22/07/2026

Canção de mim mesmo

15

A contralto puro canta na galeria do órgão,
O carpinteiro ajusta sua tábua, a língua de sua plaina assobia seu zumbido selvagem e ascendente,
Os casados e solteiros rumam para casa para a ceia de 
Ação de Graças,
O piloto agarra o pino mestre, ele carena com braço forte,

O imediato fica apoiado no baleeiro, lança e arpão prontos,
O caçador de patos anda em expansões silenciosas e cautelosas,
Os diáconos são ordenados com mãos cruzadas ao altar,
A fiandeira recua e avança ao zunido da grande roda,

O fazendeiro para nas traves ao andar num passeio 
de Primeiro Dia
E olha a aveia e o centeio,
O lunático é carregado por fim para o asilo, um caso crônico,
(Ele nunca mais dormirá como no catre no quarto da mãe;)

O tipógrafo de ofício com cabeça cinzenta e maxilas esquálidas trabalha em sua caixa de tipos,
Ele gira seu bocado de tabaco enquanto seus olhos se turvam com o manuscrito;
Os membros malformados estão atados à mesa do cirurgião,
O que é removido cai horrivelmente num balde;

A quadrarona é vendida no palanque do leilão,
O bêbado balança a cabeça ao lado da estufa do bar,
O maquinista enrola as mangas, o policial percorre sua ronda,
O porteiro marca quem passa, o rapaz conduz o vagão expresso,

(Eu o amo, embora não o conheça;)

O mestiço amarra suas botas leves para competir na corrida,
O tiro ao peru no oeste atrai velhos e jovens, alguns se apoiam nos rifles, alguns sentam nos troncos,
Da multidão caminha o atirador, toma sua posição, aponta sua arma;

Os grupos de imigrantes recém-chegados cobrem 
o cais e as docas,
Enquanto as carapinhas cultivam o canavial, o feitor os observa de sua sela,
O clarim chama no salão de festas,
Os cavalheiros correm para seus pares, os dançarinos se reverenciam,
O jovem descansa acordado no sótão com teto de cedro e escuta a chuva musical,
O Carcaju põe armadilhas no riacho que ajuda a encher o Huron,
A índia enrolada em seu tecido de bainhas amarelas está vendendo mocassins e bolsas de miçangas,
O perito esquadrinha a galeria de exibição com olhos semi-fechados e o corpo oblíquo,

Conforme os taifeiros amarram o barco a vapor a prancha é lançada para os passageiros descerem à praia,
A irmã jovem segura a meada enquanto a mais velha desenrola o novelo, e para às vezes nos nós,
A esposa, um ano de casada, está se recuperando e feliz tendo uma semana atrás seu primeiro filho,
A moça Yankee de cabelo limpo trabalha com sua máquina de costura ou na fábrica ou no moinho,

O pavimentador se apoia no seu bate-estacas, o grafite do repórter voa veloz no caderno de notas,
O letrista pinta com azul e dourado, o rapaz do canal trota pela trilha de sirga,
O contador conta em sua escrivaninha, o sapateiro encera seu cadarço,
O regente marca o andamento para a banda 
e todos os músicos o seguem,

A criança é batizada, o convertido está fazendo suas primeiras profissões de fé,
A regata se espalha na baía, a corrida começou, (como faíscam as velas brancas!)
O boiadeiro guardando sua boiada aboia àqueles que se desgarram,
O mascate transpira com o pacote nas costas, (o comprador pechincha por um centavo;)

A noiva desamarrota seu vestido branco, o ponteiro dos minutos se move devagar,
O viciado em ópio se reclina com cabeça rígida e 
lábios recém-abertos,
A prostituta enlameia seu chale, sua touca treme em seu pescoço espinhento e bêbado,
A multidão ri dos seus vis juramentos, os homens zombam e piscam uns pros outros,

(Miserável! Não rio de teus juramentos nem zombo de ti;)

O Presidente liderando um conselho de gabinete é rodeado pelos grandes Secretários,
Na praça andam três matronas majestosas e simpáticas com os braços cingidos,
A tripulação da sumaca amontoa camadas repetidas de linguado gigante no recipiente,
O missouriano cruza as planícies levando artigos e gado,

Conforme o cobrador anda pelo trem ele se anuncia pelo tilintar do troco solto,
Os ladrilheiros assentam o soalho, os latoeiros estão fazendo o teto, os pedreiros estão pedindo argamassa,
Em fila indiana cada um arcando seu cocho 
passam os trabalhadores;
Estações se alternando a indescritível multidão é reunida, é o quatro do Sétimo mês, (que saudações de canhões e armas de fogo!)

Estações se alternando o lavrador lavra, o ceifador ceifa, e a semente invernal cai na terra;
Nos lagos o piqueiro vigia e espera junto ao buraco na superfície congelada,
Os cepos formam pilhas ao redor da clareira, o usucapiente golpeia fundo com seu machado,
Chalaneiros se apressam rumo ao poente junto 
aos choupos ou nogueiras,

Capitães do mato atravessam as regiões do Rio Vermelho ou aquelas banhadas pelo Tennessee, ou aquelas do Arkansas,
Tochas luzem no escuro que pende sobre Chattahooche ou Altamahaw,
Patriarcas sentam-se à ceia com filhos 
e netos e bisnetos em volta,
Em muros de adobe, em tendas de lona, repousam caçadores de animais e peles após o esforço do dia,

Dorme a cidade e dorme o campo,
Os vivos dormem por sua vez, os mortos dormem por sua vez,
Dorme o velho marido junto à esposa e dorme o jovem marido junto à esposa;

E estes tendem interiormente para mim, e eu tendo exteriormente para eles,
E tal como é para ser desses mais ou menos sou,
E desses todos teço a canção de mim.

Walt Whitman, em Folhas de Relva 

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