22
Ela
não era uma policial de verdade, fazia um trabalho burocrático na
polícia. E começou a voltar para casa e me contar sobre um cara que
usava um alfinete de gravata roxo e era um “verdadeiro cavalheiro”.
— Ah,
ele é tão gentil!
Todas
as noites tinha de ouvir notícias dele.
— Bom
— eu perguntava —, como estava o nosso velho Alfinete Roxo esta
noite?
— Ah
— ela dizia —, sabe o que aconteceu?
— Não,
baby, é por isso que estou perguntando.
— Ah,
ele é TÃO cavalheiro!
— Está
bem. Está bem. O que aconteceu?
— Sabe,
ele tem passado por tanta coisa!
— Imagino.
— A
esposa dele morreu, sabe...
— Não,
eu não sabia.
— Não
seja tão irônico. Estou lhe dizendo, a esposa dele morreu e isso
lhe custou quinze mil dólares em medicamentos, hospital e serviço
funerário.
— Muito
bem. E daí?
— Eu
estava vindo de um lado do saguão. Ele de outro. A gente se
encontrou. Ele olhou para mim e, com um sotaque turco, ele me disse:
“Ah, você é tão linda!”. E sabe o que ele fez?
— Não,
baby, me diga. Diga de uma vez.
— Me
beijou na testa, bem de leve, sempre bem de leve. E então ele seguiu
em frente.
— Posso
dizer uma coisa sobre ele, baby. O cara viu filmes demais.
— Como
você sabia disso?
— Do
que você está falando?
— Ele
é dono de um drive-in. Ele o opera todas as noites depois do
trabalho.
— Isso
explica tudo — eu disse.
— Mas
ele é tão cavalheiro! — ela disse.
— Veja,
baby. Não quero te ofender, mas...
— Mas
o quê?
— Veja,
você veio do interior. Eu já tive mais de cinquenta empregos,
talvez mais de cem. Nunca fiquei em nenhum lugar por muito tempo. O
que quero dizer é que há um certo tipo de jogo praticado em todos
os escritórios da América. O pessoal se aborrece, não sabe o que
fazer, daí começa a brincar de namoro de escritório. Na maior
parte das vezes não significa nada além de um passatempo. Algumas
vezes dão um jeito de combinar uma ou duas trepadas por fora. Mesmo
assim, é só um passatempo qualquer, como jogar boliche, assistir
tevê ou ir à festa de réveillon em Nova York. Você tem que
entender que não significa nada além disso e assim você não
acabará se magoando. Entende o que eu quero dizer?
— Acho
que as intenções do sr. Partisian são sinceras.
— Você
vai acabar espetada por esse tal alfinete, baby, não diga que não
te avisei. Cuidado com esses elogios. São tão falsos como uma moeda
de chumbo.
— Ele
não é um farsante. É um cavalheiro. Um verdadeiro cavalheiro.
Gostaria que você fosse um cavalheiro também.
Desisti.
Sentei no sofá e peguei meu esquema e tentei memorizar o Bulevar
Babcock. O Babcock quebrava em: 14, 39, 51, 62. Que inferno! Será
que eu não conseguiria decorar isso?
23
Enfim
tive um dia de folga e sabe o que fiz? Levantei mais cedo, antes de
Joyce voltar e fui até o mercado fazer umas compras, e talvez eu
estivesse enlouquecendo. Andei pelo mercado e em vez de comprar um
belo bife suculento ou mesmo um pouco de frango assado, sabe o que
fiz? Larguei tudo de mão e andei até a seção de produtos
orientais e comecei a encher minha cesta com polvos, caranguejos,
caracóis, algas, e assim por diante. O atendente me deu uma olhada
estranha e começou a empacotar tudo.
Quando
Joyce voltou para casa naquela noite, estava tudo sobre a mesa,
pronto para comer. Uma mistura de algas cozidas com um prato de
caranguejos e uma pilha de pequenos caracóis dourados fritos na
manteiga.
Levei-a
para a cozinha e lhe mostrei a mesa posta.
— Fiz
isso em sua homenagem — eu disse —, em respeito ao nosso amor.
— Mas
que porcaria é essa? — ela perguntou.
— Caracóis.
— Caracóis?
— Sim,
você não sabe que durante séculos os orientais prosperaram com
isso e coisas do gênero? Vamos homenageá-los e a nós também.
Estão fritos na manteiga.
Joyce
se aproximou e sentou.
Eu
comecei a lançar caracóis para dentro da minha boca.
— Caralho,
esse negócio é bom, baby! PROVE UM!
Joyce
se inclinou e cravou o garfo num deles enquanto olhava para os outros
no prato.
Abocanhei
um delicioso punhado de algas marinhas.
— Bom,
hein, baby?
Ela
mastigou o caracol em sua boca.
— Fritos
em manteiga dourada!
Peguei
alguns na mão e despejei na boca.
— Os
séculos estão do nosso lado, baby. Não temos como errar!
Finalmente
ela engoliu. Depois examinou o resto no prato.
— Todos
têm esses cuzinhos apertados! É horrível! Horrível!
— O
que há de horrível sobre um cuzinho, baby?
Ela
cobriu a boca com um guardanapo. Ergueu-se e correu para o banheiro.
Começou a vomitar. Berrei da cozinha:
— O
QUE HÁ DE ERRADO COM OS CUS, BABY? VOCÊ TEM UM CU, EU TENHO UM CU!
VOCÊ VAI AO MERCADO E COMPRA UM PEDAÇO DE FILÉ, QUE É PARTE DE
ALGO QUE UM DIA TEVE UM CU! OS CUS COBREM A TERRA! DE CERTA FORMA ATÉ
AS ÁRVORES TÊM CUS, MAS A GENTE NÃO OS VÊ, ELAS APENAS DEIXAM
CAIR AS FOLHAS. SEU CU, MEU CU, O MUNDO ESTÁ CHEIO DE BILHÕES DE
CUS. O PRESIDENTE TEM UM CU, O GAROTO QUE LAVA CARROS TEM UM CU, O
JUIZ E O ASSASSINO TÊM CUS... ATÉ O ALFINETE ROXO TEM UM CU!
— Ah,
pare com isso! PARE!
Ela
vomitou de novo. Suburbana. Abri a garrafa de saquê e tomei um gole.
24
Foi
cerca de uma semana depois, lá pelas sete da manhã. Eu tinha
ganhado um outro dia de folga e, após uma dupla jornada de trabalho,
estava sobre a bunda de Joyce, sobre seu cu, dormindo, quase
dormindo, quando a campainha tocou e me levantei e fui atender.
Lá
estava um homenzinho de gravata. Enfiou alguns papéis na minha mão
e desapareceu.
Eram
papéis de divórcio. Lá se iam meus milhões. Mas aquilo não me
deixou zangado; afinal, nunca tive qualquer esperança de entrar
nesses milhões.
Acordei
Joyce.
— Que
é?
— Você
não podia me acordar numa hora mais decente?
Mostrei-lhe
os papéis.
— Lamento,
Hank.
— Está
bem. Você só tinha que ter me falado. Eu concordaria igual.
Acabamos de fazer amor duas vezes e rimos e nos divertimos. Não
entendo isso. E você já sabia de tudo o tempo todo. Vá entender
uma mulher!
— Olhe,
eu preenchi os papéis quando tivemos uma briga. Pensei, se eu
esperar até que me acalme nunca farei isso.
— Está
bem, baby, admiro uma mulher honesta. É o Alfinete Roxo?
— É
o Alfinete Roxo — ela disse.
Eu
ri. Foi uma risada bem triste, devo admitir. Mas não pude controlar.
— É
fácil fazer um vaticínio. Mas você vai ter problemas com ele.
Desejo-lhe sorte, baby. Você sabe, há um bocado de coisas que amei
em você que não tem a ver com dinheiro.
Ela
começou a chorar sobre o travesseiro, deitada de bruços, tremendo
toda. Era apenas uma garota interiorana, mimada e confusa. Ali estava
ela tremendo, chorando, sem fingimento nenhum. Aquilo era terrível.
As
cobertas haviam caído e eu fitava suas costas brancas, as omoplatas
como querendo romper a pele e se transformar em asas. Pequenos ossos.
Ela estava desamparada.
Fui
para a cama, toquei suas costas, apalpei-a, apalpei-a, acalmei-a, e
então ela voltou a chorar:
— Ah,
Hank, eu te amo, amo muito, desculpe, eu sinto tanto, desculpe!
Ela
estava realmente indo até o fundo.
Depois
de um tempo, parecia ser eu quem estava me divorciando dela.
Em
seguida trepamos com tudo, em homenagem aos velhos tempos.
Ela
ficou com a casa, o cachorro, as moscas, os gerânios.
Ajudou-me
inclusive a fazer as malas. Dobrou com cuidado minhas calças para
acomodá-las direito. Acomodou minhas cuecas e meu barbeador. Quando
eu estava pronto para partir, começou a chorar de novo. Mordi-a na
orelha direita e desci as escadas com minhas coisas. Entrei no carro
e comecei a cruzar as ruas para cima e para baixo, à procura de uma
placa de aluguel.
Não
me parecia ser nenhuma novidade fazer aquilo.
Charles Bukowski, in Cartas na Rua

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