Engenho Pé da Serra dos Felipe, Doutor Severiano - RN (Foto: Elilson Batista)
É
uma rapadura especial,
feita com melado sovado e arejado a colher de pau, até o ponto de
açucarar. Que é ainda ostensivo ou discreto, acessório ou
predominante, substantivo ou adjetivo segundo se combine ao duro, ao
mole, ao líquido, ao pulverulento, ao pastoso, ao espumoso, ao sol e
ao gel. Compor com açúcar é como compor com a nota musical ou a
cor, pois uma e outra variam e se desfiguram, configuram ou
transfiguram segundo os outros sons e os outros tons que se lhe
aproximam ou avizinham.
Baú
de Ossos, Pedro Nava.
O
pino do sol na moleira. Barreiros seco dormindo, sonhando.
Mormaço
de dia. Longa seca. A maniva, a lavoura perdida, queimada. Os pais
enterrados. Os burros sem comida e sem força. Tudo seco de tudo
naquele mês de agosto.
O
feixe de cana é colocado no chão, com cuidado.
João
enxuga o suor e as lágrimas e mexe o tacho. Mexe o tacho. Na casa de
farinha, fazendo às vezes de engenho, joão mexe mais uma e outra
vez o grande tacho, como aprendeu há muitos, muitos anos.
Com
todo cuidado e zelo faz uma dança lenta e ritmada com a colher de
pau gigante. Toda aquela cana-de-açúcar após a moagem, olhos
vidrados na fervura borbulhante do caldo, que desce aos borbotões da
mão da colher. Depois tira tudo do tacho, para moldar e secar.
Pequenos
tijolos nascendo doces, muito doces, açucarando a vida dura.
João
joga canela e cravo. A gosto.
Wescley Gama, in Nove contos serranos

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