Dia
12 de novembro de 2008
Os
dogmas mais nocivos nem sequer são os que como tal foram
expressamente enunciados, como é o caso dos dogmas religiosos,
porque estes apelam à fé, e a fé não sabe nem pode discutir-se a
si mesma. O mal é que se tenha transformado em dogma laico o que,
por sua própria natureza, nunca aspirou a tal. Marx, por exemplo,
não dogmatizou, mas logo não faltaram pseudo-marxistas para
converter O capital em outra bíblia, trocando o pensamento
activo pela glosa estéril ou pela interpretação viciosa. Viu-se o
que aconteceu. Um dia, se formos capazes de desfazer-nos dos antigos
e férreos moldes, da pele velha que não nos deixou crescer,
voltaremos a encontrar-nos com Marx: talvez uma “releitura
marxista” do marxismo nos ajude a abrir caminhos mais generosos ao
acto de pensar. Que terá que começar por procurar resposta à
pergunta fundamental: “Por que penso como penso?”. Com outras
palavras: “Que é a ideologia?”. Parecem perguntas de pouca monta
e não creio que haja outras mais importantes…
José Saramago, in O caderno
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