Quem
me introduziu na apicultura foi meu primo Mustafá. Seu pai e seu avô
tinham sido apicultores nos vales verdes, a oeste da cordilheira
Antilíbano. Mustafá era um gênio com coração de menino. Estudou
e se tornou professor na Universidade de Damasco, pesquisando a
composição precisa do mel. Como viajava de lá para cá entre
Damasco e Alepo, quis que eu administrasse os apiários. Ele me
ensinou muito sobre o comportamento das abelhas e como manipulá-las.
As abelhas nativas ficavam agressivas com o calor, mas ele me mostrou
como entendê-las.
Quando
a universidade fechava para os meses de verão, Mustafá juntava-se a
mim em tempo integral em Alepo. Nós dois trabalhávamos duro, muitas
horas. No final, pensávamos como as abelhas, até comíamos como as
abelhas! Comíamos pólen misturado com mel, para nos mantermos no
calor.
Nos
primeiros dias, quando eu tinha meus vinte anos e ainda era novo no
trabalho, nossas colmeias eram feitas de matéria vegetal coberta com
lama. Mais tarde, substituímos os baús de cortiça e as colmeias de
terracota por caixas de madeira, e logo tínhamos mais de quinhentas
colônias! Produzíamos, no mínimo, dez toneladas de mel por ano.
Havia inúmeras abelhas, e elas me faziam sentir vivo. Quando eu
estava longe delas era como se uma grande festa tivesse terminado.
Anos depois, Mustafá abriu uma loja na parte nova da cidade. Além
de mel, ele vendia cosméticos à base de mel: cremes atraentes com
cheiro doce, sabonetes e produtos capilares de nossas próprias
abelhas. Ele tinha aberto a loja para a filha. Embora jovem à época,
ela achava que estudaria agricultura, exatamente como o pai. Assim,
Mustafá deu à loja o nome de Paraíso de Aya, e prometeu que, um
dia, se ela estudasse bastante, a loja seria dela. A filha adorava
vir cheirar os sabonetes e passar os cremes nas mãos. Era uma menina
inteligente para a idade, eu me lembro de uma vez em que ela disse:
“Esta loja é como o mundo cheiraria se não houvesse humanos”.
Mustafá
não queria uma vida tranquila. Ele sempre se esforçou para fazer
mais e aprender mais. Nunca vi isto em nenhum outro ser humano. Por
mais que progredíssemos, mesmo quando tínhamos clientes importantes
da Europa, da Ásia e do Golfo, era eu quem cuidava das abelhas, a
pessoa em quem ele confiava para isto.
Ele
dizia que eu tinha uma sensibilidade que faltava na maioria dos
homens, que eu entendia os ritmos e os padrões delas. Ele tinha
razão. Aprendi como realmente escutar as abelhas e falava com elas
como se fossem um corpo que respira e que tem um coração, porque,
entenda, as abelhas trabalham em conjunto. Mesmo quando, no final do
verão, os zangões são mortos pelas operárias para preservar os
recursos alimentícios, elas continuam trabalhando juntas, como uma
entidade. Elas se comunicam entre si através de uma dança. Levei
anos para entendê-las, e depois disso, o mundo à minha volta nunca
mais pareceu o mesmo, nem soou do mesmo jeito.
Mas
com o passar dos anos, o deserto foi crescendo lentamente, o clima
ficando mais inóspito, os rios foram secando, os fazendeiros dando
duro; só as abelhas eram resistentes à seca. “Olhe para estas
pequenas guerreiras”, Afra dizia nos dias em que vinha visitar os
apiários com Sami, uma trouxinha embrulhada em seus braços, “olhe
para elas ainda trabalhando, quando tudo mais está morrendo!”.
Afra sempre rezava por chuva, porque temia as tempestades de areia e
as secas. Quando uma tempestade de areia se aproximava, podíamos
ver, da nossa varanda, o céu acima da cidade ficar roxo, e então
havia um assobio profundo na atmosfera, e Afra corria à volta da
casa fechando todas as portas, aferrolhando todas as janelas e
venezianas.
