05/09/2011

Poesia

Também não gosto.
Lendo-a, no entanto, com total desprezo, a gente acaba descobrindo
Nela, afinal de contas, um lugar para o genuíno.

Marianne Moore, poetisa norte-americana

FotoArte: Dunas do Deserto Vermelho, na Namíbia



Foto: National Geographic
"Dicionários, para mim, nunca foram apenas obras de consultas. Costumo lê-los e estudá-los. Como escritor, sou obrigado a jogar com as palavras, preciso conhecer-lhes o valor exato”.
Graciliano Ramos

Celebração da fantasia

              Foi na entrada da aldeia de Ollantaytambo, perto de Cuzco. Eu tinha me soltado de um grupo de turistas e estava sozinho, olhando de longe as ruínas de pedra, quando um menino do lugar, esquelético, esfarrapado, chegou perto para me pedir que desse a ele de presente uma caneta. Eu não podia dar a caneta que tinha, porque estava usando-a para fazer sei lá que anotações, mas me ofereci para desenhar um porquinho em sua mão. Subitamente, correu a notícia. E de repente me vi cercado por um enxame de meninos que exigiam, aos berros, que eu desenhasse em suas mãozinhas rachadas de sujeira e frio, pele de couro queimado: havia os que queriam um condor e uma serpente, outros preferiam periquitos ou corujas, e não faltava quem pedisse um fantasma ou um dragão.
E então, no meio daquele alvoroço, um desamparadozinho que não chegava a mais de um metro do chão, mostrou-me um relógio desenhado com tinta negra em seu pulso:
— Quem mandou o relógio foi um tio meu, que mora em Lima — disse.
— E funciona direito? — perguntei.
— Atrasa um pouco — reconheceu.

Eduardo Galeano, in O livro dos abraços

          “A bíblia nos ensina a amar o próximo e também os nossos inimigos. Talvez porque sejam as mesmas pessoas”.
  G. K. Chesterton

03/09/2011

“Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar”.

William Shakespeare

À distância


Nunca mais você ouviu falar de mim
Mas eu continuei a ter você
Em toda esta saudade que ficou...
Tanto tempo já passou e eu não te esqueci.
Refrão:
Quantas vezes eu pensei voltar
E dizer que o meu amor nada mudou
Mas o meu silêncio foi maior
E na distância morro
Todo dia sem você saber.
O que restou do nosso amor ficou
No tempo, esquecido por você...
Vivendo do que fomos ainda estou
Tanta coisa já mudou, só eu não te esqueci.
Refrão
Eu só queria lhe dizer que eu
Tentei deixar de amar, não consegui
Se alguma vez você pensar em mim
Não se esqueça de lembrar
Que eu nunca te esqueci
Refrão

Soneto do amor total


Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade... 
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade 
Dentro da eternidade e a cada instante. 

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude 
Com um desejo maciço e permanente. 

E de te amar assim, muito e amiúde 
É que um dia em teu corpo de repente 
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinicius de Moraes


“O homem não está condenado à morte, está condenado a viver”.
Franz Kafka  

02/09/2011

O Rapadura Cult recomenda:


A POEMA – Poetas e Prosadores de Mossoró, em parceria com o grupo FILOSOFARTE apresenta amanhã (dia 02) a partir das 22:30h o recital “Um Balaio de Poesia ou POR UM PAÍS QUE SEJA NOSSO”, dentro do projeto Recitando no Cafezal, da Prefeitura Municipal de Mossoró, através da Gerência de Cultura.
O espetáculo é a sexta apresentação do grupo e conta, desta vez, com a participação dos poetas Jotta Paiva, Márcio Barreto, Vanja Reis, Margareth Freire, Regiane Paiva e Caio César Muniz e ainda a participação dos músicos Marcos Augusto, Samira Luara e Arthur (ex-participante do Grupo Jurubebas).
Os poemas e músicas inseridos no recital abordam temáticas de ordem social, como uma forma de protesto contra tantos descalabros e escândalos ocorridos no país nos últimos anos e vão desde canções de Chico Buarque e Cazuza, até peças poéticas de autores como Manuel Bandeira, Bertold Brecht e poetas locais como Aécio Cândido e Gonzaga de Areias.
Antes e depois do recital, a partir das 20:30h o cantor/compositor Geová Costa fará apresentações musicais variadas.
O Cafezal fica localizado na Avenida Rio Branco, dentro do espaço do Memorial da Resistência.
  

Zé do Caroço



No serviço de autofalante
Do morro do Pau da Bandeira
Quem avisa é o Zé do Caroço
Que amanhã vai fazer alvoroço
Alertando a favela inteira
Aí como eu queria que fosse em mangueira
Que existisse outro Zé do Caroço
Pra falar de uma vez pra esse moço
Carnaval não é esse colosso
Nossa escola é raiz, é madeira
Mas é o Morro do Pau da Bandeira
De uma Vila Isabel verdadeira
E o Zé do Caroço trabalha
E o Zé do Caroço batalha
E que malha o preço da feira
E na hora que a televisão brasileira
Destrói toda gente com a sua novela
É que o Zé bota a boca no mundo
Ele faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela
Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira
Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira
No morro do Pau da Bandeira
No morro do Pau da Bandeira


Disco beneficente recria "Tropicália" com 60 artistas


Vanessa da Mata, que participa do álbum com a música "Boa Reza"
Vanessa da Mata, que participa do álbum "Red Hot + Rio 2" com a música "Boa Reza"

