19.
No recôncavo da praia à beira-mar,
entre as selvas e as várzeas da margem, subia da incerteza do abismo
nulo a inconstância do desejo aceso. Não haveria que escolher entre
os trigos e os muitos e a distância continuava entre ciprestes.
O prestígio das palavras isoladas, ou
reunidas segundo um acordo de som, com ressonâncias íntimas e
sentidos divergentes no mesmo tempo em que convergem, a pompa das
frases postas entre os sentidos das outras, malignidade dos
vestígios, esperança dos bosques, e nada mais que a tranquilidade
dos tanques entre as quintas da infância dos meus subterfúgios...
Assim, entre os muros altos da audácia absurda, nos renques das
árvores e nos sobressaltos do que se estiola, outro que não eu
ouviria dos lábios tristes a confissão negada a melhores
insistências. Nunca, entre o tinir das lanças no pátio por ver,
nem que os cavaleiros viessem de volta da estrada vista desde o alto
do muro, haveria mais sossego no Solar dos Últimos, nem se lembraria
outro nome, do lado de cá da estrada, senão o que encantava de
noite, com o das mouras, a criança que morreu depois, da vida e da
maravilha.
Leves, entre os sulcos que havia na
erva, porque os passos abriam nadas entre o verdor agitado, as
passagens dos últimos perdidos soavam arrastadamente, como
reminiscências do vindouro. Eram velhos os que haveriam de vir, e só
novos os que não viriam nunca. Os tambores rolaram à beira da
estrada e os clarins pendiam nulos nas mãos lassas, que os deixariam
se ainda tivessem força para deixar qualquer coisa.
Mas, de novo, na consequência do
prestígio, soavam altos os alaridos findos, e os cães tergiversavam
nas áleas vistas. Tudo era absurdo, como um luto, e as princesas dos
sonhos dos outros passeavam sem claustros indefinidamente.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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