O Professor Antolini e a mulher tinham
um apartamento grã-finérrimo em Sutton Place, desses que a gente
tem que descer dois degrauzinhos para entrar na sala de visitas, e
com um bar e tudo. Eu já tinha ido lá algumas vezes, porque depois
que saí do Elkton Hills o Professor Antolini ia freqüentemente
jantar lá em casa, para saber como eu estava indo. Nessa época ele
ainda, era solteiro. Depois que casou, andei jogando tênis com ele e
a mulher, no clube de tênis West Side, em Forest Hills, Long Island.
Ela era sócia de lá, era mesmo podre de rica. Era mais velha que o
Professor Antolini uns sessenta anos, mas os dois pareciam se dar
muito bem. Em parte porque eram muito intelectuais, especialmente o
Professor Antolini, apesar dele dar a impressão de ser mais
espirituoso do que realmente intelectual quando estava com a gente,
assim mais ou menos como o D.B. A mulher dele era mais séria. Sofria
muito de asma. Os dois haviam lido todos os contos do D.B. – a
Senhora Antolini também – e, quando o D.B. foi para Hollywood, o
Professor telefonou para ele, dizendo que não fosse. Mas ele foi
assim mesmo. O Professor Antolini disse que uma pessoa que escrevia
como o D.B. não tinha nada que ir para Hollywood. Foi praticamente a
mesma coisa que eu disse.
Eu teria ido a pé à casa dele,
porque só em último caso pensava gastar o dinheiro de Natal da
Phoebe, mas me senti meio esquisito quando cheguei lá fora. Meio
tonto. Por isso tomei um táxi. Não queria, mas tomei. Tive um
trabalhão desgraçado só para encontrar um táxi.
Quando o safado do cabineiro resolveu
afinal me deixar subir, toquei a campainha e quem veio abrir foi o
próprio Professor Antolini. Estava de robe e chinelos e um copo de
bebida na mão. Era um cara um bocado sofisticado e também bebia pra
chuchu.
– Holden, meu filho! – ele disse.
– Ora veja, cresceu mais uns cinco centímetros. Que prazer vê-lo
por aqui.
– Como vai o senhor? Como está sua
senhora?
– Tudo bem.
– Me dê seu casaco.
Me ajudou a tirar o sobretudo e
guardou.
– Estava esperando vê-lo com um
recém-nascido nos braços. Sem ninguém no mundo para quem apelar.
Flocos de neve nas pestanas.
Ele às vezes é um camarada muito
espirituoso. Virou-se e gritou para a cozinha:
– Lilian! Esse café está saindo?
Lilian era o nome da mulher dele.
– Está prontinho – ela gritou de
lá. – É o Holden que está aí? Como vai, Holden?
– Bem, e a senhora?
A gente vivia gritando naquela casa,
porque os dois, nunca estavam na mesma sala ao mesmo tempo. Chegava a
ser engraçado.
– Sente-se, Holden – disse o
professor. Via-se logo que ele estava meio alto. Pelo jeito da sala,
parecia que tinham dado alguma festa. Tinha copos e pratinhos com
amendoim por todo o canto.
– Desculpe a desordem – ele disse.
– Estivemos recebendo uns amigos de Lilian, lá de Bufallo... Uns
búfalos, para falar a verdade.
Dei uma risada, e a senhora Antolini
gritou qualquer coisa para mim lá da cozinha, mas não entendi.
– Quê que ela disse? – perguntei
ao Professor Antolini.
– Disse para você não olhar para
ela quando entrar, porque acabou de sair da cama. Cigarro? Você
agora está fumando?
– Obrigado – respondi, e tirei um
cigarro da caixa que ele me estendeu. – Só de vez em quando. Sou
um fumante moderado.
– Acredito muito – ele falou.
Acendeu meu cigarro com um baita isqueiro de mesa. – Muito bem.
Quer dizer que o Pencey e você se divorciaram.
