Vi, sim. Ora se vi. Eu não sou o
Piu-Piu e não vi um gatinho. Eu vi a luz. Calma. Não estou
delirando, tenho bebido moderadamente e também não ando queimando
baseados colombianos. Eu vi a Luz das cordas, CD de Marco
Pereira e Hamilton de Holanda, um dos mais importantes trabalhos
instrumentais brasileiros nos últimos cinquenta anos.
Tivemos durante o ano 2000 muitas
manitas del plata querendo aparecer: George Benson, John
Pizzarelli, Robert Cray... Mas na hora da luz, o jogo ficou todo a
favor de Marco Pereira e Hamilton de Holanda. O pessoal foi saindo de
fininho, ofuscado.
Fiz um teste interessante, aqui em
casa. Deixava as pessoas conversando no escritório e botava, na
maciota, Luz das cordas. Teve de tudo: amigo chorando feito
criança, moça entrando em transe catatônico, o diabo. Podem
conferir.
Eu vi as extraordinárias caixas de
CDs de Noel Rosa, Dorival Caymmi e do SESC São Paulo.
Eu vi, O quinteto de Buenos Aires,
de Manuel Vázquez Montalbán, reduzindo o ego maradônico dos
argentinos a extrato de pó de pum da pulga do cavalo do bandido.
Depois desse livro, especialmente pelos capítulos “A guerra das
Malvinas” e O filho natural de Jorge Luis Borges”, aqueles
tangueiros nunca mais serão os mesmos.
Eu vi Os leopardos de Kafka, de
Moacyr Scliar, na mesma coleção de Borges e os orangotangos
eternos, de Luis Fernando Veríssimo. A crítica pode – e deve
– falar o que bem entender, mas os dois livros são excelentes.
Eu vi, de Alberto Manguel, autor de
Uma história da leitura e de Stevenson sobre as palmeiras,
o delicado No bosque do espelho.
Vi, arrepiado de horror, Autópsia
do medo – vida e morte do delegado Sergio Paranhos Fleury, do
grande repórter Percival de Souza, onde aparece logo no começo, já
aprontando, o Nicolalau.
Vi a Coleção Negra, da Record,
completando com Whitejazz, o Quarteto de Los Angeles, de James
Ellroy.
Vi a caverna do Saramago e os
crocodilos do Lobo Antunes, como o Binho, cada vez melhores,
perseguidos pela paixão de Pepetela.
Vi e revi Paulo Mendes Campos. Vi
Fausto Wolff, que deve estar escrevendo vinte e quatro horas por dia.
Vi Pai morto, vivo, de Ricardo Gontijo e OEspelho de Egon,
de Horácio Soares.
Bebi na Ipanema do Jaguar e
dancei com os Atabaques, violas e bambus, do Paulo César
Pinheiro.
E andei tendo umas lições sobre Do
Amor ausente, do jovem e talentoso escritor Paulo Roberto Pires.
Será parente do outro, que já bebeu várias vezes no cafofo?!
Aldir Blanc, em O Gabinete do Doutor Blanc

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