120.
Aquela malícia incerta e quase
imponderável que alegra qualquer coração humano ante a dor dos
outros, e o desconforto alheio, ponho-a eu no exame das minhas
próprias dores, levo-a tão longe que nas ocasiões em que me sinto
ridículo ou mesquinho, gozo-a como se fosse outro que o estivesse
sendo. Por uma estranha e fantástica transformação de sentimentos,
acontece que não sinto essa alegria maldosa e humaníssima perante a
dor e o ridículo alheio. Sinto perante o rebaixamento dos outros não
uma dor, mas um desconforto estético e uma irritação sinuosa. Não
é por bondade que isto acontece, mas sim porque quem se torna
ridículo não é só para mim que se torna ridículo, mas para os
outros também, e irrita-me que alguém esteja sendo ridículo para
os outros, dói-me que qualquer animal da espécie humana ria à
custa de outro, quando não tem direito de o fazer. De os outros se
rirem à minha custa não me importo, porque de mim para fora há um
desprezo profícuo e blindado.
Mais terrível de que qualquer muro,
pus grades altíssimas a demarcar o jardim do meu ser, de modo que,
vendo perfeitamente os outros, perfeitissimamente eu os excluo e
mantenho outros.
Escolher modos de não agir foi sempre
a atenção e o escrúpulo da minha vida.
Não me submeto ao estado nem aos
homens; resisto inertemente. O estado só me pode querer para uma
ação qualquer. Não agindo eu, ele nada de mim consegue. Hoje já
não se mata, e ele apenas me pode incomodar; se isso acontecer,
terei que blindar mais o meu espírito e viver mais longe adentro dos
meus sonhos. Mas isso não aconteceu nunca. Nunca me apoquentou o
estado. Creio que a sorte soube providenciar.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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