu, mas saltava no lombo de um bicho e voava na catinga. Agora não podia virar-se: mãos e braços roçavam-lhe o corpo. Lembrou-se da surra que levara e da noite passada na cadeia. A sensação que experimentava não diferia muito da que tinha tido ao ser preso. Era como se as mãos e os braços da multidão fossem agarrá-lo, subjugá-lo, espremê-lo num canto de parede. Olhou as caras em redor. Evidentemente as criaturas que se juntavam ali não o viam, mas Fabiano sentia-se rodeado de inimigos, temia envolver-se em questões e acabar mal a noite. Soprava e esforçava-se inutilmente por abanar-se com o chapéu. Difícil mover-se, estava amarrado. Lentamente conseguiu abrir caminho no povaréu, esgueirou-se até junto da pia de água benta, onde se deteve, receoso de perder de vista a mulher e os filhos. Ergueu-se nas pontas dos pés, mas isto lhe arrancou um grunhido: os calcanhares esfolados começavam a afligi-lo. Distinguiu o cocó de Sinha Vitória, que se escondia atrás de uma coluna. Provavelmente os meninos estavam com ela. A igreja cada vez mais se enchia. Para avistar a cabeça da mulher, Fabiano precisava estirar-se, voltar o rosto. E o colarinho furava-lhe o pescoço. As botinas e o colarinho eram indispensáveis. Não poderia assistir à novena calçado em alpercatas, a camisa de algodão aberta, mostrando o peito cabeludo. Seria desrespeito. Como tinha religião, entrava na igreja uma vez por ano.
E sempre vira, desde que se entendera, roupas de festa assim: calça e paletó engomados, batinas de elástico, chapéu de baeta, colarinho e gravata. Não se arriscaria a prejudicar a tradição, embora sofresse com ela. Supunha cumprir um dever, tentava aprumar-se. Mas a disposição esmorecia: o espinhaço vergava, naturalmente, os braços mexiam-se desengonçados.
Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. Só lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa. Os negociantes furtavam na medida, no preço e na conta. O patrão realizava com pena e tinta cálculos incompreensíveis. Da última vez que se tinham encontrado houvera uma confusão de números, e Fabiano, com os miolos ardendo, deixara indignado o escritório do branco, certo de que fora enganado. Todos lhe davam prejuízo. Os caixeiros, os comerciantes e o proprietário tiravam-lhe o couro, e os que não tinham negócio com ele riam vendo-o passar nas ruas, tropeçando. Por isso Fabiano se desviava daqueles viventes. Sabia que a roupa nova cortada e cosida por Sinha Terta, o colarinho, a gravata, as botinas e o chapéu de baeta o tornavam ridículo, mas não queria pensar nisto.
Preguiçosos, ladrões, faladores, mofinos.
Estava convencido de que todos os habitantes da cidade eram ruins. Mordeu os beiços. Não poderia dizer semelhante coisa. Por falta menor aguentara facão e dormira na cadeia. Ora, o soldado amarelo... Sacudiu a cabeça, livrou-se da recordação desagradável e procurou uma cara amiga na multidão. Se encontrasse um conhecido, iria chamá-lo para a calçada, abraçá-lo, sorrir, bater palmas. Depois falaria sobre gado. Estremeceu, tentou ver o cocó de Sinha Vitória. Precisava ter cuidado para não se distanciar da mulher e dos filhos. Aproximou-se deles, alcançou-os no momento em que a igreja começava a esvaziar-se. Estava convencido de que todos os habitantes da cidade eram ruins. Mordeu os beiços. Não poderia dizer semelhante coisa. Por falta menor aguentara facão e dormira na cadeia. Ora, o soldado amarelo... Sacudiu a cabeça, livrou-se da recordação desagradável e procurou uma cara amiga na multidão. Se encontrasse um conhecido, iria chamá-lo para a calçada, abraçá-lo, sorrir, bater palmas. Depois falaria sobre gado. Estremeceu, tentou ver o cocó de Sinha Vitória. Precisava ter cuidado para não se distanciar da mulher e dos filhos. Aproximou-se deles, alcançou-os no momento em que a igreja começava a esvaziar-se.
Saíram aos encontrões, desceram os degraus. Empurrado, machucado, Fabiano tornou a pensar no soldado amarelo. No quadro, ao passar pelo jatobá, - virou o rosto. Sem motivo nenhum, o desgraçado tinha ido provocá-lo, pisar-lhe o pé. Ele se desviara, com bons modos. Como o outro insistisse, perdera a paciência, tivera um rompante. Consequência: facão no lombo e uma noite de cadeia.
Convidou a mulher e os filhos para os cavalinhos, arrumou-os, distraiu-se um pouco vendo-os rodar. Em seguida encaminhou-os as barracas de jogo. Coçou-se, puxou o lenço, desatou-o, contou o dinheiro, com a tentação de arriscá-lo no bozó. Se fosse feliz, poderia comprar a cama de couro cru, a sonho de Sinha Vitória. Foi beber cachaça numa tolda, voltou, pôs-se a rondar indeciso, pedindo com os olhos a opinião da mulher. Sinha Vitória fez um gesto de reprovação, e Fabiano retirou-se, lembrando-se do jogo que tivera em casa de seu Inácio, com o soldado amarelo. Fora roubado, com certeza fora roubado. Avizinhou-se da tolda e bebeu mais cachaça. Pouca a pouco ficou sem-vergonha.
Festa é festa.
Bebeu ainda uma vez e empertigou-se, olhou as pessoas desafiando-as. Estava resolvido a fazer uma asneira. Se topasse o soldado amarelo, esbodegava-se com ele. Andou entre as barracas, emproado, atirando coices no chão, insensível às esfoladuras dos pés. Queria era desgraçar-se, dar um pano de amostra àquele safado. Não ligava importância à mulher e aos filhos, que o seguiam.
Apareça um homem! berrou.
No barulho que enchia a praça ninguém notou a provocação. E Fabiano foi esconder-se por detrás das barracas, para lá dos tabuleiros de doces. Estava disposto a esbagaçar-se, mas havia nele um resto de prudência. Ali podia irritar-se, dirigir ameaças e desaforos a inimigos invisíveis. Impelido por forças acautelava-se. Sabia que aquela explosão era perigosa, temia que o soldado amarelo surgisse de repente, viesse plantar-lhe no pé a reiúna. O soldado amarelo, falto de substância, ganhava fumaça na companhia dos parceiros. Era bom evitá-lo. Mas a lembrança dele tornava-se às vezes horrível. E Fabiano estava tirando uma desforra. Estimulado pela cachaça, fortalecia-se: – Cadê o valente? Quem é que tem coragem de dizer que eu sou feio? Apareça um homem.
Lançava o desafio numa fala atrapalhada, com o vago receio de ser ouvido. Ninguém apareceu. E Fabiano roncou alto, gritou que eram todos uns frouxos, uns capados, sim senhor. Depois de muitos berros, supôs que havia ali perto homens escondidos, com medo dele. Insultou-os: – Cambada de...
