41.
O
silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de
monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo
desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo.
Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair
esfiado de água sombriamente luminosa que se destaca das fachadas
sujas e, ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não
sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou.
Toda
a amargura retardada da minha vida despe, aos meus olhos sem
sensação, o traje de alegria natural de que usa nos acasos
prolongados de todos os dias. Verifico que, tantas vezes alegre,
tantas vezes contente, estou sempre triste. E o que em mim verifica
isto está por detrás de mim, como que se debruça sobre o meu
encostado à janela, e, por sobre os meus ombros, ou até a minha
cabeça, fita, com olhos mais íntimos que os meus, a chuva lenta, um
pouco ondulada já, que filigrana de movimento o ar pardo e mau.
Abandonar
todos os deveres, ainda os que nos não exigem, repudiar todos os
lares, ainda os que não foram nossos, viver do impreciso e do
vestígio, entre grandes púrpuras de loucura, e rendas falsas de
majestades sonhadas... Ser qualquer coisa que não sinta o pesar de
chuva externa, nem a mágoa da vacuidade íntima... Errar sem alma
nem pensamento, sensação sem si-mesma, por estrada contornando
montanhas, por vales sumidos entre encostas íngremes, longínquo,
imerso e fatal...
Perder-se
entre paisagens como quadros. Não-ser a longe e cores...
Um
sopro leve de vento, que por detrás da janela não sinto, rasga em
desnivelamentos aéreos a queda rectilínea da chuva. Clareia
qualquer parte do céu que não vejo. Noto-o porque, por detrás dos
vidros meio-limpos da janela em frente, já vejo vagamente o
calendário na parede lá dentro, que até agora não via.
Esqueço.
Não vejo, sem pensar.
Cessa
a chuva, e dela fica, um momento, uma poalha de diamantes mínimos,
como se, no alto, qualquer coisa como uma grande toalha se sacudisse
azulmente dessas migalhinhas. Sente-se que parte do céu está já
aberta. Vê-se, através da janela em frente, o calendário mais
nitidamente. Tem uma cara de mulher, e o resto é fácil porque o
reconheço, e a pasta dentífrica é a mais conhecida de todas.
Mas
em que pensava eu antes de me perder a ver? Não sei. Vontade?
Esforço? Vida? Com um grande avanço de luz sente-se que o céu é
já quase todo azul. Mas não há sossego — ah, nem o haverá
nunca! — no fundo do meu coração, poço velho ao fim da quinta
vendida, memória de infância fechada a pó no sótão da casa
alheia. Não há sossego — e, ai de mim!, nem sequer há desejo de
o ter…
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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