Tinha a mania de dizer as coisas
assim. Às vezes me divertia um bocado, outras vezes não. Exagerava
um pouquinho. Não é que não fosse espirituoso nem nada – isso
ele era – mas de vez em quando a gente se irrita quando uma pessoa
vive dizendo coisas assim como "Quer dizer que o Pencey e você
se divorciaram". D.B. de vez em quando também exagera um pouco
nesse troço.
– O que é que houve? Como é que
você foi em inglês? Ponho-o na rua agora mesmo se você tiver sido
reprovado em inglês, seu craque na redação.
– Não, passei em inglês
direitinho. Mas quase que só demos literatura. Só escrevi umas duas
redações durante o ano todo. Mas fui reprovado em Expressão Oral.
Lá eles tinham esse curso obrigatório. Expressão Oral. Nisso fui
reprovado.
– Por quê?
– Ah, sei lá.
Não estava com muita vontade de falar
no assunto. Me sentia ainda meio tonto ou coisa parecida, e de
repente fiquei com uma dor de cabeça desgraçada. Fiquei mesmo. Mas
ele parecia realmente interessado, por isso resolvi contar alguma
coisa.
– É um curso em que cada aluno tem
que se levantar na aula e fazer um discurso. Sabe como é. Com
espontaneidade e tudo. E, se o sujeito sai um pouquinho do assunto,
todo mundo tem que gritar: "Digressão!" o mais depressa
possível. O negócio me deixava meio maluco. Tirei uma nota
horrível.
– Por quê?
– Ah, sei lá. Aquela estória de
digressão me chateava. Sei lá. O problema comigo é que eu gosto
quando um sujeito sai do assunto. É mais interessante e tudo.
– Você não gosta que uma pessoa
seja objetiva quando conta uma estória?
– Claro! Gosto que a pessoa seja
objetiva e tudo. Mas não gosto que seja objetiva demais. Não sei.
Acho que não gosto quando a pessoa é objetiva o tempo todo. Os
garotos que conseguiam as melhores notas em Expressão Oral eram
objetivos o tempo todo, isso eram. Mas tinha um garoto, o Richard
Kinsella. Ele não era muito objetivo e a turma vivia gritando
"Digressão !" quando ele falava. Era horrível. Primeiro
porque ele era um cara muito nervoso. Isso mesmo, nervosíssimo –
e, quando chegava a hora de falar, os lábios dele começavam a
tremer e, do fundo da sala, a gente mal conseguia ouvir o que ele
estava dizendo. Mas, quando os lábios dele paravam um pouco de
tremer, eu gostava dos discursos dele mais do que os de qualquer
outro sujeito. Ele também quase foi reprovado. Passou raspando,
porque a turma vivia gritando "Digressão !" para ele. Por
exemplo, ele fez um discurso sobre uma fazenda que o pai dele tinha
comprado em Vermont. O tempo inteirinho que ele falou a turma ficou
gritando "Digressão !" e o professor, um tal de Vinson,
deu-lhe uma nota ruim pra diabo porque ele não contou que espécie
de animais e legumes e outros troços tinha lá na fazenda e tudo.
Sabe o quê que ele fazia? Começava contando essas coisas
todas e aí, de repente, começava a falar de uma carta que a mãe
dele tinha recebido do tio, e que o tio teve poliomielite e tudo aos
quarenta e dois anos de idade, e se recusava a receber visitas no
hospital porque não queria que ninguém o visse com a perna na
tipoia. Não tinha muita ligação com a fazenda, concordo, mas era
simpático. É um troço simpático quando alguém fala de um tio.
Principalmente quando começa a falar da fazenda do pai e, de
repente, fica mais interessado no tio. O negócio é que eu acho uma
sujeira começarem a gritar "Digressão !" pra um sujeito
quando ele está todo embalado num assunto... Não sei. É difícil
de explicar.