Parou agoniado, suando frio, a boca cheia de água, sem atinar com a palavra. Cambada de quê? Tinha o nome debaixo da língua., E a língua engrossava, perra, Fabiano cuspia, fixava na mulher e nos filhos uns olhos vidrados. Recuou alguns passos, entrou a engulhar. Em seguida aproximou-se novamente das luzes, capengando, foi sentar-se na calçada de uma loja. Betava desanimado, bambo; o entusiasmo arrefecera. Cambada de que? Repetia a pergunta sem saber o que procurava. Olhou de perto a cara da mulher, não conseguiu distinguir-lhe os traços. Sinha Vitória perceberia a atrapalhação dele?
Havia ali outros matutos conversando, e Fabiano enjoou-os. Se não estivesse tão ansiado, arrotando, suando, brigaria com eles. A interrogação que lhe aperreava o espírito confuso juntou-se a ideia de que aquelas pessoas não tinham o direito de sentar-se na calçada. Queria que o deixassem com a mulher, os filhos e a cachorrinha. Cambada de quê? Soltou um grito áspero, bateu palmas: – Cambada de cachorros.
Descoberta a expressão teimosa, alegrou-se. Cambada de cachorros. Evidentemente os matutos como ele não passavam de cachorros. Procurou com as mãos a mulher e os filhos, certificou-se de que eles estavam acomodados. Uma contração violenta no pescoço entortou-lhe o rosto, a boca encheu-se novamente de saliva. Pôs-se a cuspir. Serenou, respirou com força, passou os dedos por um fio de baba que lhe pendia de beiço. Estava era tonto, com uma zoada infeliz nos ouvidos. Ia jurar que mostrara valentia e correra perigo. Achava ao mesmo tempo que havia cometido uma falta. Agora estava pesado e com sono. Enquanto andara fazendo espalhafato, a cabeça cheia de aguardente, desprezara as esfoladuras dos pés. Mas esfriava, e as botinas de vaqueta magoavam-nos em demasia. Arrancou-as, tirou as meias, libertou-se do colarinho, da gravata e do paletó, enrolou tudo, fez um travesseiro, estirou-se no cimento, puxou para os olhos o chapéu de baeta. E adormeceu, com o estômago embrulhado. Sinha Vitória achava-se em dificuldade: torcia-se para satisfazer uma precisão e não sabia como se desembaraçar. Podia esconder-se no fundo do quadro, por detrás das barracas, para lá dos tamboretes das doceiras. Ergueu-se meio decidida, tornou a acocorar-se. Abandonar os meninos, o marido naquele estado? Apertou-se e observou os quatro cantos com desespero, que a precisão era grande. Escapuliu-se disfarçadamente, chegou a esquina da loja, onde havia um magote de mulheres agachadas. E, olhando as frontarias das casas e as lanternas de papel, molhou o chão e os pés das outras matutas. Arrastou-se para junto da família, tirou do bolso o cachimbo de barro, atochou-o, acendeu-o, largou algumas baforadas longas de satisfação. Livre da necessidade, viu com interesse o formigueiro que circulava na praça, a mesa do leilão, as listas luminosas dos foguetes. Realmente a vida não era má. Pensou com um arrepio na seca, na viagem medonha que fizera em caminhos abrasados, vendo ossos e garranchos. Afastou a lembrança ruim, atentou naquelas belezas. O burburinho da multidão era doce, o realejo fanhoso dos cavalinhos não descansava. Para a vida ser boa, só faltava à Sinha Vitória uma cama igual à de seu Tomás da bolandeira. Suspirou, pensando na cama de varas em que dormia. Ficou ali de cócoras, cachimbando, os olhos e os ouvidos muito abertos para não perder a festa. Os meninos trocavam impressões cochichando, aflitos com o desaparecimento da cachorra. Puxaram a manga da mãe. Que fim teria levado Baleia? Sinha Vitória levantou o braço num gesto mole e indicou vagamente dois pontos cardeais com o canudo do cachimbo. Os pequenos insistiram. Onde estaria a cachorrinha? Indiferentes à igreja, às lanternas de papel, aos bazares, às mesas de jogo e aos foguetes, só se importavam com as pernas dos transeuntes. Coitadinha, andava por aí perdida aguentando pontapés.
De repente Baleia apareceu. Trepou-se na calçada, mergulhou entre as saias das mulheres, passou por cima de Fabiano e chegou-se aos amigos, manifestando com a língua e com o rabo um vivo contentamento. O menino mais velho agarrou-a. Estava segura. Tentaram explicar-lhe que tinham tido susto enorme por causa dela, mas Baleia não ligou importância à explicação. Achava é que perdiam tempo num lugar esquisito, cheio de odores desconhecidos. Quis latir, expressar oposição a tudo aquilo, mas percebeu que não convenceria ninguém e encolheu-se, baixou a cauda, resignou-se ao capricho dos seus donos.
A opinião dos meninos assemelhava-se à dela. Agora olhavam as lojas, as toldas, a mesa do leilão. E conferenciavam pasmados. Tinham percebido que havia muitas pessoas no mundo. Ocupavam-se em descobrir uma enorme quantidade de objetos. Comunicaram baixinho um ao outro as surpresas que os enchiam. Impossível imaginar tantas maravilhas juntas. O menino mais novo teve uma dúvida e apresentou-a timidamente ao irmão. Seria que aquilo tinha sido feito por gente? O menino mais velho hesitou, espiou as lojas, as toldas iluminadas, as moças bem vestidas. Encolheu os ombros. Talvez aquilo tivesse sido feito por gente. Nova dificuldade chegou-lhe ao espírito soprou-a no ouvido do irmão. Provavelmente aquelas coisas tinham nomes. O menino mais novo interrogou-o com os olhos. Sim, com certeza as preciosidades que se exibiam nos altares da igreja e nas prateleiras das lojas tinham nomes. Puseram-se a discutir a questão intrincada.
Como podiam os homens guardar tantas palavras? Era impossível, ninguém conservaria tão grande soma de conhecimentos. Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas. Não tinham sido feitas por gente. E os indivíduos que mexiam nelas cometiam imprudência. Vistas de longe, eram bonitas. Admirados e medrosos, falavam baixo para não desencadear as forças estranhas que elas porventura encerrassem.
Baleia cochilava, de quando em quando balançava a cabeça e franzia o focinho. A cidade se enchera de suores que a desconcertavam.
Sinha Vitória enxergava, através das barracas, a cama de seu Tomás da bolandeira, uma cama de verdade.
Fabiano roncava de papo para cima, as abas do chapéu cobrindo-lhe os olhos, o quengo sobre as botinas de vaqueta. Sonhava, agoniado, e Baleia percebia nele um cheiro que o tornava irreconhecível. Fabiano se agitava, soprando. M Muitos soldados amarelos tinham aparecido, pisavam-lhe os pés com enormes reiúnas e ameaçavam-no com facões terríveis.