Todo
sábado, íamos jantar na casa de Mustafá. Dahab e Mustafá
cozinhavam juntos, Mustafá pesando meticulosamente na balança cada
ingrediente, cada tempero, como se um mínimo erro fosse estragar
toda a refeição. Dahab era uma mulher alta, quase da mesma altura
que o marido, e ficava ao lado dele sacudindo a cabeça, como eu a
tinha visto fazer com Firas e Aya. “Vamos logo”, dizia. “Vamos
logo! Neste passo vamos comer esta refeição de sábado no próximo
sábado.” Ele cantarolava enquanto cozinhava, e parava de vinte em
vinte minutos, ou coisa assim, para fumar, ficando no pátio sob a
árvore florida, mordendo e aspirando a ponta do cigarro.
Eu
me juntava a ele, mas nesses momentos ele ficava quieto, os olhos
cintilando pelo calor da cozinha, os pensamentos em algum outro
lugar. Mustafá começou a temer pelo pior antes de mim, e eu
percebia a preocupação nas linhas do seu rosto.
Eles
moravam no andar térreo de um prédio de apartamentos, e o pátio
era fechado em três lados pelos muros dos prédios vizinhos, de modo
que sempre estava fresco e cheio de sombras. Os sons dos terraços
acima desciam até nós – trechos de conversas, música, o leve
murmúrio de aparelhos de televisão. O pátio possuía videiras
repletas de uvas, e uma treliça de jasmim cobrindo uma parede, e em
outra, uma prateleira de jarros vazios e porções de favos de mel.
A
maior parte do pátio era ocupada por uma mesa de jardim de metal,
logo abaixo do limoeiro, mas havia comedouros de passarinhos ao longo
das bordas e uma hortinha num quadrado de terra, onde Mustafá
tentava cultivar ervas. A maioria delas murchava por não haver luz
solar suficiente. Eu observava meu primo apertar uma das flores do
limoeiro entre o polegar e o indicador e aspirar o perfume.
Nesses
momentos, na tranquilidade de uma noite de sábado, ele começava a
ruminar coisas, a ponderar; sua mente nunca conseguia descansar,
nunca estava quieta.
– Você
já imaginou como seria ter uma vida diferente? – ele me perguntou
em uma dessas noites.
– Como
assim?
– Às
vezes me assusta pensar em como a vida pode tomar um ou outro rumo. E
se eu estivesse trabalhando em algum lugar num escritório? E se você
tivesse escutado seu pai e terminado numa loja de tecidos? Temos
muito a agradecer.
Não
respondi. Embora minha vida pudesse, facilmente, ter seguido outra
direção, não havia a menor chance de Mustafá terminar num
escritório. Não, seus pensamentos sombrios vinham de algum outro
lugar, como se ele já tivesse medo de perder tudo, como se algum eco
do futuro estivesse voltando para trás e sussurrando em seu ouvido.
Para
grande aborrecimento de Mustafá, seu filho, Firas, nunca deixava o
computador para ajudar na refeição. “Firas!” Mustafá chamava,
indo para a cozinha. “Levante-se antes de ficar colado nessa
cadeira!” Mas Firas ficava na cadeira de vime da sala de visitas,
de camiseta e short. Era um rapaz esguio, de doze anos, rosto
comprido e cabelo ligeiramente crescido, e quando sorria, desafiando
o pai, por um momento ficava parecido com um cão de caça da raça
Saluki, do tipo que se encontra no deserto.
Aya,
que era apenas um ano mais velha do que o irmão, pegava Sami pela
mão e arrumava a mesa; a essa altura, ele tinha três anos e andava
por lá como um homenzinho numa missão. Ela lhe dava um prato limpo
ou uma xícara para segurar, de modo a ele sentir que estava
ajudando. Aya tinha cabelos dourados, como a mãe, e Sami puxava seus
cachos sempre que ela se curvava, e ria quando eles saltavam de volta
para o lugar. E então, todos nós participávamos, até Firas –
Mustafá puxava-o da cadeira pelo braço esquelético –, e
levávamos travessas fumegantes, saladas coloridas, pastas e pães
para a mesa do pátio. Às vezes tínhamos lentilhas vermelhas e sopa
de batata doce com cominho, ou kawaj com carne e abobrinhas,
corações de alcachofra recheados, cozido de feijão verde, tabule,
ou espinafre com pinhole e romã. Mais tarde, baclava embebida
em mel e bolinhas de massa luqaimat pingando calda ou damasco
em conserva, preparado por Afra. Firas estaria no celular, e Mustafá
arrancava-o das suas mãos, colocando-o dentro de um dos potes vazios
de mel, mas ele nunca ficava realmente bravo com o filho; havia certo
humor entre eles, mesmo quando um confrontava o outro.