Eu nem estava com muita vontade de
tentar. Em parte por causa daquela dor de cabeça desgraçada. Pedi a
Deus que a senhora Antolini chegasse com o café. Se há uma coisa
que me aporrinha é isso, quando alguém diz que o café está pronto
e não está pronto coisa nenhuma.
– Holden... Uma perguntinha
pedagógica e um pouquinho batida. Você não acha que há um tempo e
um lugar para tudo na vida? Você não acha que, se alguém começa a
falar sobre a fazenda do pai, deve aguentar a mão e, depois,
arranjar um jeito de falar sobre a tipoia do tio? Ou, então, se a
tipoia do tio é um assunto tão fascinante, ele não devia tê-lo
escolhido logo como tema da exposição, em vez da fazenda?
Eu não estava com muita vontade de
pensar e responder e tudo. Estava com dor de cabeça e me sentia
podre. Estava até com um pouco de dor de barriga, para falar a
verdade.
– Acho... Sei lá. Acho que sim.
Quer dizer, acho que devia ter escolhido o tio como tema, em vez da
fazenda, se isso era mais interessante para ele. Mas o caso é que,
muitas vezes, a gente só descobre o que interessa mais na hora que
começa a falar sobre uma coisa que não interessa muito. Quer dizer,
às vezes a gente não consegue evitar isso. O que eu acho é que a
gente deve deixar em paz uma pessoa que começa a contar uma estória,
se a estória é pelo menos interessante e o sujeito se anima todo
com o assunto. Gosto de ver uma pessoa ficar toda animada com o
assunto. É bonito. O senhor não conhece esse professor, o tal do
Vinson. Ele às vezes deixava a gente maluco, ele e a droga da turma.
Vivia dizendo à gente para unificar e simplificar. Há coisas que a
gente simplesmente não pode fazer assim. O negócio é que a gente
quase nunca consegue simplificar e unificar um troço, só porque
alguém mandou. O senhor não conhece esse camarada, o Professor
Vinson. Era muito inteligente e tudo, mas estava na cara que era meio
tapado.
– Café, senhores, enfim –
disse a senhora Antolini. Entrou com uma bandeja com café e bolos e
outros troços. – Holden, nem olhe na minha direção. Estou uma
coisa.
– Como vai a senhora? – falei. Fiz
menção de me levantar e tudo, mas o Professor Antolini me segurou
pelo paletó e me obrigou a sentar. Ela estava com a cabeça cheia
desses rolos de ondular cabelo e sem um pingo de pintura. Não estava
nada bonita. Parecia um bocado velha e tudo.
– Vou deixar isso aqui. Sirvam-se à
vontade – falou. Pôs a bandeja na mesinha do centro, empurrando
para o lado um montão de copos. – Como vai sua mãe, Holden?
– Muito bem, obrigado. Não a tenho
visto ultimamente, mas a última vez…
– Querido, se o Holden precisar de
alguma coisa, está tudo no armário da roupa de cama. Prateleira de
cima. Vou me deitar. Estou exausta – ela disse. E dava impressão
de estar mesmo. – Será que vocês dois sabem arrumar o sofá
sozinhos?
– Pode ir dormir descansada que nós
cuidamos de tudo – o Professor Antolini respondeu. Deu um beijo
nela, ela me disse até logo e foi para o quarto. Os dois viviam se
beijando em público.
Tomei meia xícara de café e comi
metade de um pedaço de bolo, mais duro do que pedra. O Professor
Antolini se contentou com outro drinque, e forte à beça. Se ele não
tomar cuidado ainda acaba viciado.
– Almocei com o seu pai há umas
duas semanas – ele falou de repente. – Você sabia?
– Não, não sabia.
– Você não ignora, naturalmente,
que ele anda muito preocupado com você.
– Sei disso. Sei que anda.
– Tudo indica que, antes de me
telefonar, ele tinha recebido uma carta enorme e bastante
perturbadora do seu último diretor, informando que você não estava
fazendo o mínimo esforço. Matando aulas. Não preparando as lições.
Em suma, sendo um completo...