Graciliano Ramos, in Vidas Secas

Mariana Aydar (part. Maria Gadú) / Triste, Louca ou Má

Senhor Firmino

Meu pai, quando rico, era uma festa. Os amigos eram muitos nos jantares, nas festas, nas viagens ao Rio. Ficou pobre, os amigos sumiram. A Cecília Meireles escreveu no Cancioneiro da Inconfidência: “Quando a desgraça é profunda, que amigo se compadece?”. Há dois tipos de pobreza. Primeiro, a pobreza dos pobres que sempre foram pobres. É uma pobreza natural, que não pede nada, no máximo uma esmola, um quilo de arroz, uma roupa velha. Roceiro pobre vira poesia, vira quadro... Segundo, a pobreza daquele que já foi rico. Essa pobreza é trágica. Acho que é porque o pobre que sempre foi pobre não tem vergonha da sua pobreza. Mas o pobre que já foi rico é um homem humilhado. Então, não é só a dor da pobreza. É a dor da humilhação. Parte da humilhação são os amigos que desaparecem. Nem o padre, pastor de almas, jamais nos visitou. Camilo Castelo Branco passou por experiência parecida e escreveu um soneto: Tinha tido muitos amigos. Julgava-se o mais ditoso dos homens. Mas chegou a velhice e com ela a desgraça:

Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver...
Que cento e dez impávidos marotos!

