14/06/2026

Meninos, eu vi


Vi, sim. Ora se vi. Eu não sou o Piu-Piu e não vi um gatinho. Eu vi a luz. Calma. Não estou delirando, tenho bebido moderadamente e também não ando queimando baseados colombianos. Eu vi a Luz das cordas, CD de Marco Pereira e Hamilton de Holanda, um dos mais importantes trabalhos instrumentais brasileiros nos últimos cinquenta anos.
Tivemos durante o ano 2000 muitas manitas del plata querendo aparecer: George Benson, John Pizzarelli, Robert Cray... Mas na hora da luz, o jogo ficou todo a favor de Marco Pereira e Hamilton de Holanda. O pessoal foi saindo de fininho, ofuscado.
Fiz um teste interessante, aqui em casa. Deixava as pessoas conversando no escritório e botava, na maciota, Luz das cordas. Teve de tudo: amigo chorando feito criança, moça entrando em transe catatônico, o diabo. Podem conferir.
Eu vi as extraordinárias caixas de CDs de Noel Rosa, Dorival Caymmi e do SESC São Paulo.
Eu vi, O quinteto de Buenos Aires, de Manuel Vázquez Montalbán, reduzindo o ego maradônico dos argentinos a extrato de pó de pum da pulga do cavalo do bandido. Depois desse livro, especialmente pelos capítulos “A guerra das Malvinas” e O filho natural de Jorge Luis Borges”, aqueles tangueiros nunca mais serão os mesmos.
Eu vi Os leopardos de Kafka, de Moacyr Scliar, na mesma coleção de Borges e os orangotangos eternos, de Luis Fernando Veríssimo. A crítica pode – e deve – falar o que bem entender, mas os dois livros são excelentes.
Eu vi, de Alberto Manguel, autor de Uma história da leitura e de Stevenson sobre as palmeiras, o delicado No bosque do espelho.
Vi, arrepiado de horror, Autópsia do medo – vida e morte do delegado Sergio Paranhos Fleury, do grande repórter Percival de Souza, onde aparece logo no começo, já aprontando, o Nicolalau.
Vi a Coleção Negra, da Record, completando com Whitejazz, o Quarteto de Los Angeles, de James Ellroy.
Vi a caverna do Saramago e os crocodilos do Lobo Antunes, como o Binho, cada vez melhores, perseguidos pela paixão de Pepetela.
Vi e revi Paulo Mendes Campos. Vi Fausto Wolff, que deve estar escrevendo vinte e quatro horas por dia. Vi Pai morto, vivo, de Ricardo Gontijo e OEspelho de Egon, de Horácio Soares.
Bebi na Ipanema do Jaguar e dancei com os Atabaques, violas e bambus, do Paulo César Pinheiro.
E andei tendo umas lições sobre Do Amor ausente, do jovem e talentoso escritor Paulo Roberto Pires. Será parente do outro, que já bebeu várias vezes no cafofo?!

Aldir Blanc, em O Gabinete do Doutor Blanc

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