– Não matei aula nenhuma. Não
havia jeito. De vez em quando eu deixava de assistir às aulas de
umas duas matérias, como a tal de Expressão Oral que eu falei
antes. Matar mesmo, não matei...
Não estava com a menor vontade de
discutir o troço. Minha dor de barriga tinha diminuído um pouco com
o café, mas aquela dor de cabeça miserável, continuava.
O Professor Antolini acendeu outro
cigarro. Ele fumava como uma chaminé. Aí falou:
– Francamente, Holden, não sei o
que lhe dizer.
– Eu sei. É difícil falar comigo.
Compreendo.
– Tenho a impressão de que você
está caminhando para alguma espécie de queda... uma queda tremenda.
Mas, honestamente, não sei de que espécie... Está me ouvindo?
– Estou.
A gente via logo que ele estava
procurando se concentrar e tudo.
– Talvez da espécie que faz com que
a gente, aos trinta anos, se sente num bar e odeie todo mundo que
entra com jeito de quem jogou futebol numa universidade. Ou, então,
você conseguirá instruir-se o bastante para odiar todo mundo que
diz: "É um segredo entre mim e você". Ou talvez acabe em
algum escritório, atirando clipes na taquígrafa mais próxima. Não
sei mesmo. Mas você entende o que estou querendo dizer, não
entende?
– Entendo – respondi. E entendia
mesmo. – Mas o senhor se engana sobre esse negócio de odiar os
jogadores de futebol e tudo. O senhor se engana mesmo. Não tenho
raiva de muita gente. Pode ser que, de vez em quando, eu odeie alguns
sujeitos durante algum tempo, como esse cara que eu conheci no
Pencey, o Stradlater, ou esse outro sujeito, o Robert Ackley. De vez
em quando eu tinha ódio deles, confesso, mas isso não dura muito,
esse é que é o caso. Depois de algum tempo, se eu não os visse, se
não vinham ao meu quarto, ou se eu passava umas duas refeições sem
encontrar com eles no refeitório – chegava a sentir falta deles. É
isso mesmo, chegava a ficar com saudade deles.
O Professor Antolini ficou uns dois
minutos em silêncio. Levantou-se, apanhou outro pedaço de gelo,
deixou cair no copo e aí sentou de novo. Via-se que ele estava
pensando. Fiquei torcendo para que ele deixasse a conversa para outro
dia, em vez de continuar naquela hora, mas ele estava embalado. Em
geral, as pessoas se esquentam numa discussão na hora que a gente
está mais frio.
– Está bem. Agora, escuta aqui um
momento... Pode ser que eu não consiga expressar isso tão bem
quanto eu gostaria, mas escrevo uma carta para você amanhã ou
depois explicando tudo. Aí você vai entender direitinho. De
qualquer maneira presta atenção agora.
Começou a se concentrar outra vez, e
aí disse:
– Esta queda para a qual você está
caminhando é um tipo especial de queda, um tipo horrível. O homem
que cai não consegue nem mesmo ouvir ou sentir o baque do seu corpo
no fundo. Apenas cai e cai. A coisa toda se aplica aos homens que,
num momento ou outro de suas vidas, procuram alguma coisa que seu
próprio meio não lhes podia proporcionar. Ou que pensavam que seu
próprio meio não lhes poderia proporcionar. Por isso, abandonam a
busca. Abandonam a busca antes mesmo de começá-la de verdade. Tá
me entendendo?
– Sim, senhor.
– Está mesmo?
– Estou sim.
Levantou-se e despejou mais um pouco
de bebida no copo. Aí se sentou de novo. Ficou um bocado de tempo
sem dizer nada.
– Não quero te assustar – ele
disse – mas vejo você, com toda a clareza, morrendo nobremente, de
uma forma ou de outra por uma causa qualquer absolutamente indigna.
Me olhou de um jeito engraçado.
– Se eu escrever umas palavras para
você, promete que vai ler cuidadosamente? E guardar?