Aí aconteceu uma coisa inesperada. Começou a nos visitar um desconhecido, o senhor Firmino. Era um evangelista protestante. A desgraça do meu pai era notícia, assunto de conversa nas esquinas, chegou a ser manchete do jornal O Estado de Minas. O senhor Firmino ficou sabendo daquele homem abandonado. Que extraordinária vocação essa de sair em busca dos solitários e tristes para lhes falar de Jesus! Não me lembro de nada do que ele falava. Lembro-me dos hinos bonitos que ele ensinava. Um deles era sobre um homem com sobrenome estranho, um tal de João Totrono. Só depois de grande descobri que não se tratava de um homem de sobrenome estranho. O João Totrono era “Junto ao trono de Deus, preparado tens, ó Cristão, um lugar para ti...”. De vez em quando o hino se canta na minha cabeça. E volto à sala onde o senhor Firmino pregava àquela pequena congregação...
Acho que foi assim que se iniciou a relação de minha família com o protestantismo. Não foi conversão, experiência espiritual ou iluminação. Minha mãe até o fim da vida toda noite rezava a “Ave-Maria” antes de dormir. E meu pai nunca levou as coisas de religião a sério. Há pessoas que se convertem por causa de uma grande experiência espiritual solitária. Outros não se convertem: apenas se mudam da sua solidão para uma comunidade que os acolha. O que a comunidade pensa não importa muito. A experiência de pertencer, de não estar sozinho, é tão gratificante que é capaz de digerir qualquer ideia esquisita. Chupado com amigos, o limão é doce. Acho que foi isso que aconteceu. Primeiro, a presença fiel do senhor Firmino. Depois, a comunidade maior, os protestantes. Eles tinham uma grande escola em Lavras, internato famoso para o qual as famílias ricas do Brasil inteiro enviavam seus filhos e filhas. Mas a relação da minha família com os protestantes do Instituto Gammon era muito mais antiga. Mas isso é uma outra estória…

