Certas cidades não conseguem se
livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem.
Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço
vêm de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas.
Mas não adianta. Estas histórias do
psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o
próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira
bem-educada), mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.
Pues, diz que o divã no consultório
do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os
pacientes de bombacha e pé no chão.
– Buenas. Vá entrando e se abanque,
índio velho.
– O senhor quer que eu deite logo no
divã?
– Bom, se o amigo quiser dançar uma
marca antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e
charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem
dinheiro.
– Certo, certo. Eu...
– Aceita um mate?
– Um quê? Ah, não. Obrigado.
- Pos desembucha.
– Antes, eu queria saber. O senhor é
freudiano?
– Sou e sustento. Mais ortodoxo que
reclame de xarope.
– Certo. Bem. Acho que o meu
problema é com a minha mãe.
– Outro...
– Outro?
– Complexo de Édipo. Dá mais que
pereba em moleque.
– E o senhor acha...
– Eu acho uma poca vergonha.
– Mas...
– Vai te metê na zona e deixa a
velha em paz, tchê!
Contam que outra vez um casal pediu
para consultar, juntos, o analista de Bagé.
Ele, a princípio, não achou muito
ortodoxo.
– Quem gosta de aglomeramento é
mosca em bicheira...
Mas acabou concordando.
– Se abanquem, se abanquem no más.
Mas que parelha buenacha, tchê. Qual é o causo?
– Bem – disse o homem –, é que
nós tivemos um desentendimento...
– Mas tu também é um bagual. Tu
não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?
– Eu não meti a espora. Não é,
meu bem?
– Não fala comigo!
– Mas essa alta mais nervosa que
gato em dia de faxina.
– Ela tem um problema de carência
afetiva...
– Eu não sou de muita frescura. Lá
de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.
– Nós estamos justamente
atravessando uma cris e de relacionamento parque ela tem procurado
experiências extraconjugais e...
– Epa. Opa. Quer dizer que a negra
velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um
bota a mão?
– Nós somos pessoas modernas. Ela
está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?
– Ela ta procurando o verdadeiro tu
nos outros?
– O verdadeiro eu, não. O
verdadeiro eu dela.
– Mas isto ta ficando mais enrolado
que linguiça de venda. Te deita no pelego.
– Eu?
– Ela. Tu espera na salinha.
Luís Fernando Veríssimo, em O Analista de Bagé

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