segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Cartas na Rua | DOIS


22

Ela não era uma policial de verdade, fazia um trabalho burocrático na polícia. E começou a voltar para casa e me contar sobre um cara que usava um alfinete de gravata roxo e era um “verdadeiro cavalheiro”.
Ah, ele é tão gentil!
Todas as noites tinha de ouvir notícias dele.
Bom — eu perguntava —, como estava o nosso velho Alfinete Roxo esta noite?
Ah — ela dizia —, sabe o que aconteceu?
Não, baby, é por isso que estou perguntando.
Ah, ele é TÃO cavalheiro!
Está bem. Está bem. O que aconteceu?
Sabe, ele tem passado por tanta coisa!
Imagino.
A esposa dele morreu, sabe...
Não, eu não sabia.
Não seja tão irônico. Estou lhe dizendo, a esposa dele morreu e isso lhe custou quinze mil dólares em medicamentos, hospital e serviço funerário.
Muito bem. E daí?
Eu estava vindo de um lado do saguão. Ele de outro. A gente se encontrou. Ele olhou para mim e, com um sotaque turco, ele me disse: “Ah, você é tão linda!”. E sabe o que ele fez?
Não, baby, me diga. Diga de uma vez.
Me beijou na testa, bem de leve, sempre bem de leve. E então ele seguiu em frente.
Posso dizer uma coisa sobre ele, baby. O cara viu filmes demais.
Como você sabia disso?
Do que você está falando?
Ele é dono de um drive-in. Ele o opera todas as noites depois do trabalho.
Isso explica tudo — eu disse.
Mas ele é tão cavalheiro! — ela disse.
Veja, baby. Não quero te ofender, mas...
Mas o quê?
Veja, você veio do interior. Eu já tive mais de cinquenta empregos, talvez mais de cem. Nunca fiquei em nenhum lugar por muito tempo. O que quero dizer é que há um certo tipo de jogo praticado em todos os escritórios da América. O pessoal se aborrece, não sabe o que fazer, daí começa a brincar de namoro de escritório. Na maior parte das vezes não significa nada além de um passatempo. Algumas vezes dão um jeito de combinar uma ou duas trepadas por fora. Mesmo assim, é só um passatempo qualquer, como jogar boliche, assistir tevê ou ir à festa de réveillon em Nova York. Você tem que entender que não significa nada além disso e assim você não acabará se magoando. Entende o que eu quero dizer?
Acho que as intenções do sr. Partisian são sinceras.
Você vai acabar espetada por esse tal alfinete, baby, não diga que não te avisei. Cuidado com esses elogios. São tão falsos como uma moeda de chumbo.
Ele não é um farsante. É um cavalheiro. Um verdadeiro cavalheiro. Gostaria que você fosse um cavalheiro também.
Desisti. Sentei no sofá e peguei meu esquema e tentei memorizar o Bulevar Babcock. O Babcock quebrava em: 14, 39, 51, 62. Que inferno! Será que eu não conseguiria decorar isso?

