Louvados sejas Deus meu Senhor,
porque o meu coração está cortado a
lâmina,
mas sorrio no espelho ao que,
à revelia de tudo, se promete.
Porque sou desgraçado
como um homem tangido para a forca,
mas me lembro de uma noite na roça,
o luar nos legumes e um grilo,
minha sombra na parede.
Louvado sejas, porque eu quero pecar
contra o afinal sítio aprazível dos
mortos,
violar as tumbas com o arranhão das
unhas,
mas vejo Tua cabeça pendida
e escuto o galo cantar
três vezes em meu socorro.
Louvado sejas porque a vida é
horrível,
porque mais é o tempo que eu passo
recolhendo despojos,
— velho ao fim da guerra como uma
cabra —
mas limpo os olhos e o muco do meu
nariz,
por um canteiro de grama.
Louvados sejas porque eu quero morrer,
mas tenho medo e insisto em esperar o
prometido.
Uma vez, quando eu era menino, abri a
porta de noite,
a horta estava branca de luar
e acreditei sem nenhum sofrimento.
Louvado sejas!
Adélia Prado, em Bagagem
Nenhum comentário:
Postar um comentário