Rubem Alves, in O velho que acordou menino

Reprodução

O ritmo lento que regula a vida das árvores também fica evidente no momento em que vão se reproduzir, pois para isso elas se planejam com, no mínimo, um ano de antecedência. Cada espécie tem uma forma de funcionamento. Assim, algumas florescem toda primavera enquanto outras não. Por exemplo, enquanto as coníferas procuram espalhar sementes todo ano, as árvores frondosas buscam outra estratégia. Elas entram em sincronia e decidem se vão florescer na primavera seguinte ou esperar mais um ou dois anos.
Árvores de floresta gostam de florescer todas ao mesmo tempo, pois assim seus genes podem se misturar bem. É o que acontece com as coníferas, mas as árvores frondosas da Europa têm outro motivo para adotar essa tática: os javalis e os cervos, animais que adoram os frutos da faia e do carvalho, alimentos que os ajudam a formar uma camada grossa de gordura para suportarem o inverno. Na composição desses frutos há até 50% de óleos e amido – nenhum outro alimento tem um percentual tão alto a oferecer.
Durante o outono, os animais percorrem florestas inteiras atrás desses frutos, e na primavera não resta quase nenhum broto para germinar. Por isso as árvores entram em sincronia. Se elas não florescem todos os anos, os javalis e os cervos ficam sem esse alimento e sua reprodução acaba sendo limitada, pois as fêmeas prenhes precisam aguentar o longo inverno sem comida, e muitas não sobrevivem. Dessa forma, se as faias ou os carvalhos florescerem e derem frutos todos ao mesmo tempo, os poucos herbívoros que restam não conseguirão comer todos os brotos. Sobrarão sementes suficientes para haver germinação. Nos anos de reprodução das árvores, os javalis conseguem triplicar sua taxa de nascimentos, pois encontram alimento suficiente durante o inverno.
Antigamente, os camponeses aproveitavam que os frutos caíam e levavam seus porcos para a floresta, no intuito de engordá-los e formar uma boa camada de gordura antes de abatê-los. Quando isso acontecia, no ano seguinte a população de javalis normalmente voltava a cair, porque as árvores não se reproduziam, e o solo da floresta ficava vazio.
Esse florescimento em intervalos de vários anos também traz graves consequências para os insetos, especialmente as abelhas, pois elas sofrem do mesmo problema que os javalis: uma pausa de muitos anos no florescimento faz sua população entrar em colapso. Ou melhor, faria, pois as abelhas não conseguem formar grandes populações em florestas de árvores frondosas. O motivo: as florestas não dão a mínima para as pequenas ajudantes. De que adiantam algumas polinizadoras se milhões de flores se abrem por centenas de quilômetros quadrados? Dessa forma, as árvores precisam recorrer a uma estratégia mais confiável e que não exija nenhum tributo. E não há nada mais natural do que o vento dar essa ajuda, pois ele carrega o pólen das flores até as árvores vizinhas. As lufadas de vento ainda têm outra vantagem: sopram em temperaturas mais baixas, às vezes abaixo de 12oC, temperatura fria demais para as abelhas, que permanecem na colmeia.
Provavelmente também é por isso que as coníferas se valem dos ventos para a reprodução. Mas a verdade é que não necessitam dessa estratégia, pois florescem quase todo ano. E não precisam ter medo dos javalis, pois as pequenas nozes de abetos e outras árvores desse tipo não representam uma boa fonte de nutrientes. Até existem espécies de pássaros que se alimentam dos frutos das coníferas, como o cruza-bico, que, como o nome já diz, tira os frutos dos galhos com a ponta do bico forte e cruzado nas extremidades e come as sementes. No entanto, considerando a quantidade geral de frutos, os pássaros não são um grande problema. E como quase nenhum animal gosta de usar as sementes das coníferas como reserva para o inverno, elas soltam suas sementes, que contam com mecanismos que as permitem cair devagar e ser levadas pelo vento.
Como se quisessem superar as árvores frondosas na reprodução, as coníferas liberam uma quantidade imensa de pólen. O volume é tão grande que, na época do florescimento, a menor brisa levanta nuvens de poeira colossais sobre as florestas de coníferas, dando a impressão de que está havendo um incêndio debaixo das copas e a fumaça está subindo.
Com uma situação tão caótica, surge a pergunta: é possível evitar a reprodução consanguínea (entre indivíduos com algum grau de parentesco)? A resposta é que as árvores sobreviveram até hoje porque apresentam uma grande diversidade genética dentro da mesma espécie. Quando todas liberam o pólen ao mesmo tempo, os minúsculos grãos dos espécimes se misturam e atravessam a copa de todas as árvores. Por outro lado, como o pólen se concentra muito em volta da própria árvore que o gera, há uma grande chance de que as flores femininas sejam fecundadas pelo pólen masculino do mesmo espécime. Para evitar que isso aconteça, as árvores criaram diversas estratégias. Muitas espécies – como os abetos – determinam o melhor momento para o lançamento do pólen. Flores masculinas e femininas florescem com intervalo de alguns dias para que a maior parte das femininas seja polinizada por outras árvores da espécie.
Já a cerejeira tem os órgãos reprodutores masculino e feminino na mesma flor, por isso não conta com essa possibilidade. Além disso, é uma das poucas espécies genuinamente florestais que se deixam polinizar por abelhas. Quando o inseto vasculha sua copa inteira, pode acabar distribuindo o pólen de uma árvore entre seus próprios órgãos reprodutores femininos. No entanto, a cerejeira é sensível e pressente o risco de consanguinidade. Quando um grão de pólen entra em contato com o estigma da flor (parte terminal do gineceu que capta os grãos de pólen e onde depois eles germinam), seus genes são ativados, e um tubo se estende até o ovário, em busca de um óvulo. Nesse processo a árvore testa o material genético do pólen. Se a cerejeira descobrir que o pólen é dela própria, ela bloqueia o tubo, que acaba se atrofiando. Só o material genético vindo de outros espécimes e que parece capaz de realizar uma boa fecundação tem passagem liberada para formar sementes e frutos.
Mas como a árvore consegue distinguir se o material genético é dela? Até hoje não se tem certeza. Sabe-se apenas que os genes são ativados pelo pólen de outros espécimes e só com isso ele consegue passar. Pode-se dizer que a árvore consegue sentir. O mesmo vale para nós, seres humanos. O sexo significa mais do que a simples liberação de substâncias químicas, que por sua vez ativam a secreção corporal. De qualquer modo, o que a árvore vivencia durante a reprodução é algo que permanecerá por muito tempo apenas no campo das especulações.
Muitas espécies impedem a consanguinidade por um mecanismo bem eficaz: cada indivíduo tem apenas um sexo. Assim, existem salgueiros machos e salgueiros fêmeas, que nunca poderão se reproduzir sozinhos; apenas com espécimes do sexo oposto.
Mas os salgueiros não são árvores típicas de florestas. São pioneiras, ou seja, crescem onde não há floresta. Nesses terrenos abertos costumam crescer milhares de ervas e arbustos, que, ao florir, atraem abelhas. Com isso, os salgueiros se aproveitam e também contam com a ajuda dos insetos para realizar sua polinização.
Nesse momento surge um problema: as abelhas precisam voar até o salgueiro macho e pegar o pólen para só depois transportá-lo até as árvores fêmeas. Na ordem inversa não ocorre fecundação. Como a árvore é capaz de realizar esse feito se ambos os sexos florescem ao mesmo tempo? Cientistas descobriram que o salgueiro exala um odor que atrai as abelhas. Quando os insetos se aproximam da árvore, podem se orientar pela visão. Por isso, o macho faz um grande esforço para que seus amentos (um tipo de inflorescência densa e pêndula que lembra a cauda de um gato) ganhem uma coloração amarela viva. Isso chama a atenção das abelhas primeiro para eles. Quando os insetos se alimentam do açúcar, vão embora e visitam as flores verdes e nada atraentes das fêmeas.8
Apesar de tudo, pode haver casos de consanguinidade nos exemplos apresentados, mas tanto o vento quanto as abelhas agem contra essa possibilidade, pois percorrem longas distâncias, de forma que ao menos parte das árvores recebe pólen de parentes bem distantes e, com isso, renova o banco genético local. Espécies raras e totalmente isoladas podem perder sua diversidade, o que as enfraquece e causa o fim da espécie em poucos séculos.