– Quando
é que eu posso pegar de volta? – Firas dizia.
– Quando
nevar no deserto.
E
quando o café estava na mesa, o celular estaria fora do pote de mel
e de volta às mãos de Firas.
– Da
próxima vez, Firas, ele não vai ser colocado num pote vazio!
Desde
que Mustafá estivesse cozinhando ou comendo, estava feliz. Era mais
tarde, quando o sol havia se posto e o perfume do jasmim noturno nos
envolvia, quando o ar estava parado e denso, que seu rosto desabava e
eu sabia que ele estava pensando, que a quietude e a escuridão da
noite tinham, mais uma vez, trazido sussurros do futuro.
– O
que foi, Mustafá? – perguntei uma noite, quando Dahab e Afra
enchiam a lava-louças depois do jantar, a risada estrondosa de Dahab
mandando os passarinhos além dos prédios e para o céu noturno. –
Ultimamente você não parece você.
– A
situação política está piorando – ele disse.
Eu
sabia que ele tinha razão, embora nenhum de nós quisesse, de fato,
conversar a respeito. Ele apagou seu cigarro e limpou os olhos com as
costas da mão.
– As
coisas vão ficar feias. Nós todos sabemos disto, não é? Mas
tentamos continuar a vida como era antes.
Ele
enfiou uma bolinha de massa na boca, como que para provar que tinha
razão. Era final de junho, e em março daquele ano a guerra civil
tinha começado com protestos em Damasco, trazendo desassossego e
violência para a Síria. Devo ter baixado o olhar a essa altura, e
talvez ele tenha visto a preocupação no meu rosto, porque quando
voltei a erguer os olhos, ele sorria.
– Vou
te dizer uma coisa. Que tal a gente criar mais receitas para a Aya?
Tenho algumas ideias, mel de eucalipto com lavanda!
Seus
olhos brilharam e ele começou a considerar seu novo sabonete,
chamando Aya para levar seu laptop para fora e assim, juntos, os dois
poderem criar a composição exata. Embora Aya só tivesse quatorze
anos à época, Mustafá estava decidido a ser seu professor.
Aya
estava ocupada, brincando com Sami. Como meu filho gostava dela!
Estava sempre desesperado para ficar perto dela, sempre à procura
dela com seus olhos grandes e cinza. Eram da cor dos olhos da mãe.
Pedra. Ou da cor dos olhos de um recém-nascido antes de mudar para
castanho, só que os dele não mudaram, e também não ficaram mais
azuis. Sami seguia Aya por toda parte, puxando sua saia, e ela o
levantava bem alto nos braços, para lhe mostrar os passarinhos nos
comedouros, ou os insetos e lagartos que rastejavam pelas paredes e
pelo pátio cimentado.
A
cada receita, Mustafá e Aya avaliavam os pigmentos e ácidos, os
minerais em cada tipo de mel, para criar uma combinação que
funcionasse perfeitamente, segundo ele. Então, os dois calculavam a
densidade do açúcar, a granulação, a tendência a absorver
umidade do ar, imunidade contra deterioração. Eu dava sugestões, e
eles as aceitavam com sorrisos gentis, mas era a mente de Mustafá
que trabalhava como as abelhas. Era ele que tinha as ideias e a
inteligência, enquanto eu era quem fazia tudo acontecer.
E
por um tempo, naquelas noites, com os doces de damasco e o perfume do
jasmim noturno, Firas em seu computador e Aya sentada ao nosso lado
com Sami nos braços, enquanto ele mascava seu cabelo, a risada de
Afra e Dahab chegando até nós vinda lá da cozinha, naquelas noites
nós ainda éramos felizes. A vida estava bem próxima do normal para
que esquecêssemos nossas dúvidas, ou, pelo menos, para mantê-las
fechadas em algum lugar nos recessos sombrios das nossas mentes,
enquanto fazíamos planos para o futuro.
Christy Lefteri, in O homem que escutava as abelhas

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