Refiro-me, em Mato Grosso, aos
Terenos, povo meridional dos Aruaques. Logo desde Campo Grande eles
aparecem. Porém, se mal não me informo, suas principais reservas ou
aglomerações situam-se em Bananal, em Miranda, em Lalima e em
Ipegue, e perto de Nioaque. Urbanizados, vestidos como nós, calçando
meias e sapatos, saem de uma tribo secularmente ganha para o civil.
Na Guerra do Paraguai, aliás, serviram, se afirmaram; deles e de seu
comandante, Chico das Chagas, conta A Retirada da Laguna.
Conversei primeiro com dois, moços e
binominados: um se chamava U-la-lá, e também Pedrinho; o outro era
Hó-ye-nó, isto é, Cecílio. Conversa pouca.
A surpresa que me deram foi ao
escutá-los coloquiar entre si, em seu rápido, ríspido idioma. Uma
língua não propriamente gutural, não guarani, não nasal, não
cantada; mas firme, contida, oclusiva e sem molezas — língua para
gente enérgica e terra fria. Entrava-me e saía-me pelos ouvidos
aquela individida extensão de som, fio crespo, em articulação
soprada; e espantava-me sua gama de fricativas palatais e velares, e
as vogais surdas. Respeitei-a, pronto respeitei seus falantes, como
se representassem alguma cultura velhíssima.
Deram-me o sentido de um punhado de
palavras, que perguntei. Soltas, essas abriam sua escandida
silabação, que antes desaparecia, no natural da entrefala. Eis,
pois:
frio — kás-sa-tí
onça — sí-i-ní
peixe — khró-é
rio — khú-uê-ó
Deus — íkhái-van-n-u-kê
cobra — kóe-ch’oé
passarinho — hê-o-pen’n-o (h
aspirado).
A notação, árdua, resultou
arbitrária. Só para uma ideia. E, óbvio, as palavras trazidas
assim são remortas, sem velocidade, sem queimo. Mas, ainda quando,
fere seu forte arrevesso.
Depois, no arraial do Limão-Verde, 18
km de Aquidauana, pé da serra de Amambai, visitei-os: um
arranchamento de “dissidentes” — 60 famílias, 300 e tantas
almas índias, sob o cacicado do naa-ti Tani, ou Daniel,
capitão.
O lugar, o Limão-Verde, era mágico e
a-parte, quase de mentira, com excessivo espesso e esmalte na
verdura, como a do Oxfordshire em julho; capim intacto e montanhas
mangueiras, e o poente de Itália, aberto, infim, pura cor.
Quase conosco, adiante, chegava também
uma terena, a cavalo. Com sapatos anabela e com seu indiozinho ao
colo. Quisemos conversar, mas ela nem deixou. Convenceu o cavalo a
volver garupa, dando-nos as costas, e assim giraram, e desgiraram,
quanto foi preciso.
Mas, ao avistar-nos, o capitão Daniel
rompeu de lá, com todos os seus súbditos. E ele era positivo um
chefe, por cara e coroa. Sua personalidade bradava baixinho. Em
qualquer parte, sem impo, só de chegar, seria respeitado. O
descalabro, a indigência, o aciganamento sonso de seu pessoal, não
lhe tolhiam o ar espaçoso, de patriarca e pompa. Ele representava;
e, com ritual vazio e simples palavras, deu-nos, num momento, o
esquema de uma grande hospitalidade.
Enquanto podia, entretive-me também
com um grupo: Re-pi-pí (“o cipó”), I-li-hú, Mó-o-tchó,
Pi-têu, E-me-a-ka-uê e Bertulino Divino Quaauagas. Eu fazia
perguntas a um — como é isso, em língua terena? como é aquilo? —
e ele se esforçava em ensinar-me; mas os outros o caçoavam: —
Na-kó-i-kó? Na-kó-i-kó? (— “Como é que vamos? Como é que
vamos?” — K’mok’wam’mo? — quer dizer: — Como que
Você se sai desta?…)
Apenas tive tempo de ir anotando meu
pequeno vocabulário, por lembrança. Mais tarde, de volta a
Aquidauana, relendo-o, dei conta de uma coisa, que era uma
descoberta. As cores. Eram:
vermelho — a-ra-ra-i’ti
verde — ho-no-no-i’ti
amarelo — he-ya-i’ti
branco — ho-po-i’ti
preto — ha-ha-i’ti
Sim, sim, claro: o elemento i’ti
devia significar “cor” — um substantivo que se sufixara; daí,
a-ra-ra-i’ti seria “cor de arara”; e por diante. Então
gastei horas, na cidade, querendo averiguar. Valia. Toda língua são
rastros de velho mistério. Fui buscando os terenos moradores em
Aquidauana: uma cozinheira, um vagabundo, um pedreiro, outra
cozinheira — que me sussurraram longas coisas, em sua fala abafada,
de tanto finco. Mas i’ti não era aquilo.
Isto é, era não era. I’ti
queria dizer apenas “sangue”. Ainda mais vero e belo. Porque,
logo fui imaginando, vermelho seria “sangue de arara”;
verde, “sangue de folha”, por exemplo; azul,
“sangue do céu”; amarelo, “sangue do sol”; etc. Daí,
meu afã de poder saber exato o sentido de hó-no-nó, hó-pô,
h-há e hê-yá.
Porém não achei. Nenhum —
diziam-me — significava mais coisa nenhuma, fugida pelos fundos da
lógica. Zero nada, zero. E eu não podia deixar lá minha cabeça,
sozinha especulando. Na-kó i-kó? Uma tristeza.
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

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