Peter Wohlleben, in A vida secreta das árvores: O que elas sentem e como se comunicam

02/07/2021

Vai se chamar alegria

A alquimia a química a fábula a sílaba:

qualquer mendigo mudado em Midas
fizesse o pão voltar ao grão o grão à espiga
a espiga à plantação a cabeleira ao vento
à goela retornasse o não e num vômito invertido
convertido então na quintessência da aquiescência
em signo que se exibisse como insígnia da simetria
entre o amor e o nojo à maneira de irmãos
siameses em harmonia de irmãos-alegoria e deles
a fácil tradução fosse isso: qualquer um de nós
mudado em Midas, imagine, as feridas todas
transmudadas em orquídeas e nos escombros
e nos mocambos e sob os viadutos pátrias
surgissem banhadas no ouro das antigas igrejas
agora sem Deus só química a alquimia da fábula

transformada em alegria.

Eucanaã Ferraz

Mundo Avesso

 

E se eu te contar que você é feminista?

Certa vez fui dar aula sobre assédio sexual num curso de pós-graduação em São Paulo. Cheguei à sala, composta predominantemente por advogados, e perguntei: “Quem aqui se considera feminista?” Silêncio. Uma moça levanta timidamente o braço. Dois ou três caras fazem comentários baixinho e riem.
Falei: “Ok. Vou fazer duas leituras rápidas para vocês.” Continuei:
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa: FEMINISMO: teoria que sustenta a igualdade política, social e econômica de ambos os sexos.
Dicionário Jurídico da Professora Maria Helena Diniz: FEMINISMO: movimento que busca equiparar a mulher ao homem no que atina aos direitos, emancipando-a jurídica, econômica e sexualmente.”
Esperei um pouquinho e mudei a pergunta: “Quem aqui pode me dizer que NÃO se considera feminista?” Ninguém levantou a mão.
Pois é. Tenho a sensação de que 99% do mundo não entendeu até agora o que é feminismo. Porque, se as pessoas entendessem, quase todo mundo teria orgulho de se dizer feminista. E o melhor: dizer “Eu não sou feminista” seria considerado algo mais feio do que dizer “Eu não gosto de filhote de golden”.
Não vou perder tempo aqui dizendo que feministas não são mulheres que não se depilam, não usam sutiã e não transam. Primeiro porque ser feminista não tem a ver com ser mulher, tem a ver com ser humano. Segundo porque nunca entendi que raio os pelos têm a ver com posicionamentos ideológicos. Terceiro porque sutiã serve para sustentar peitos, não para sustentar ideias. E quarto porque já vi gente deixar de transar por causa da igreja, por causa de promessa, por falta de opção, por infecção ginecológica, problemas de ereção… Mas por feminismo nunca vi. Alguém já viu?
Enfim. Acho que ser feminista não é bom ou ruim. Ser feminista é necessário. Uma vez ouvi uma amiga dizer: “A mulher que diz que nunca foi discriminada é apenas uma mulher muito distraída.” É simples assim. Não precisamos ir até o Oriente Médio. Não precisamos visitar tribos africanas. Não precisamos ir ao sertão do Nordeste. Não precisamos ir até a periferia de São Paulo. Não precisamos sair dos nossos bairros. O machismo que limita, que agride, que marginaliza, que ofende, que diminui, mora ao lado, dorme por perto.
E agora, quem poderá nos defender? O feminismo. O mesmo feminismo que nos tornou civilmente capazes e independentes perante a lei. O mesmo feminismo que nos possibilitou votarmos e sermos votadas. O mesmo feminismo que segue lutando diariamente por uma sociedade mais justa para mulheres, homens, mães, pais, filhas, filhos, trabalhadoras e trabalhadores.
No século XIX, as brilhantes irmãs Brontë escreviam usando pseudônimos masculinos por saberem que suas obras não seriam aceitas na sociedade se os leitores soubessem que as autoras eram mulheres. Se não fosse o feminismo eu provavelmente também não estaria escrevendo aqui neste momento. Pelo menos não como Ruth.
Nós precisamos falar sobre feminismo. Com nossos amigos, nossos pais, nossos filhos, grandes ou pequenos. É hora de falar sobre igualdade entre meninos e meninas. É hora de falar que meninas podem jogar bola e ter carrinhos e que meninos podem cuidar de bonecas. Quem não quer ter um filho feminista? Quem não quer que eles vivam num mundo de igualdade, no qual nem meninos nem meninas sejam massacrados pela truculência do machismo?
Em 2015 o tema da redação do Enem foi a violência contra a mulher. Milhares de jovens tiveram que parar para pensar sobre isso. Que avanço lindo. Pensar é sempre o primeiro passo. Perceber que a questão existe, que o tema não é antiquado e que, infelizmente, as questões de gênero estão muito longe de serem superadas. A violência persiste, a discriminação no ambiente de trabalho persiste, a desigualdade salarial persiste, a discriminação com as tarefas domésticas persiste, as pequenas (e não menos graves) agressões machistas do dia a dia persistem. Então a luta tem que persistir.
O feminismo não é de esquerda nem de direita. Não é só para mulheres nem é só para homens. Não é ameaça. Não é um estranho. Mas perceba que quando você trata os feministas na terceira pessoa do plural, excluindo-se deste rol, você está afirmando não fazer parte do grupo que prega a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Pense bem de que lado você quer estar.
Se você percebeu que é feminista, fique tranquilo. Nós não contaremos para ninguém. Mas sabe? Se eu fosse você, sairia contando para todo mundo. Porque ser feminista é bonito, é importante, é sinal da inteligência e da decência de qualquer ser humano. Como diz o lindo livrinho da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (leiam, ele é pequenino e indispensável): Sejamos todos feministas. E o mundo será melhor a cada dia. Pode apostar.

