13/03/2025

Cuidado com o seu Sotaque

Diante de um inimigo comum, os homens se unem. Derrotado o inimigo comum, os vitoriosos, que dantes estavam unidos contra aquele inimigo, se tornam inimigos uns dos outros: a guerra contra um inimigo externo se transforma em guerra entre os irmãos internos.
Pois é um caso desses que está relatado no livro de Juízes, das Escrituras inspiradas, cap. 12.
Por uma questão qualquer que não vem ao caso, os guerreiros da tribo de Gileade brigaram com os guerreiros da tribo de Efraim, todos eles irmãos do povo de Israel.
Derrotados, os efraimitas ficaram com medo de que os vitoriosos guerreiros gileaditas, para se vingar, invadissem seu território e matassem todos os homens. Pensaram então: “O jeito é a gente, durante a noite, passar para os limites da tribo de Gileade. Assim passaremos por gileaditas e eles não nos matarão”.
E assim fizeram. Foram para a fronteira onde havia uma guarda.
Alto lá, identifiquem-se!”, berravam os guardas gileaditas.
Respondiam os efraimitas disfarçados:
Somos gileaditas. Deixem-nos passar...”
Acontecia, entretanto, que os efraimitas tinham um sotaque que os identificava. Sua língua não conseguia pronunciar o som “sh”. Aí o guarda ordenava:
Fale ‘shiboleth’.”
O efraimita dizia:
Siboleth...”
Diz o texto inspirado que, naquela ocasião, 42 mil efraimitas foram decapitados pelos seus irmãos gileaditas — o que dá, em média, 1.750 efraimitas decapitados por hora e 30 efraimitas decapitados por minuto —, seu sangue misturando-se com as águas do rio Jordão... (Juízes, 12:5-6). E não existe no texto sagrado, inspirado por Deus para exemplo, nenhuma condenação dessa matança, a despeito do mandamento “Não matarás”. O que prova que o povo de Deus não dava muita bola para os mandamentos de Jeová. E parece que ele mesmo não levava a sério os mandamentos que ele mesmo promulgara, porque os morticínios, por sua ordem, são assombrosos.

Rubem Alves, em Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

Nenhum comentário:

Postar um comentário