Não, não quero mais gostar de
ninguém porque dói. Não suporto mais nenhuma morte de ninguém que
me é caro.
Meu mundo é feito de pessoas que são
as minhas – e eu não posso perdê-las sem me perder.
Sem pudor, com lágrimas nos olhos,
choro a morte de Sérgio Porto. Ele criava alegria, ele se comunicava
com o mundo e fazia esta terra infernal ficar mais suave: ele nos
fazia sorrir e rir. Não pude deixar de pensar: ó Deus, por que não
eu em lugar dele? O povo sentirá a sua falta, vai ficar mais pobre
de sorrisos, enquanto eu escrevo para poucos: então por que não eu
em lugar dele? O povo precisa de pão e circo.
Sérgio Porto, perdoe eu não ter dito
jamais que adorava o que você escrevia. Perdoe eu não ter procurado
você para uma conversa entre amigos. Mas uma conversa mesmo: dessas
em que as almas são expostas. Porque você tinha lágrimas também.
Atrás do riso. Perdoe eu ter sobrevivido.
Clarice Lispector, em Todas as crônicas
Nenhum comentário:
Postar um comentário