segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Uma hora

O voo é às treze horas. Tenho que acordar às nove porque há quatro dias já estou fazendo a conta: uma hora antes chegar ao aeroporto, uma hora antes de chegar ao aeroporto, sair de casa. Uma hora antes. Começar a me arrumar e arrumar as coisas. Uma hora antes de tudo, uma hora. Porque, com sorte, antecipo uma hora o voo e, chegando uma hora antes ao Rio, deito um pouco na cama do hotel antes de ir à reunião. E descanso uma hora. Ter uma hora é palpável. É como ter um amigo chamado Uma Hora que é gente finíssima, sereno e absolutamente dedicado até que, uma hora depois, ele pega sua maletinha de ar e vaza, me deixando acompanhada apenas do Vício, um magrelo com a pele ruim que me diz: “se você correr muito, pode ter uma hora de novo”. Uma Hora é a puta que eu pago só para ficar dizendo no meu ouvido: “tudo bem, eu tô aqui”. E: “você ainda tem uma hora para eu ficar te sussurrando que você ainda tem uma hora”.
Eis o gozo supremo do neurótico: ele está indo tão bem com sua vida, que lhe foi cedida por alguma divindade suprema uma hora. Ele está em controle tão pleno e absoluto de sua existência de cidadão bem enturmado com a sociedade, que ele não só tem emprego, cônjuge, agenda, cachorro e linhaça. Ele tem tudo isso e ainda uma hora. No avião (que antecipei apenas meia hora, porque a outra meia hora eu perdi em dez vezes de três minutos em que fiz coisas “mais lento do que o esperado” ou apenas fiquei catatônica pensando em como ter tempo) faço uma lista mental de tudo o que posso fazer na meia hora anterior à reunião: almoçar e escovar os dentes; banho rápido e cochilada; chegar antes para puxar o saco do chefe e cocô; me matar e comprar chicletes (não nessa ordem); desistir da reunião e inventar uma desculpa; pensar em sexo e mandar uma mensagem “como vai?” para a minha mãe (sempre quando em intenção de desfrute, seja solitário ou numa relação, seja de amor ou frugalidade, eu lembro que deveria “usar meu tempo com coisa melhor”, como dar amor a quem me criou — mas sempre faço a opção pelo carnal, pois sou adulta e é isso que se aprende na terapia: ser adulto é transar em vez de pensar na mãe).
Tirar o esmalte e curtir vídeo de bebê com cachorro; morrer e desistir de morrer (só possível mentalmente, mas noventa e oito por cento da minha vida só é possível mentalmente, então não quis pular essa possibilidade). Ainda posso fazer um mix escolhendo uma opção de uma frente binária e outra opção de outra frente binária. Escolho banho e lanche rápido. Lanche rápido não tinha, né? Só tinha almoçar. Mas faço de propósito, porque acho ridículo ter que fazer algo só porque planejei isso há uma hora. Ou há duas horas. Ou uma hora e uns quebrados, apesar de os quebrados me angustiarem um pouco. Daí, porque interrompi o jorro da obsessão, sei que tenho uma hora, até começar tudo de novo. Essa uma hora, diferente da uma hora que batalhei e me foi dada por mérito, eu roubei e me foi dada por mau comportamento. Gosto das duas, igualmente. Assim como gosto igualmente do oposto de tudo aquilo de que gosto. Em suma, eu não deveria ter parado com o remédio. E superdeveria. Só tenho um segundo agora.

Tati Bernardi, in Depois a louca sou eu

Nenhum comentário:

Postar um comentário