Ruth Manus, in Um dia ainda vamos rir de tudo isso

Envelhecer

Vá um homem envelhecendo, e caia na tolice de pensar que envelhece por inteiro — famosa tolice. Alguém já notou: envelhecemos nisto, não naquilo; este trecho ainda é verde, aquele outro já quase apodrece; aqui há seiva estuando, além é coisa murcha.
A infância não volta, mas não vai — fica recolhida, como se diz de certas doenças.
Pode dar um acesso. Outro dia sofri um ataque não de infância, mas de adolescência: precipitei-me célere, árdego, confuso. Meus olhos estavam úmidos e ardiam; mãos trêmulas; os demônios me apertavam a garganta; eu me sentia inibido, mas agia com estranha velocidade por fora.
Exatamente o contrário do que convém a um senhor de minha idade e condição.
Pior é ataque de infância: o respeitável cavalheiro de repente começa a agir como um menino bobo. Será que só eu sou assim, ou os outros disfarçam melhor?

Rubem Braga, in Recado de primavera

A Violeira (Tom Jobim/Chico Buarque) / Vanessa Moreno e Michael Pipoquinha

Enxergue a negritude

Desde cedo, pessoas negras são levadas a refletir sobre sua condição racial. O início da vida escolar foi para mim o divisor de águas: por volta dos seis anos entendi que ser negra era um problema para a sociedade. Até então, no convívio familiar, com meus pais e irmãos, eu não era questionada dessa forma, me sentia amada e não via nenhum problema comigo: tudo era “normal”. “Neguinha do cabelo duro”, “neguinha feia” foram alguns dos xingamentos que comecei a escutar. Ser a diferente—o que quer dizer não branca—passou a ser apontado como um defeito. Comecei a ter questões de autoestima, fiquei mais introspectiva e cabisbaixa. Fui forçada a entender o que era racismo e a querer me adaptar para passar despercebida. Como diz a pesquisadora Joice Berth: “Não me descobri negra, fui acusada de sê-la”.
O mundo apresentado na escola era o dos brancos, no qual as culturas europeias eram vistas como superiores, o ideal a ser seguido. Eu reparava que minhas colegas brancas não precisavam pensar o lugar social da branquitude, pois eram vistas como normais: a errada era eu. Crianças negras não podem ignorar as violências cotidianas, enquanto as brancas, ao enxergarem o mundo a partir de seus lugares sociais—que é um lugar de privilégio—acabam acreditando que esse é o único mundo possível.
Essa divisão social existe há séculos, e é exatamente a falta de reflexão sobre o tema que constitui uma das bases para a perpetuação do sistema de discriminação racial. Por ser naturalizado, esse tipo de violência se torna comum. Ainda que uma pessoa branca tenha atributos morais positivos—por exemplo, que seja gentil com pessoas negras —, ela não só se beneficia da estrutura racista como muitas vezes, mesmo sem perceber, compactua com a violência racial.
Como muitas pessoas negras que circulam em espaços de poder, já fui “confundida” com copeira, faxineira ou, no caso de hotéis de luxo, prostituta. Obviamente não estou questionando a dignidade dessas profissões, mas o porquê de pessoas negras se verem reduzidas a determinados estereótipos, em vez de serem reconhecidas como seres humanos em toda a sua complexidade e com suas contradições. Meu irmão mais velho tocou trompete por muitos anos, fazendo inclusive parte da Sinfônica de Cubatão, na Baixada Santista. Toda vez que dizia ser músico, perguntavam se ele tocava pandeiro ou outro instrumento relacionado ao samba. Não teria problema se ele tocasse, a questão é pensar que homens negros só podem ocupar esse lugar. Simone de Beauvoir afirmava que não há crime maior do que destituir um ser humano de sua própria humanidade, reduzindo-o à condição de objeto.
Dessa mesma premissa deriva o imperativo de não tratar pessoas negras com condescendência. Lembro que uma vez, quando trabalhava como secretária numa empresa do porto de Santos, e fiz algo bastante corriqueiro: respondi a um e-mail. Fiquei surpresa ao ver a reação de alguns colegas, que me aplaudiram por eu ter escrito bem um texto. Eu havia cursado três anos de jornalismo, já tinha publicado artigos em revistas e jornais, portanto um e-mail não era motivo para aplausos.
Quando eu cursava filosofia, um colega se mostrou muito surpreso por eu ter tirado uma nota maior que a dele num trabalho e sugeriu que era porque o professor gostava de mim. Outro colega insinuou que me daria a parte mais fácil de um trabalho “para me ajudar”. Experiências desse tipo me fizeram compreender que elogios podem significar condescendência.