Quarenta e três anos depois de "Tropicália ou Panis et Circencis", as vozes de Caetano Veloso, Tom Zé e Rita Lee seguem cantando músicas do álbum que deu nome ao movimento estético.
Só que em 2011 os dinossauros tropicalistas ganham reforço: Marisa Monte, Beck, Devendra Banhart, David Byrne e uma legião de 60 artistas de 13 países soltaram a voz para levantar dinheiro para o combate ao HIV no CD duplo "Red Hot + Rio 2", a ser lançado em setembro aqui.
O brasileiro Béco Dranoff coproduziu o álbum, gravado pelo projeto Red Hot, que já lançou 20 CDs para custear ações de conscientização sobre o vírus da Aids.
O primeiro "Red Hot + Rio", há 15 anos, homenageou a bossa nova. Dranoff falou à Folha, de Nova York, onde mora desde 1988.
Folha - Como se decidiu quem participaria do CD?
Béco Dranoff - Desde o início queríamos convidar o Beck, o Devendra Banhart, o Of Montreal, o Beirut. Do Brasil, eram os clássicos, como Tom Zé, Caetano, Marcos Valle, Joyce, Os Mutantes, Rita Lee, e a nova guarda, como Bebel Gilberto, Céu, Apollo Nove, Otto, Marisa Monte, DJ Dolores e outros artistas com ângulos musicais incríveis.
Como escolheram o repertório?
Depois de definirmos que o projeto seria uma homenagem moderna ao tropicalismo, selecionamos artistas que são influenciados de alguma forma pelo movimento.
Durante a produção, fomos enviando sugestões de músicas e parcerias para os artistas. Em alguns casos, eles escolheram as canções que iam gravar.
Há também músicas originais, como as de John Legend, de Rita Lee, do duo Twin Danger, de Aloe Blacc, de Kassin com Cibelle e de Money Mark com Thalma de Freitas e João Parahyba.
O tropicalismo voltou à moda lá fora?
Desde os anos 1990, a tropicália é admirada como um movimento cultural à frente do seu tempo. No final dos anos 60, já era um movimento de vanguarda que pregava a abertura mental e musical e a globalização das culturas.
Hoje, é absorvida pela juventude como uma referência artística importante e atual, no Brasil e no mundo.
Faz-se tropicalismo ainda?
Sim, claro que se faz tropicalismo. Hoje no Brasil temos uma geração inteira que desbrava novos caminhos musicais, fundindo a brasilidade sonora com as tendências e evoluções musicais internacionais. Misturam tudo sem perder a alma brasileira.
Há planos de shows reunindo os artistas do álbum?
Existe uma grande vontade de promovermos um evento no Brasil para marcar o Dia Mundial da Luta contra a Aids, em 1º de dezembro.

Chico Felitti, para a Folha Ilustrada


“À medida que a esfera do trabalho se alastra, a do riso diminui”.
Octávio Paz

Janela


Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
clarabóia na minha alma,
olho no meu coração.

Adélia Prado


“O melhor governo é aquele que não existe”.
Henry Dadid Thorean  

01/09/2011

Na primeira manhã


Na primeira manhã que te perdi 
Acordei mais cansado que sozinho 
Como um conde falando aos passarinhos 
Como uma bumba-meu-boi sem capitão 
E gemi como geme o arvoredo 
Como a brisa descendo das colinas 
Como quem perde o prumo e desatina 
Como um boi no meio da multidão.

Na segunda manhã que te perdi 
Era tarde demais pra ser sozinho 
Cruzei ruas, estradas e caminhos 
Como um carro correndo em contramão 
Pelo canto da boca num sussurro 
Fiz um canto demente, absurdo 
O lamento noturno dos viúvos 
Como um gato gemendo no porão 
Solidão.

Composição de Alceu Valença

“A arte existe para que a verdade não nos destrua”.
Nietzsche   

E por falar em ladrão de galinhas...


Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e levaram para a delegacia.
- Que vida mansa, hein, vagabundo ? Roubando galinha para ter o que comer sem precisar trabalhar. Vai para cadeia!
- Não era para mim não. Era para vender.
- Pior. Venda de artigo roubado. Concorrência desleal com o comércio estabelecido. Sem-vergonha!
- Mas eu vendia mais caro.
- Mais caro?
- Espalhei o boato que as galinhas do galinheiro eram bichadas e as minhas não. E que as do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons.
- Mas eram as mesmas galinhas, safado.
- Os ovos das minhas eu pintava.
- Que grande pilantra... Mas já havia um certo respeito no tom do delegado.
- Ainda bem que tu vai preso. Se o dono do galinheiro te pega..
- Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Me comprometi a não espalhar mais boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros donos de galinheiro a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio. Ou, no caso, um ovigopólio.
- E o que você faz com o lucro do seu negócio?
- Especulo com dólar. Invisto alguma coisa no tráfico de drogas. Comprei alguns deputados. Dois ou três ministros. Consegui exclusividade no suprimento de galinhas e ovos para programas de alimentação do governo e superfaturo os preços.
O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada. Depois perguntou:
- Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está milionário?
- Trilionário. Sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior.
- E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas?
- Às vezes. Sabe como é.
- Não sei não, excelência. Me explique.
- É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa. Do risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo uma coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão, e isso é excitante. Como agora. Fui preso, finalmente. Vou para a cadeia. É uma experiência nova.
- O que e isso, excelência? O senhor não vai ser preso não.
- Mas fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro!
- Sim. Mas primário, e com esses antecedentes...

Luís Fernando Veríssimo 

A banda Natalense Gato Lúdico apresenta:



“Mundo! Que és tu para um coração sem amor?”
  Goethe