Da
vez primeira que encontrei Berta Singerman, notei que ela costumava
pedir desculpa em francês. Bem sabia eu que não podia ser esnobismo
da sua parte, que ela não é dessas, não. A explicação, mesmo, do
pardon de Berta, é que o francês é a língua ideal para
pedir desculpas e coisas afins, da mesma forma que o italiano é o
ideal para a descompostura.
Meu
Deus, como nos desrecalcamos nos filmes italianos ao ouvir a Sophia
ou La Magnani soltarem, com sua larga boca, as sonoras sílabas dos
destampatórios!
Por
outro lado, confessou-me um conterrâneo meu que perdera a fé ao
ouvir o Sermão da Montanha em espanhol... Apresso-me a explicar que
o trágico acidente religioso de meu amigo provém simplesmente de
que, em nossa infância, lá para as bandas da Fronteira, os mascates
eram todos castelhanos e em castelhano nos procuravam impingir suas
mercadorias, com toda a sua lábia e farofa. E vai daí o belo idioma
de Cervantes e S. Juan de la Cruz ter ficado para nós,
fronteiristas, injustamente passível de suspeita...
Acho
até que o espanhol é melhor que o português na poesia lírica,
especialmente na redondilha, comum a ambas as línguas: basta
folhearmos ao acaso Lope de Vega e Garcia Lorca, distantes quatro
séculos um do outro, mas contemporâneos na relativa eternidade
poética.
Ora,
quem diz poesia lírica diz epistolário romântico. Tanto assim que
houve tempo em que eu escrevia cartas quase diárias em espanhol para
a irmã de Gabriela. Verdade que se tratava de uma espécie de
máscara: eu dizia-lhe em espanhol tudo aquilo que não me arriscava
a dizer-lhe em português. E até hoje, quarenta anos depois, tenho
uma bruta vergonha dessa pobre moça, por causa de um erro de
espanhol. Queria eu parafrasear Teresa de Jesus, baixando do plano do
amor divino para o humano um seu famoso verso. No tienes que me
dar por que te quiera — dissera a Santa. Muy tienes que me
dar por que te quiera — disse eu. Ora, o que ali cabia era
mucho (e não muy) mas não cabia na métrica.
Aliás,
é a única mágoa que me resta daquela história. Sim, podem dizer o
que quiserem do Tempo, menos que não seja como uma brisa que
resserena tudo, antes de vir a noite.
Mário Quintana, em Sapato Florido
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