23

Enfim tive um dia de folga e sabe o que fiz? Levantei mais cedo, antes de Joyce voltar e fui até o mercado fazer umas compras, e talvez eu estivesse enlouquecendo. Andei pelo mercado e em vez de comprar um belo bife suculento ou mesmo um pouco de frango assado, sabe o que fiz? Larguei tudo de mão e andei até a seção de produtos orientais e comecei a encher minha cesta com polvos, caranguejos, caracóis, algas, e assim por diante. O atendente me deu uma olhada estranha e começou a empacotar tudo.
Quando Joyce voltou para casa naquela noite, estava tudo sobre a mesa, pronto para comer. Uma mistura de algas cozidas com um prato de caranguejos e uma pilha de pequenos caracóis dourados fritos na manteiga.
Levei-a para a cozinha e lhe mostrei a mesa posta.
Fiz isso em sua homenagem — eu disse —, em respeito ao nosso amor.
Mas que porcaria é essa? — ela perguntou.
Caracóis.
Caracóis?
Sim, você não sabe que durante séculos os orientais prosperaram com isso e coisas do gênero? Vamos homenageá-los e a nós também. Estão fritos na manteiga.
Joyce se aproximou e sentou.
Eu comecei a lançar caracóis para dentro da minha boca.
Caralho, esse negócio é bom, baby! PROVE UM!
Joyce se inclinou e cravou o garfo num deles enquanto olhava para os outros no prato.
Abocanhei um delicioso punhado de algas marinhas.
Bom, hein, baby?
Ela mastigou o caracol em sua boca.
Fritos em manteiga dourada!
Peguei alguns na mão e despejei na boca.
Os séculos estão do nosso lado, baby. Não temos como errar!
Finalmente ela engoliu. Depois examinou o resto no prato.
Todos têm esses cuzinhos apertados! É horrível! Horrível!
O que há de horrível sobre um cuzinho, baby?
Ela cobriu a boca com um guardanapo. Ergueu-se e correu para o banheiro. Começou a vomitar. Berrei da cozinha:
O QUE HÁ DE ERRADO COM OS CUS, BABY? VOCÊ TEM UM CU, EU TENHO UM CU! VOCÊ VAI AO MERCADO E COMPRA UM PEDAÇO DE FILÉ, QUE É PARTE DE ALGO QUE UM DIA TEVE UM CU! OS CUS COBREM A TERRA! DE CERTA FORMA ATÉ AS ÁRVORES TÊM CUS, MAS A GENTE NÃO OS VÊ, ELAS APENAS DEIXAM CAIR AS FOLHAS. SEU CU, MEU CU, O MUNDO ESTÁ CHEIO DE BILHÕES DE CUS. O PRESIDENTE TEM UM CU, O GAROTO QUE LAVA CARROS TEM UM CU, O JUIZ E O ASSASSINO TÊM CUS... ATÉ O ALFINETE ROXO TEM UM CU!
Ah, pare com isso! PARE!
Ela vomitou de novo. Suburbana. Abri a garrafa de saquê e tomei um gole.

24

Foi cerca de uma semana depois, lá pelas sete da manhã. Eu tinha ganhado um outro dia de folga e, após uma dupla jornada de trabalho, estava sobre a bunda de Joyce, sobre seu cu, dormindo, quase dormindo, quando a campainha tocou e me levantei e fui atender.
Lá estava um homenzinho de gravata. Enfiou alguns papéis na minha mão e desapareceu.
Eram papéis de divórcio. Lá se iam meus milhões. Mas aquilo não me deixou zangado; afinal, nunca tive qualquer esperança de entrar nesses milhões.
Acordei Joyce.
Que é?
Você não podia me acordar numa hora mais decente?
Mostrei-lhe os papéis.
Lamento, Hank.
Está bem. Você só tinha que ter me falado. Eu concordaria igual. Acabamos de fazer amor duas vezes e rimos e nos divertimos. Não entendo isso. E você já sabia de tudo o tempo todo. Vá entender uma mulher!
Olhe, eu preenchi os papéis quando tivemos uma briga. Pensei, se eu esperar até que me acalme nunca farei isso.
Está bem, baby, admiro uma mulher honesta. É o Alfinete Roxo?
É o Alfinete Roxo — ela disse.
Eu ri. Foi uma risada bem triste, devo admitir. Mas não pude controlar.
É fácil fazer um vaticínio. Mas você vai ter problemas com ele. Desejo-lhe sorte, baby. Você sabe, há um bocado de coisas que amei em você que não tem a ver com dinheiro.
Ela começou a chorar sobre o travesseiro, deitada de bruços, tremendo toda. Era apenas uma garota interiorana, mimada e confusa. Ali estava ela tremendo, chorando, sem fingimento nenhum. Aquilo era terrível.
As cobertas haviam caído e eu fitava suas costas brancas, as omoplatas como querendo romper a pele e se transformar em asas. Pequenos ossos. Ela estava desamparada.
Fui para a cama, toquei suas costas, apalpei-a, apalpei-a, acalmei-a, e então ela voltou a chorar:
Ah, Hank, eu te amo, amo muito, desculpe, eu sinto tanto, desculpe!
Ela estava realmente indo até o fundo.
Depois de um tempo, parecia ser eu quem estava me divorciando dela.
Em seguida trepamos com tudo, em homenagem aos velhos tempos.
Ela ficou com a casa, o cachorro, as moscas, os gerânios.
Ajudou-me inclusive a fazer as malas. Dobrou com cuidado minhas calças para acomodá-las direito. Acomodou minhas cuecas e meu barbeador. Quando eu estava pronto para partir, começou a chorar de novo. Mordi-a na orelha direita e desci as escadas com minhas coisas. Entrei no carro e comecei a cruzar as ruas para cima e para baixo, à procura de uma placa de aluguel.
Não me parecia ser nenhuma novidade fazer aquilo.

Charles Bukowski, in Cartas na Rua

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