– Prometo, sim – respondi. E era
verdade. Até hoje guardo o papel que ele me deu.
Foi até a escrivaninha, no outro lado
da sala, e escreveu alguma coisa num pedaço de papel, sem se sentar.
Aí voltou e se sentou, com o papel na mão.
– Por estranho que pareça, isso não
foi escrito por um poeta. Foi escrito por um psicanalista chamado
Wilhelm Stekel. Aqui está o que ele... Você ainda está me ouvindo?
– Claro que estou.
– Aqui está o que ele disse: "A
característica do homem imaturo é aspirar a morrer nobremente por
uma causa, enquanto que a característica do homem maduro é querer
viver humildemente por uma causa".
Inclinou-se e me passou o pedaço de
papel. Li imediatamente o que estava escrito, agradeci e tudo, e
guardei o papel no bolso. Foi muito simpático da parte dele
incomodar-se tanto por minha causa. Foi mesmo. Mas a verdade é que
eu não estava realmente com muita vontade de me concentrar. Puxa,
nunca me senti tão cansado, assim de repente.
Mas ele não dava a menor impressão
de cansaço. Em parte porque estava bastante alto.
- Acho que um desses dias - ele falou
- você vai ter que decidir para onde quer ir. E aí vai ter que
começar a ir para lá. E sem perda de tempo. No seu caso, não se
pode perder um minuto que seja.
Concordei com a cabeça, porque ele
estava me encarando e tudo, mas não estava entendendo muito bem o
que ele disse. Eu achava que sabia o que era, mas, naquele momento,
não tinha certeza absoluta. Estava cansado pra diabo.
– Detesto dizer isso, mas acho que,
assim que você tiver uma ideia de onde quer chegar, seu primeiro
passo vai ser aplicar-se no colégio. É o que você vai ter que
fazer. Você é um estudante - quer a ideia lhe agrade ou não. Você
está apaixonado pelo conhecimento. E eu acho que você vai
encontrar, depois que deixar para trás todos esses Professores
Vineses e suas composições e...
– Vinsons – falei. Ele queria
dizer todos os Professores Vinsons, e não todos os Professores
Vineses. Mas eu não devia ter interrompido.
– Está bem... os Professores
Vinsons. Na hora em que você conseguir deixar para trás todos os
Professores Vinsons, você vai começar a se aproximar cada vez mais
– isto é, se você quiser, e se procurar, e se tiver paciência de
esperar – da espécie de conhecimento que será muito, muito
importante para você. Entre outras coisas, você vai descobrir que
não é a primeira pessoa a ficar confusa e assustada, e até
enojada, pelo comportamento humano. Você não está de maneira
nenhuma sozinho nesse terreno, e se sentirá estimulado e
entusiasmado quando souber disso. Muitos homens, muitos mesmo,
enfrentaram os mesmos problemas morais e espirituais que você está
enfrentando agora. Felizmente, alguns deles guardaram um registro de
seus problemas. Você aprenderá com eles, se quiser. Da mesma forma
que, algum dia, se você tiver alguma coisa a oferecer, alguém irá
aprender alguma coisa de você. É um belo arranjo recíproco. E não
é instrução. É história. É poesia.
Parou e tomou um longo gole do copo.
Aí recomeçou. Puxa, ele estava embalado mesmo. Fiquei feliz por não
ter tentado interrompê-lo nem nada.
– Não estou querendo dizer que só
os homens instruídos e cultos são capazes de contribuir com algo
valioso para o mundo. Não é isso. O que eu quero dizer é que os
homens instruídos e cultos, se de fato tiverem brilho e capacidade
criadora – o que, infelizmente, é raro – tendem a deixar
registros infinitamente mais valiosos do que aqueles que apenas têm
brilho e capacidade criadora. Tendem a se expressar com mais clareza
e, geralmente, têm a paixão de desenvolver seu pensamento até o
fim. E – o que é mais importante – na grande maioria dos casos
têm mais humildade do que o pensador menos culto. Você está me
acompanhando?
