15
A contralto puro canta na galeria do
órgão,
O carpinteiro ajusta sua tábua, a
língua de sua plaina assobia seu zumbido selvagem e ascendente,
Os casados e solteiros rumam para casa
para a ceia de
Ação de Graças,
O piloto agarra o pino mestre, ele
carena com braço forte,
O imediato fica apoiado no baleeiro,
lança e arpão prontos,
O caçador de patos anda em expansões
silenciosas e cautelosas,
Os diáconos são ordenados com mãos
cruzadas ao altar,
A fiandeira recua e avança ao zunido
da grande roda,
O fazendeiro para nas traves ao andar
num passeio
de Primeiro Dia
E olha a aveia e o centeio,
O lunático é carregado por fim para
o asilo, um caso crônico,
(Ele nunca mais dormirá como no catre
no quarto da mãe;)
O tipógrafo de ofício com cabeça
cinzenta e maxilas esquálidas trabalha em sua caixa de tipos,
Ele gira seu bocado de tabaco enquanto
seus olhos se turvam com o manuscrito;
Os membros malformados estão atados à
mesa do cirurgião,
O que é removido cai horrivelmente
num balde;
A quadrarona é vendida no palanque do
leilão,
O bêbado balança a cabeça ao lado
da estufa do bar,
O maquinista enrola as mangas, o
policial percorre sua ronda,
O porteiro marca quem passa, o rapaz
conduz o vagão expresso,
(Eu o amo, embora não o conheça;)
O mestiço amarra suas botas leves
para competir na corrida,
O tiro ao peru no oeste atrai velhos e
jovens, alguns se apoiam nos rifles, alguns sentam nos troncos,
Da multidão caminha o atirador, toma
sua posição, aponta sua arma;
Os grupos de imigrantes recém-chegados
cobrem
o cais e as docas,
Enquanto as carapinhas cultivam o
canavial, o feitor os observa de sua sela,
O clarim chama no salão de festas,
Os cavalheiros correm para seus pares,
os dançarinos se reverenciam,
O jovem descansa acordado no sótão
com teto de cedro e escuta a chuva musical,
O Carcaju põe armadilhas no riacho
que ajuda a encher o Huron,
A índia enrolada em seu tecido de
bainhas amarelas está vendendo mocassins e bolsas de miçangas,
O perito esquadrinha a galeria de
exibição com olhos semi-fechados e o corpo oblíquo,
Conforme os taifeiros amarram o barco
a vapor a prancha é lançada para os passageiros descerem à praia,
A irmã jovem segura a meada enquanto
a mais velha desenrola o novelo, e para às vezes nos nós,
A esposa, um ano de casada, está se
recuperando e feliz tendo uma semana atrás seu primeiro filho,
A moça Yankee de cabelo limpo
trabalha com sua máquina de costura ou na fábrica ou no moinho,
O pavimentador se apoia no seu
bate-estacas, o grafite do repórter voa veloz no caderno de notas,
O letrista pinta com azul e dourado, o
rapaz do canal trota pela trilha de sirga,
O contador conta em sua escrivaninha,
o sapateiro encera seu cadarço,
O regente marca o andamento para a
banda
e todos os músicos o seguem,
A criança é batizada, o convertido
está fazendo suas primeiras profissões de fé,
A regata se espalha na baía, a
corrida começou, (como faíscam as velas brancas!)
O boiadeiro guardando sua boiada aboia
àqueles que se desgarram,
O mascate transpira com o pacote nas
costas, (o comprador pechincha por um centavo;)
A noiva desamarrota seu vestido
branco, o ponteiro dos minutos se move devagar,
O viciado em ópio se reclina com
cabeça rígida e
lábios recém-abertos,
A prostituta enlameia seu chale, sua
touca treme em seu pescoço espinhento e bêbado,
A multidão ri dos seus vis
juramentos, os homens zombam e piscam uns pros outros,
(Miserável! Não rio de teus
juramentos nem zombo de ti;)
O Presidente liderando um conselho de
gabinete é rodeado pelos grandes Secretários,
Na praça andam três matronas
majestosas e simpáticas com os braços cingidos,
A tripulação da sumaca amontoa
camadas repetidas de linguado gigante no recipiente,
O missouriano cruza as planícies
levando artigos e gado,
Conforme o cobrador anda pelo trem
ele se anuncia pelo tilintar do troco solto,
Os ladrilheiros assentam o soalho, os
latoeiros estão fazendo o teto, os pedreiros estão pedindo
argamassa,
Em fila indiana cada um arcando seu
cocho
passam os trabalhadores;
Estações se alternando a
indescritível multidão é reunida, é o quatro do Sétimo mês,
(que saudações de canhões e armas de fogo!)
Estações se alternando o lavrador
lavra, o ceifador ceifa, e a semente invernal cai na terra;
Nos lagos o piqueiro vigia e espera
junto ao buraco na superfície congelada,
Os cepos formam pilhas ao redor da
clareira, o usucapiente golpeia fundo com seu machado,
Chalaneiros se apressam rumo ao poente
junto
aos choupos ou nogueiras,
Capitães do mato atravessam as
regiões do Rio Vermelho ou aquelas banhadas pelo Tennessee, ou
aquelas do Arkansas,
Tochas luzem no escuro que pende sobre
Chattahooche ou Altamahaw,
Patriarcas sentam-se à ceia com
filhos
e netos e bisnetos em volta,
Em muros de adobe, em tendas de lona,
repousam caçadores de animais e peles após o esforço do dia,
Dorme a cidade e dorme o campo,
Os vivos dormem por sua vez, os mortos
dormem por sua vez,
Dorme o velho marido junto à esposa e
dorme o jovem marido junto à esposa;
E estes tendem interiormente para mim,
e eu tendo exteriormente para eles,
E tal como é para ser desses mais ou
menos sou,
E desses todos teço a canção de
mim.
Walt Whitman, em Folhas de Relva
Nenhum comentário:
Postar um comentário