terça-feira, 26 de maio de 2026

Amor de mãe



Dona Lucélia.Taí uma coroa que eu admiro. Sua luta pra educar as três filhas é matéria obrigatória nos papos de Paquetá. Viúva desde muito moça, Dona Lucélia batalhou que não foi brincadeira, mas conseguiu seu intento: Helena Lúcia, Lúcia Helena e Lúcia Lucélia terminaram brilhantemente os estudos, ganham muito bem, são prendadas e, ainda por cima, bonitas. E nem pensem que o trabalho de uma vida inteira bitolou a visão de Dona Lucélia. Nada disso. Suas preocupações abrangem um campo vasto e complexo:
Só vou me realizar mesmo como mãe no dia em que souber que as meninas são felizes na cama como eu fui com o falecido.
E depois de um longo suspiro:
O falecido era, como se diz por aí, um homem muito bem-dotado. De caráter também.
O grande sarro é que Dona Lucélia acabou inventando um “teste” que asseguraria noites felizes pra sua ninhada: o Teste da Lâmpada.
Toda vez que uma das meninas entrava em casa com um pinta e contava que havia noivado à vista, Dona Lucélia aplicava o infalível teste da lâmpada, de forma a deixar também à vista dela certas qualidades do pretendente que o decoro impedia a exibição.
Casalzinho arrulhando doçuras no sofá da sala e Dona Lucélia aparecia com um velho calção do falecido Vivaldo — que Deus o tenha! — nas mãos. O referido calção, uma peça de museu, era guardado exclusivamente pro teste.
Meu filho, não repara eu interromper assim o namoro de vocês, mas é que eu tô precisando com urgência trocar a lâmpada do banheiro de empregada.
O pretendente, geralmente interessado em cair nas boas graças da coroa, se oferecia de cara. E aí é que a bola era lançada em profundidade:
Faz o seguinte: lá tá meio empoeirado e vai sujar tua roupa. Tem aqui esse calção do falecido...
Neguim tentava escapar:
Precisa não. Minha calça é velha mesmo e...
Mas Dona Lucélia não cedia um milímetro. Fechava a cara e deixava bem claro que a cotação do noivo tava caindo de cabeça:
Olha aqui, meu chapa: não há nada de errado com o calção do falecido. Ele não morreu de nenhum treco contagioso e eu considero sua atitude um insulto à memória dele.
O quase noivo perdia o rebolado:
Não! Por favor, não se ofenda! A senhora interpretou mal as minhas palavras. Eu... eu até simpatizei com o calção e...
Então veste!
Ficava, pra variar, meio largo.
A própria Dona Lucélia armava a escada e ficava embaixo.
Pode subir sem susto que eu seguro.
Bom, o calção era estilo vista-pro-mar e o suporte tinha sido cortado por Dona Lucélia. Pra facilitar a observação do objetivo.
Tudo bem, meu filho?
Ué, a lâmpada tá perfeita,Dona Lucélia.
Neste exato momento da peleja, a filha interessada dava a senha:
Não há perigo de curto, mãe?
Dona Lucélia olhava de novo pela perna do calção e garantia:
De jeito nenhum. É filamento pra ninguém botar defeito. Tás numa boa. Quer dizer, tamos todos numa boa contra a falta de luz, hi, hi, hi...
E assim, queridas leitoras, Helena Lúcia ficou noiva. Logo depois foi a vez de Lúcia Helena. Os rapazes eram tipos comuns: nem altos nem baixos, boas-praças, salários médios, por aí. E Dona Lucélia em paz com o sucesso do teste.
Na vez da caçula, Lúcia Lucélia, apareceu um tal de Renatão, de Mercedes esporte, boa-pinta pra burro, cheio da nota. Mas, infelizmente, o teste da lâmpada foi um redondo fracasso. Quando a garota perguntou pelo perigo de curto, a coroa perdeu as estribeiras e foi definitiva:
Curto? Pra mim esse pavio já pegou fogo e não sabe. Até um recém-nascido tem mais argumento. Lúcia Lucélia, saiba que eu desaprovo essa união. E o senhor aí, faça o favor de devolver o calção do falecido.

Aldir Blanc, em Rua dos Artistas e Arredores

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