– Sim, senhor.
Ficou outra vez sem dizer nada por um
tempão. Não sei se isso acontece com todo mundo, mas é meio chato
a gente ficar sentado, esperando uma pessoa dizer alguma coisa,
enquanto ela está pensando. É duro mesmo. Fiquei me esforçando
para não bocejar. Não que eu estivesse chateado ou coisa parecida –
não estava – mas de repente me deu um sono filho da mãe.
– Há outra coisa que uma educação
acadêmica poderá proporcionar a você. Se você prosseguir nela por
um tempo razoável, ela acabará lhe dando uma ideia das dimensões
da sua mente. Do que ela comporta e, talvez, do que ela não
comporta. Depois de algum tempo, você vai ter uma ideia do tipo de
pensamento que sua mente deve abrigar. A vantagem disso é que talvez
lhe poupe uma enormidade de tempo, que você perderia experimentando
ideias que não se ajustam a você, não combinam com você. Você
começará a conhecer as suas medidas exatas, e vestirá sua mente de
acordo com elas.
Aí, de repente, bocejei. Era o tipo
da grossura, mas não pude evitar.
Mas o Professor Antolini só fez rir.
– Vamos – ele disse, e se
levantou. – Vamos arrumar o sofá.
Eu o acompanhei até o armário. Ele
tentou tirar alguns lençóis e cobertores da prateleira de cima,
mas, com o copo na mão, não conseguia. Por isso, bebeu o que
restava, pôs o copo no chão e aí tirou os troços. Ajudei-o a
trazer tudo para o sofá e fizemos a cama juntos. Ele não tinha
muito jeito para a coisa. Não sabia esticar e prender nada direito.
Mas não me importei. Estava tão cansado que seria capaz de dormir
em pé.
– Como vão as suas mulheres todas?
– Vão indo – respondi. Em matéria
de conversa eu estava uma droga, mas não queria me esforçar.
– Como vai a Sally?
Ele conhecia a Sally. Eu a tinha
apresentado a ele uma vez.
– Vai bem. Saí com ela hoje de
tarde – falei. Puxa, até parecia que tinham passado uns vinte
anos. - Quase não temos mais nada em comum.
– Ela é uma garota bonita pra
burro. E aquela outra menina? Aquela de quem você me falou, do
Maine?
– Ah, sei... a Jane Gallagher. Ela é
uma boa garota. Acho até que vou dar um telefonema para ela amanhã.
A essa altura já tínhamos acabado de
fazer a cama.
– É toda tua – ele disse. – Não
sei que diabo você vai fazer com tanta perna.
– Não tem importância. Já estou
acostumado a dormir em camas curtas – respondi. – Muito obrigado.
O senhor e a senhora Antolini salvaram mesmo a minha vida hoje.
– Você sabe onde é o banheiro. Se
precisar de alguma coisa, basta dar um berro. Vou ficar ainda um
bocadinho na cozinha... A luz te incomoda?
– Não, nem um pouquinho. Muito
obrigado.
– Está bem. Boa noite, bonitão.
– Boa noite, Professor. Muito
obrigado.
Ele foi para a cozinha e eu tirei a
roupa no banheiro. Não pude escovar os dentes porque não havia
trazido escova. Também não tinha pijama, e o Professor Antolini se
havia esquecido de me emprestar um. Voltei para a sala, apaguei o
abajur junto do sofá e me deitei só de cuecas. O sofá era um
bocado pequeno para mim, mas na verdade eu seria capaz de dormir em
pé, sem pestanejar. Fiquei acordado só uns dois segundos, pensando
nos troços que o Professor tinha dito. Aquela estória de descobrir
o tamanho da mente e tudo. Ele era mesmo um camarada inteligente pra
chuchu. Mas não consegui ficar com a droga dos olhos abertos e
peguei no sono.
Aí aconteceu um troço. Não gosto
nem de falar no assunto.
