Dona Lucélia.Taí uma coroa que eu
admiro. Sua luta pra educar as três filhas é matéria obrigatória
nos papos de Paquetá. Viúva desde muito moça, Dona Lucélia
batalhou que não foi brincadeira, mas conseguiu seu intento: Helena
Lúcia, Lúcia Helena e Lúcia Lucélia terminaram brilhantemente os
estudos, ganham muito bem, são prendadas e, ainda por cima, bonitas.
E nem pensem que o trabalho de uma vida inteira bitolou a visão de
Dona Lucélia. Nada disso. Suas preocupações abrangem um campo
vasto e complexo:
— Só vou me realizar mesmo como mãe
no dia em que souber que as meninas são felizes na cama como eu fui
com o falecido.
E depois de um longo suspiro:
— O falecido era, como se diz por
aí, um homem muito bem-dotado. De caráter também.
O grande sarro é que Dona Lucélia
acabou inventando um “teste” que asseguraria noites felizes pra
sua ninhada: o Teste da Lâmpada.
Toda vez que uma das meninas entrava
em casa com um pinta e contava que havia noivado à vista, Dona
Lucélia aplicava o infalível teste da lâmpada, de forma a deixar
também à vista dela certas qualidades do pretendente que o decoro
impedia a exibição.
Casalzinho arrulhando doçuras no sofá
da sala e Dona Lucélia aparecia com um velho calção do falecido
Vivaldo — que Deus o tenha! — nas mãos. O referido calção, uma
peça de museu, era guardado exclusivamente pro teste.
— Meu filho, não repara eu
interromper assim o namoro de vocês, mas é que eu tô precisando
com urgência trocar a lâmpada do banheiro de empregada.
O pretendente, geralmente interessado
em cair nas boas graças da coroa, se oferecia de cara. E aí é que
a bola era lançada em profundidade:
— Faz o seguinte: lá tá meio
empoeirado e vai sujar tua roupa. Tem aqui esse calção do
falecido...
Neguim tentava escapar:
— Precisa não. Minha calça é
velha mesmo e...
Mas Dona Lucélia não cedia um
milímetro. Fechava a cara e deixava bem claro que a cotação do
noivo tava caindo de cabeça:
— Olha aqui, meu chapa: não há
nada de errado com o calção do falecido. Ele não morreu de nenhum
treco contagioso e eu considero sua atitude um insulto à memória
dele.
O quase noivo perdia o rebolado:
— Não! Por favor, não se ofenda! A
senhora interpretou mal as minhas palavras. Eu... eu até simpatizei
com o calção e...
— Então veste!
Ficava, pra variar, meio largo.
A própria Dona Lucélia armava a
escada e ficava embaixo.
— Pode subir sem susto que eu
seguro.
Bom, o calção era estilo
vista-pro-mar e o suporte tinha sido cortado por Dona Lucélia. Pra
facilitar a observação do objetivo.
— Tudo bem, meu filho?
— Ué, a lâmpada tá perfeita,Dona
Lucélia.
Neste exato momento da peleja, a filha
interessada dava a senha:
— Não há perigo de curto, mãe?
Dona Lucélia olhava de novo pela
perna do calção e garantia:
— De jeito nenhum. É filamento pra
ninguém botar defeito. Tás numa boa. Quer dizer, tamos todos numa
boa contra a falta de luz, hi, hi, hi...
E assim, queridas leitoras, Helena
Lúcia ficou noiva. Logo depois foi a vez de Lúcia Helena. Os
rapazes eram tipos comuns: nem altos nem baixos, boas-praças,
salários médios, por aí. E Dona Lucélia em paz com o sucesso do
teste.
Na vez da caçula, Lúcia Lucélia,
apareceu um tal de Renatão, de Mercedes esporte, boa-pinta pra
burro, cheio da nota. Mas, infelizmente, o teste da lâmpada foi um
redondo fracasso. Quando a garota perguntou pelo perigo de curto, a
coroa perdeu as estribeiras e foi definitiva:
— Curto? Pra mim esse pavio já
pegou fogo e não sabe. Até um recém-nascido tem mais argumento.
Lúcia Lucélia, saiba que eu desaprovo essa união. E o senhor aí,
faça o favor de devolver o calção do falecido.
Aldir Blanc, em Rua dos Artistas e Arredores

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