segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Rapadura preta

Engenho Pé da Serra dos Felipe, Doutor Severiano - RN (Foto: Elilson Batista)


É uma rapadura especial, feita com melado sovado e arejado a colher de pau, até o ponto de açucarar. Que é ainda ostensivo ou discreto, acessório ou predominante, substantivo ou adjetivo segundo se combine ao duro, ao mole, ao líquido, ao pulverulento, ao pastoso, ao espumoso, ao sol e ao gel. Compor com açúcar é como compor com a nota musical ou a cor, pois uma e outra variam e se desfiguram, configuram ou transfiguram segundo os outros sons e os outros tons que se lhe aproximam ou avizinham.
Baú de Ossos, Pedro Nava.


O pino do sol na moleira. Barreiros seco dormindo, sonhando.
Mormaço de dia. Longa seca. A maniva, a lavoura perdida, queimada. Os pais enterrados. Os burros sem comida e sem força. Tudo seco de tudo naquele mês de agosto.
O feixe de cana é colocado no chão, com cuidado.
João enxuga o suor e as lágrimas e mexe o tacho. Mexe o tacho. Na casa de farinha, fazendo às vezes de engenho, joão mexe mais uma e outra vez o grande tacho, como aprendeu há muitos, muitos anos.
Com todo cuidado e zelo faz uma dança lenta e ritmada com a colher de pau gigante. Toda aquela cana-de-açúcar após a moagem, olhos vidrados na fervura borbulhante do caldo, que desce aos borbotões da mão da colher. Depois tira tudo do tacho, para moldar e secar.
Pequenos tijolos nascendo doces, muito doces, açucarando a vida dura.
João joga canela e cravo. A gosto.

Wescley Gama, in Nove contos serranos

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