Não é realista esperar que um grupo racial domine toda a produção do saber e seja a única referência estética. Por causa disso, a população negra criou estratégias ao longo de sua história para superar essa marginalização. O conhecido movimento Panteras Negras, do qual a ativista e filósofa Angela Davis fez parte, além de lutar contra a segregação racial nos Estados Unidos e pela emancipação do povo negro, tinha também em suas bases a valorização da estética negra. Kathleen Cleaver, uma das lideranças do movimento, aponta para a importância de que pessoas negras quebrem com a visão de que somente pessoas brancas são bonitas, valorizando o cabelo natural e as características típicas do povo negro e criando para ele uma nova consciência.
No campo das artes, temos experiências notáveis realizadas pela população negra no Brasil, mas, infelizmente, ainda pouco conhecidas. O Teatro Experimental do Negro (TEN), criado por Abdias do Nascimento em 1944, buscou valorizar a cultura afro-brasileira por meio da educação e da arte, formulando uma estética própria para além da reprodução da experiência de outros países e visando ao protagonismo do povo negro. Assim, tinha como bandeira “priorizar a valorização da personalidade e cultura específicas ao negro como caminho de combate ao racismo”.1 De lá, saíram nomes como o da atriz Ruth de Souza, que nos deixou, aos 98 anos, em julho de 2019.
Há outros bons exemplos de iniciativas que ampliam a visibilidade negra nas artes. A série Cadernos Negros, criada em 1978, foi responsável por publicar contos e poemas de escritores e escritoras negros, tornando-se um marco para a produção literária negra. Muitos dos primeiros textos de Conceição Evaristo foram publicados lá, por exemplo. O projeto Amazônia Negra, da fotógrafa Marcela Bonfim, busca reconhecer e valorizar as culturas negras em Rondônia. Bonfim sintetiza a importância de iniciativas desse tipo: “A maioria dos negros brasileiros precisa aprender a ser negro no percurso de suas vidas”. Projetos assim contribuem para esse aprendizado.
É importante ter em mente que para pensar soluções para uma realidade, devemos tirá-la da invisibilidade. Portanto, frases como “eu não vejo cor” não ajudam. O problema não é a cor, mas seu uso como justificativa para segregar e oprimir. Vejam cores, somos diversos e não há nada de errado nisso—se vivemos relações raciais, é preciso falar sobre negritude e também sobre branquitude.

Djamila Ribeiro, in Pequeno manual antirracista

Mãe-gentil

Por um tempo atrás meus filhos andaram me descobrindo. Quero dizer como pessoa, pois como mãe me haviam descoberto desde que nasceram, assim como eu os descobri até antes de eles nascerem. Foi tão curioso como, na descoberta, além de mãe, eles me consideravam uma pessoa com quem conversar. Quando eu ia escovar os cabelos no espelho do banheiro, eles me seguiam para continuar a conversa. Um deles desconfiou do que estava acontecendo e perguntou-me com franqueza: você não estará se fazendo de interessante para nós? Respondi que não, que eles é que estavam interessados em mim. Faziam-me perguntas, respondia o que podia. Um deles um dia desses me pediu: me dê o nome de alguns escritores profundos que eu queria ler. Ah, então ele já estava sentindo necessidade? Fiquei contente, e mais contente ainda de lhe dar nomes de escritores profundos brasileiros. Ele andou lendo uns contos de Tchekhov e gostou. O livro era Contos da velha Rússia, que recomendo aos leitores. É livro de bolso.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas