O
voo é às treze horas. Tenho que acordar às nove porque há quatro
dias já estou fazendo a conta: uma hora antes chegar ao aeroporto,
uma hora antes de chegar ao aeroporto, sair de casa. Uma hora antes.
Começar a me arrumar e arrumar as coisas. Uma hora antes de tudo,
uma hora. Porque, com sorte, antecipo uma hora o voo e, chegando uma
hora antes ao Rio, deito um pouco na cama do hotel antes de ir à
reunião. E descanso uma hora. Ter uma hora é palpável. É
como ter um amigo chamado Uma Hora que é gente finíssima, sereno e
absolutamente dedicado até que, uma hora depois, ele pega sua
maletinha de ar e vaza, me deixando acompanhada apenas do Vício, um
magrelo com a pele ruim que me diz: “se você correr muito, pode
ter uma hora de novo”. Uma Hora é a puta que eu pago só
para ficar dizendo no meu ouvido: “tudo bem, eu tô aqui”. E:
“você ainda tem uma hora para eu ficar te sussurrando que você
ainda tem uma hora”.
Eis
o gozo supremo do neurótico: ele está indo tão bem com sua vida,
que lhe foi cedida por alguma divindade suprema uma hora. Ele está
em controle tão pleno e absoluto de sua existência de cidadão bem
enturmado com a sociedade, que ele não só tem emprego, cônjuge,
agenda, cachorro e linhaça. Ele tem tudo isso e ainda uma hora. No
avião (que antecipei apenas meia hora, porque a outra meia hora eu
perdi em dez vezes de três minutos em que fiz coisas “mais lento
do que o esperado” ou apenas fiquei catatônica pensando em como
ter tempo) faço uma lista mental de tudo o que posso fazer na meia
hora anterior à reunião: almoçar e escovar os dentes; banho rápido
e cochilada; chegar antes para puxar o saco do chefe e cocô; me
matar e comprar chicletes (não nessa ordem); desistir da reunião e
inventar uma desculpa; pensar em sexo e mandar uma mensagem “como
vai?” para a minha mãe (sempre quando em intenção de desfrute,
seja solitário ou numa relação, seja de amor ou frugalidade, eu
lembro que deveria “usar meu tempo com coisa melhor”, como dar
amor a quem me criou — mas sempre faço a opção pelo carnal, pois
sou adulta e é isso que se aprende na terapia: ser adulto é transar
em vez de pensar na mãe).
Tirar
o esmalte e curtir vídeo de bebê com cachorro; morrer e desistir de
morrer (só possível mentalmente, mas noventa e oito por cento da
minha vida só é possível mentalmente, então não quis pular essa
possibilidade). Ainda posso fazer um mix escolhendo uma opção de
uma frente binária e outra opção de outra frente binária. Escolho
banho e lanche rápido. Lanche rápido não tinha, né? Só tinha
almoçar. Mas faço de propósito, porque acho ridículo ter que
fazer algo só porque planejei isso há uma hora. Ou há duas horas.
Ou uma hora e uns quebrados, apesar de os quebrados me angustiarem um
pouco. Daí, porque interrompi o jorro da obsessão, sei que tenho
uma hora, até começar tudo de novo. Essa uma hora, diferente da uma
hora que batalhei e me foi dada por mérito, eu roubei e me foi dada
por mau comportamento. Gosto das duas, igualmente. Assim como gosto
igualmente do oposto de tudo aquilo de que gosto. Em suma, eu não
deveria ter parado com o remédio. E superdeveria. Só tenho um
segundo agora.
Tati Bernardi, in Depois a louca sou eu
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