Diante
de um inimigo comum, os homens se unem. Derrotado o inimigo comum, os
vitoriosos, que dantes estavam unidos contra aquele inimigo, se
tornam inimigos uns dos outros: a guerra contra um inimigo externo se
transforma em guerra entre os irmãos internos.
Pois
é um caso desses que está relatado no livro de Juízes, das
Escrituras inspiradas, cap. 12.
Por
uma questão qualquer que não vem ao caso, os guerreiros da tribo de
Gileade brigaram com os guerreiros da tribo de Efraim, todos eles
irmãos do povo de Israel.
Derrotados,
os efraimitas ficaram com medo de que os vitoriosos guerreiros
gileaditas, para se vingar, invadissem seu território e matassem
todos os homens. Pensaram então: “O jeito é a gente, durante a
noite, passar para os limites da tribo de Gileade. Assim passaremos
por gileaditas e eles não nos matarão”.
E
assim fizeram. Foram para a fronteira onde havia uma guarda.
“Alto
lá, identifiquem-se!”, berravam os guardas gileaditas.
Respondiam
os efraimitas disfarçados:
“Somos
gileaditas. Deixem-nos passar...”
Acontecia,
entretanto, que os efraimitas tinham um sotaque que os identificava.
Sua língua não conseguia pronunciar o som “sh”. Aí o guarda
ordenava:
“Fale
‘shiboleth’.”
O
efraimita dizia:
“Siboleth...”
Diz
o texto inspirado que, naquela ocasião, 42 mil efraimitas foram
decapitados pelos seus irmãos gileaditas — o que dá, em média,
1.750 efraimitas decapitados por hora e 30 efraimitas decapitados por
minuto —, seu sangue misturando-se com as águas do rio Jordão...
(Juízes, 12:5-6). E não existe no texto sagrado, inspirado
por Deus para exemplo, nenhuma condenação dessa matança, a
despeito do mandamento “Não matarás”. O que prova que o povo de
Deus não dava muita bola para os mandamentos de Jeová. E parece que
ele mesmo não levava a sério os mandamentos que ele mesmo
promulgara, porque os morticínios, por sua ordem, são assombrosos.
Rubem Alves, em Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo
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