Acordei de repente. Não sei que horas
eram nem nada, só sei que acordei. Senti uma coisa na minha cabeça,
a mão de uma pessoa. Puxa, fiquei apavorado pra diabo. Num instante
vi que era a mão do Professor Antolini. Sabe o quê que ele estava
fazendo? Estava sentado no chão, ao lado do sofá, no escuro e tudo,
e estava assim me fazendo festinha ou um carinho na cabeça. Puxa,
devo ter dado um pulo duns mil metros.
– Que negócio é esse?
– Nada, estou sentado aqui,
admirando...
– Quê que há, afinal? –
perguntei de novo. Não sabia que droga ia falar, estava
confuso pra burro.
– Que tal falar um pouquinho mais
baixo? Estou só sentado aqui...
– Está mesmo na hora de ir embora –
falei. Puxa, como eu estava nervoso. Comecei a vestir a porcaria das
minhas calças no escuro. Quase não acertava, de tão nervoso.
Conheço mais tarados, nas escolas e tudo, do que qualquer pessoa, e
eles sempre resolvem ser tarados na hora que eu estou por perto.
– Onde é que você tem que ir? –
ele me perguntou. Estava tentando aparentar muita naturalidade e
controle e tudo, mas não estava natural coisíssima nenhuma. No
duro.
– Deixei minha bagagem e tudo na
estação. Acho melhor ir buscar. Todos os meus troços estão lá
dentro.
– As malas vão estar no mesmo lugar
amanhã de manhã. Agora trata de voltar para a cama. Também vou me
deitar. Quê que houve com você?
– Nada. Só que todo o meu dinheiro
e meus troços estão nas malas. Volto daqui a pouco. Apanho um táxi
e volto num instante – falei. Puxa, estava me embaralhando todo, no
escuro. - O problema é que o dinheiro não é meu, é da minha mãe,
e eu...
– Não seja ridículo, Holden. Volta
para a cama. É o que eu vou fazer também. O dinheiro está bem
seguro até de manhã...
– Não, fora de brincadeira, tenho
que ir. Tenho mesmo.
Tinha quase acabado de me vestir, só
que não achava a gravata. Não me lembrava onde tinha deixado a
droga da gravata. Vesti o paletó e tudo, sem ela mesmo. O Professor
Antolini estava sentado agora na poltrona grande, um pouco afastado
de mim, me espiando. Estava escuro e tudo e não dava para vê-lo
direito, mas eu sabia que ele estava me olhando, sem a menor dúvida.
E também continuava bebendo. Dava para ver, na mão dele, o copo de
estimação.
– Você é um garoto muito estranho.
Muito estranho mesmo.
– Sei disso – respondi. Nem me dei
ao trabalho de procurar muito pela gravata. Fui embora sem ela. –
Até logo, Professor. Muito obrigado. Fora de brincadeira.
Ele me acompanhou até a saída e,
quando chamei o elevador, continuou parado na droga da porta. Ficou
só repetindo aquela estória de que eu era "um garoto muito
estranho, muito estranho mesmo". Estranho uma ova. Ele ficou
esperando a titica do elevador chegar. Juro que nunca vi um elevador
demorar tanto em toda a droga de minha vida. Eu não sabia que
porcaria ia dizer enquanto o elevador não vinha, e ele continuava
ali, em pé, por isso falei:
– Vou começar a ler uns bons
livros. Vou mesmo.
O negócio é que eu tinha que dizer
alguma coisa.
Era uma situação embaraçosa pra
burro.
– Apanha tua bagagem e volta
correndo pra cá. Vou deixar a porta só encostada.
– Muito obrigado. Até logo!
Até que enfim o elevador tinha
chegado. Entrei e desci. Puxa, eu estava tremendo feito um
desgraçado. E suando também. Quando me acontece um troço assim
meio tarado, começo a suar como um filho da mãe. Esse tipo de coisa
já me aconteceu mais de vinte vezes, desde que eu era garotinho. Não
aguento isso.
J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio

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