21/07/2025

Língua e expressão

Da vez primeira que encontrei Berta Singerman, notei que ela costumava pedir desculpa em francês. Bem sabia eu que não podia ser esnobismo da sua parte, que ela não é dessas, não. A explicação, mesmo, do pardon de Berta, é que o francês é a língua ideal para pedir desculpas e coisas afins, da mesma forma que o italiano é o ideal para a descompostura.
Meu Deus, como nos desrecalcamos nos filmes italianos ao ouvir a Sophia ou La Magnani soltarem, com sua larga boca, as sonoras sílabas dos destampatórios!
Por outro lado, confessou-me um conterrâneo meu que perdera a fé ao ouvir o Sermão da Montanha em espanhol... Apresso-me a explicar que o trágico acidente religioso de meu amigo provém simplesmente de que, em nossa infância, lá para as bandas da Fronteira, os mascates eram todos castelhanos e em castelhano nos procuravam impingir suas mercadorias, com toda a sua lábia e farofa. E vai daí o belo idioma de Cervantes e S. Juan de la Cruz ter ficado para nós, fronteiristas, injustamente passível de suspeita...
Acho até que o espanhol é melhor que o português na poesia lírica, especialmente na redondilha, comum a ambas as línguas: basta folhearmos ao acaso Lope de Vega e Garcia Lorca, distantes quatro séculos um do outro, mas contemporâneos na relativa eternidade poética.
Ora, quem diz poesia lírica diz epistolário romântico. Tanto assim que houve tempo em que eu escrevia cartas quase diárias em espanhol para a irmã de Gabriela. Verdade que se tratava de uma espécie de máscara: eu dizia-lhe em espanhol tudo aquilo que não me arriscava a dizer-lhe em português. E até hoje, quarenta anos depois, tenho uma bruta vergonha dessa pobre moça, por causa de um erro de espanhol. Queria eu parafrasear Teresa de Jesus, baixando do plano do amor divino para o humano um seu famoso verso. No tienes que me dar por que te quiera — dissera a Santa. Muy tienes que me dar por que te quiera — disse eu. Ora, o que ali cabia era mucho (e não muy) mas não cabia na métrica.
Aliás, é a única mágoa que me resta daquela história. Sim, podem dizer o que quiserem do Tempo, menos que não seja como uma brisa que resserena tudo, antes de vir a noite.

Mário Quintana, em Sapato Florido

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