114.
Estética do artifício
A vida prejudica a expressão nunca o
poderia contar da vida. Se eu vivesse um grande amor. Eu próprio não
sei se este eu, que vos exponho, por estas coleantes páginas fora,
realmente existe ou é apenas um conceito estético e falso que fiz
de mim próprio. Sim, é assim.
Vivo-me esteticamente em outro.
Esculpi a minha vida como a uma estátua de matéria alheia ao meu
ser. As vezes não me reconheço, tão exterior me pus a mim, e tão
de modo puramente artístico empreguei a minha consciência de mim
próprio. Quem sou por detrás desta irrealidade? Não sei. Devo ser
alguém. E se não busco viver, agir, sentir, é — crede-me bem —
para não perturbar as linhas feitas da minha personalidade suposta.
Quero ser tal qual quis ser e não
sou. Se eu cedesse destruir-me-ia.
Quero ser uma obra de arte, da alma
pelo menos, já que do corpo não posso ser. Por isso me esculpi em
calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das
luzes francas — onde a minha artificialidade, flor absurda floresça
em afastada beleza.
Penso às vezes no belo que seria
poder, unificando os meus sonhos, criar-me uma vida contínua,
sucedendo-se, dentro do decorrer de dias inteiros, com convivas
imaginários com gente criada, e ir vivendo, sofrendo, gozando essa
vida falsa. Ali me aconteceriam desgraças; grandes alegrias ali
cairiam sobre mim. E nada de mim seria real. Mas teria tudo uma
lógica soberba, sua; seria tudo segundo um ritmo de voluptuosa
falsidade, passando tudo numa cidade feita da minha alma, perdida até
ao cais à beira de um comboio calmo, muito longe dentro de mim,
muito longe... E tudo nítido, inevitável, como na vida exterior,
mas estética de Morte do Sol.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Nenhum comentário:
Postar um comentário